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Pedaço de mim

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28.01.2013 - 16:40:10
 
Goiânia – Jovens que perdem a vida sempre comovem muito. Quando a morte acontece numa situação trágica e violenta, como foi o caso do incêndio na boate Kiss, que matou 231 adolescentes em Santa Maria (RS), neste final de semana, o choque parece ser ainda maior. Foram muitos sonhos interrompidos precocemente, de uma única vez. 
 
Sonhos que não pertenciam apenas às vítimas, mas também aos seus familiares. Impossível não pensar nos 462 pais e mães que começaram o dia com a triste notícia de que seus filhos nunca mais voltarão para casa. Quartos vazios, roupas intocadas, fotos congeladas para sempre nas redes sociais. O som ensurdecedor do silêncio. 
 
Não sei como um ser humano pode resistir à perda de um filho. É antinatural, é cruel, é inexplicável. Quanto mais conheço gente que passou por isso, mais me dou conta da minha pequenez e do quanto é preciso ser realmente forte para, como dizia Drummond, ter “os ombros que suportam o mundo”.
 
É o tipo de sofrimento impossível de ser disfarçado ou relativizado. É, como me disse certa vez uma mãe que perdeu o filho com leucemia, “a dor de uma amputação. Você não tem mais aquela perna e aprenderá a caminhar sem ela. Mas a caminhada nunca mais será a mesma e, muitas vezes, o membro que não está lá vai latejar”. 
 
Ou então, como me disse uma mãe há um ano, num encontro que resultou no texto “Para não morrer de amor” (http://www.aredacao.formacomunica.com.br/colunas/8308/fabricia-hamu/para-nao-morrer-de-amor), é a dor sem nome. “Quem perde o marido fica viúva, quem perde a mãe fica órfã. Mas quem perde o filho fica o quê?”, me questionava ela, numa angústia que saltava aos olhos. 
 
Não sei que nome se dá a essa dor. Não sei o quê fazer dela, o que apreender dessa experiência. O que tenho presenciado no convívio com pais e mães que perderam seus filhos é que essa é a maior prova de desapego à qual podemos ser submetidos. Desapego não apenas do ser gerado, amado e acalentado, mas de uma vida que terá de ser completamente ressignificada, reinventada.
 
A dureza da vida que se conhecia até então, as pequenezas que nos faziam sofrer, os aborrecimentos que pareciam tão grandes e intransponíveis tornam-se todos, de repende, pequenos e irrisórios.  Há que se aprender que o amor não se encontra mais do lado de fora, no semblante do filho querido, mas do lado de dentro, no coração onde ele estará para sempre guardado. 
 
É preciso coragem redobrada para entregar à vida o pedaço que ela nos tomou de volta. É necessário ter força extrema para enfrentar a falta mais dolorida que existe, aquela que Chico Buarque cantou nos versos: “Oh, pedaço de mim/ Oh, metade arrancada de mim/ Leva o vulto teu/ Que a saudade é o revés de um parto/ A saudade é arrumar o quarto/ Do filho que já morreu…”.
 
Desde ontem tenho lido muita coisa sobre a tragédia de Santa Maria. Porém, creio que nada me tocou tanto quanto o último parágrafo do texto da repórter Bruna Scirea (http://www.jornaldebeltrao.com.br/geral/daquilo-que-doi-e-deixa-saudade-82367/), que estava no plantão do jornal Zero Hora quando a boate pegou fogo. “(…) Depois de mais de oito horas de cobertura, de adrenalina saindo pelos poros, um tweet vindo do colega Mauro Saraiva Jr., do Grupo RBS, arrancou o que restava de mim. O choro foi inevitável ao ler que um bombeiro apanhou um daqueles celulares que tremiam no chão. O aparelho registrava 104 chamadas. Na tela: MÃE.” 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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