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Perfume de interiores

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24.06.2014 - 08:13:41
 

 
Por sete anos e depois por outros sete, eu o persegui. Por mais que me esforce, não alcanço aquele lugar da memória em que o percebi pela primeira vez. Talvez tenha sido na escola, misturado ao cheiro adocicado composto por pó de giz, suor, sujeira, açúcar e o encanto inicial pelo conhecimento, que emanava de mim e de todos os outros meninos. Talvez tenha sido na cozinha da fazenda, quando minha mãe, num final de tarde,  me interrompia no embate com meus brinquedos, para me servir o delicioso olor de chá de alfavaca e biscoito frito, um odor que se misturava à fumaça da lenha convertida em brasa na fornalha e do querosene queimado das lamparinas, fumaça que havia se impregnado nas paredes e nos caibros e ripas do telhado,  e que também se unia ao ranço de alho de suas mãos maternais, corroídas de sabão, ásperas e destreinadas para carinhos raros.
 
Talvez eu o tenha sentido pela primeira vez confundido em minhas primícias tardias com a maresia e em meus prelúdios olfativos e epidérmicos com o primeiro homem. Até hoje, muitas vezes, muito tempo afastada da primeira vez que cheirei o mar, tão distante dele, entranhada nesse cerrado,  emaranhada em raízes nesse oco de mundo, de repente sinto, em meio ao descampado onde se plantou o edifício solitário em que trabalho, invadindo minhas narinas e mesmo inundando o céu da boca, inesperadamente, o perfume das ondas, do sal, da misteriosa vida submarina, dos mistérios das distâncias e do desconhecido.
 
Do mesmo modo, quantas vezes acreditei tê-lo encontrado quando me surpreendiam novamente trazidos pelo vento os eflúvios do primeiro amor, a fragrância formada por notas viris, um quê de lavanda, de cânfora do creme de barbear, do sumo masculino. Essa fragrância debalde  tentei apreendê-la, guardando uma camiseta que deveria exalar amor por longos anos, mas que ao fim de poucos meses só emanava mofo.
 
Em vão, repetidamente em vão, eu me iludi e me esforcei por retê-lo, achando que  finalmente eu  o encontrara no beijo precário daquele homem que rescendia a mato; nos pelos do tórax provisório daquele outro que cheirava ao tronco forte de uma araucária (como se algum dia eu tivesse visto de perto ou respirado uma araucária); no delicado sulco transitório que se formava entre o pescoço e o ombro, ou naquela chácara quente do centro do peito, entre os mamilos, e em que se depositava um tipo de bálsamo mineral de pedra limada por muitas águas de cachoeira.
 
Ao seu encalço eu, como um cão enamorado, viajei a tantos e insuficientes lugares, e comprei diversos frascos franceses que transportavam desejo, prazer, euforia, calma e até alegria, mas que não o continham ainda a ele, se é que ele poderia mesmo ser aprisionado em alguma botelha, como um gênio em uma lâmpada mágica. O conteúdo valioso desses caros recipientes eu borrifei atrás das orelhas, na nuca, entre os seios, entre as coxas, alcançando assim prazer e apaziguamento momentâneos. Mas não, ainda não era ele.
 
Quando em momentos tão comuns à vida humana, minhas narinas se encheram da mórbida mistura de flores e velas ou em que eu não sabia sequer onde estava e para onde apontava meu pobre nariz,  tendo perdido o olfato intuitivo (isso me cheira mal, aquilo cheira a encrenca), eu o procurei nos rosários perfumados, nos templos que rescendiam a rosas ( o cheiro que para mim tem Nossa Senhora) e , sim, eu encontrei consolo para o desespero e exílio no  êxtase místico. Não era ele ainda, no entanto.
 
Até senti a felicidade fugaz das ilusões, acreditando que o tinha finalmente encontrado nas emanações da terra árida molhada pelos primeiros pingos de chuva, no aroma do bolo  ou do pão recém-saídos do forno, do café fumegando recém-passado,  das toalhas ou lençóis limpos, nos diferentes odores dos livros, tão diversos que podem prestar-se a uma longa classificação: cheiro novo, cheiro de tinta fresca, cheiro de coisa antiga, cheiro de histórias baratas… E até mesmo na combinação viciosa de fumo e vinho.
 
Quase tive certeza de que encontrara quando respirei pela primeira vez a pele recém-chegada ao mundo de meu filho,  virgem de sol e de tempo, a suavidade de sua pequena e frágil cabeça. Não era ele, ainda, todavia, embora sua chegada tenha sido decisiva para a aproximação daquele que eu tanto perseguia. É que levada pela maternidade a permanecer mais tempo em casa, mais me entranhei em mim, passando a apreciar os tão variados cheiros domésticos, provindos da inumerável gama de produtos de higiene e limpeza, sabonetes e lencinhos de bebê, líquidos para tornar mais transparentes os vidros,  mais brancos os assoalhos, mais lustrosa a madeira dos móveis…
 
Assim, procurando produtos para perfumar o ambiente que finalmente eu sentia poder chamar de lar, de repente reparei que há toda uma linha de "perfumes para interiores". Até então, eu, que costumava queimar incensos e óleos essenciais, jamais me detivera a refletir sobre a utilidade e importância desses produtos, tampouco sobre a ambiguidade e sutileza dessa designação. Perfumes para interiores ou de interiores? 
 
 Em uma loja especializada, deparei, dentro de um de seus muitos frascos, com um aroma que parecia evocá-lo. Comprei-o. Voltei ansiosa para casa. Espalhei-o por todo o apartamento e percebi que não, não era ele ainda, todavia. Mas em meu pensamento continuou ecoando: perfume de interiores, de interiores… De repente – faísca que explode em fogaréu – dei-me conta de que todos aqueles odores, exteriores, nada faziam além de me incitar a voltar para dentro, onde se guardavam todas as memórias olfativas e afetivas. Aquele perfume que eu tanto perseguia era afinal o resultado da demorada alquimia que se opera dentro da gente: as frustrações, as dores, os amores, as alegrias, os erros, os aprendizados, o coração ferido e assim lapidado, misturados e decantados, produzindo afinal uma sensação de paz, completude e, ouso dizer, felicidade. É daquela sorte de sentimentos que nos perfumam por dentro, sensação e emanação que nos preenchem rapidamente por uns breves momentos e que não se demoram, rápido evaporam…  

Essa sensação, essa descoberta eu bem que gostaria de poder compartilhar aqui, se as palavras, sinestésicas, pudessem exalar perfume. Sei, porém, que não posso, pois a tecnologia não chegou a tanto. Um simples clique em uma palavra não fará com que seja borrifado, como eu desejaria, mas sobretudo porque cada um tem que sair em perseguição ao seu próprio perfume…de interiores.
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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