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Para que serve este meu polegar?

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18.12.2012 - 08:53:31
Goiânia – Quem admiro mesmo é quem sabe fazer um daqueles bolos fofos, rendados, pra comer com um café passado no final da tarde, rescendendo pela casa toda, o bolo, o café e o aconchego de lugar habitado. Quem admiro de fato é quem domina o segredo de assar um pão bem sovado, a casca crocante, o miolo branquinho.

Quem verdadeiramente admiro é quem alcança cozinhar o arroz soltinho, o feijão bem temperado, e indo mais longe: aquele que cria o frango caipira lá no terreiro, que corre atrás dele com o cão estumado, corta ou lhe destronca o pescoço, sapeca-o em água fervente, arrancando-lhe penas e penugens, cortando e limpando seus pedaços com destreza cirúrgica, fritando-o depois em óleo e temperos, adicionando o açafrão amarelinho.
 
Minha admiração, indo ainda mais longe, pelos que plantam o milho que alimentou esse franguinho, que olharam não simplesmente para o calendário, mas leram o itinerário das nuvens, que escolheram a melhor época para o plantio, que sabem a hora e o jeito de arar o chão, de depositar as sementes, que acompanharam o crescimento das plantas, que enxugaram o suor da testa com as costas das mãos, que souberam a hora certa de debulhar a espiga. Aqueles que fabricaram “o branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema”, como verseja Ferreira Gullar.
 
Minha admiração mais profunda por esses que de fato alimentam o mundo cão, não em só em grande, mas também em pequena escala, pelos que não só desenham as casas que irão construir, suas plantas, que não só fazem os cálculos necessários para as edificações, mas que colocam a mão na massa, assentando tijolo sobre tijolo. Aqueles que “construíram Tebas, a das sete portas” de que falava Bertold Brecht e cujos nomes não estão inscritos nos livros.
 
Eis os trabalhos que de fato me impressionam e emocionam, trabalhos completos, do projeto ao objeto, da ideia à coisa, não milhares de pequenas atividades e profissões com as quais se estrutura nossa complexa sociedade de consumo.
 
 Além dos que de fato produzem e constroem, há os que fazem comércio, transportam coisas que sobram aqui para ali onde faltam; criam leis para organizar esse comércio e transporte; que as escrevem, votam, julgam os desvios a essas leis; ocupam-se de atividades que vão assim se multiplicando, diversificando, especializadas, especialíssimas, elementos de uma gigantesca máquina de fazer tudo e ao mesmo tempo nada, preenchedores de complicadas planilhas com cálculos sobre o que se planta, o que se cozinha, o que se constrói, o que só se pensa ainda em plantar, cozinhar, construir, distribuir….
 
Mas ainda assim eu admiro mais os primeiros: os agricultores, os cozinheiros, os padeiros, os pescadores, os engenheiros, os mestres de obra, aqueles que executam as atividades que estão lá no começo do homem, no começo da humanidade, logo depois que um homo sapiens e faber aprendeu a usar o polegar para prender coisas, para desenvolver movimentos delicados, para fabricar armas de caça e instrumentos de trabalho.
 
Gostaria mesmo no fundo era de ser um deles, um desses seres com profissões primeiras, primitivas ou primordiais, que pensam e fazem, e que verdadeiramente constroem e mantêm o mundo. Sinto-me muitas vezes, executando atividades cuja finalidade prática já não sei qual é, que parece inexistir. Para que serve mesmo isso que faço? A quem alimenta, a quem abriga, além de a mim mesma e a minhas lombrigas? 
 
Imagino o que seria se de repente tivéssemos uma daquelas hecatombes, daquelas grandes catástrofes que gostam de prever os profetas, que arrasassem com nossas complexas estruturas, com nossas cidades, se  tivéssemos que voltar a viver no campo, a produzir nossos próprios alimentos, a construir casas.

O que seria de gente como eu, cuja única habilidade é agrupar palavras, cujo polegar serve apenas para, no teclado do computador, marcar o espaço entre cada uma delas, além de prender coisas, coisas que não saberia fabricar?  

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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