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Prazer com a desgraça alheia

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05.09.2012 - 11:26:05


Goiânia – Passei ontem pela Alameda dos Buritis um pouco depois das 17 horas. Vim da Rua Dona Gercina (aquela que liga a Praça Cívica ao Bosque dos Buritis) e peguei em direção à Assembleia Legislativa. Um congestionamento incomum para aquele trecho e horário travava tudo na pista. Na hora me lembrei: “Eita… Deve ser aquele negócio dos carros que pegaram fogo…”.

Eu tinha visto essa notícia no Twitter de alguém. Não dei bola. Se fôssemos dar moral para tudo que lemos ali, na boa, não sobraria tempo para fazer mais nada na vida. Só que dessa vez vacilei. Eu poderia ter tentado outro caminho, uma rota alternativa para fugir daquela confusão. Mas não me atentei e só fui refletir sobre isso empacado no meio do congestionamento. Quando a Inês é morta, não há muito o que fazer. Aumentei um pouco o som do carro e fui curtir o astral do bosque.

Lentamente, fui me aproximando da cena não usual. Fiquei pasmo quando observei que o acidente havia acontecido não na pista em que eu trafegava, mas na oposta, sentido Anhanguera – Assis Chateaubriand. O motivo do congestionamento gigante era a curiosidade geral pelo acontecido. Na hora, Maracatu de Tiro Certeiro do Chico Science e Nação Zumbi ecoou em minha cabeça. As pessoas parecem urubus observando com prazer mórbido a desgraça alheia.

Nego não tem o menor pudor em estar o mais próximo possível da tragédia, desde que ele não seja o protagonista. Quer ver tudo ali, saber dos detalhes, investigar as nuances e passar para frente suas impressões. Detestável. Se porcaria vende, a desgraça vende o dobro. Afinal, a desgraça é a pior das porcarias.

Quando eu tinha 12 anos, eu e meu amigo, hoje advogado, Marcus ficávamos bolando planos mirabolantes para ganhar algum dinheiro. Nosso objetivo era alugar mais fitas de Mega Drive para passar o final de semana jogando videogame. É claro que nenhuma ideia prosperou. Enquanto estávamos matutando formas de arrecadar alguma coisa, ele pensou em cercar as batidas de carro na porta da casa dele e cobrar uma moedinha para as pessoas se aproximarem. Não tenho dúvidas de que, deixando de lado questões de ordem prática, foi o melhor plano que surgiu de nossas juvenis cabeças para ganhar dinheiro.

O ser humano sente uma atração nojenta pela desgraça. Fico absolutamente derrotado quando recebo do telejornal matutino que assisto um balde de sangue na cabeça antes de ir para o trabalho. Já começo o dia olhando para baixo. Sei que esse telejornal só adotou essa postura depois de tomar muito pau da concorrência, sempre perdendo em audiência para o mundo cão. Pois é, esse é o mundo novo. Quem não quiser ficar por aqui, por favor, puxe a cordinha e desça no próximo ponto. 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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