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Ouvir ou não, eis a questão

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17.12.2012 - 12:03:49

 
Goiânia – Nunca me esqueço de uma entrevista que Marília Gabriela fez com Adriana Esteves, há alguns anos. A jornalista perguntou à atriz se era verdade que ela tinha entrado em depressão por causa das críticas ao seu trabalho, durante a novela Renascer, em 1993. Sem rodeios, a atriz confirmou e fez um grande desabafo.
 
Adriana Esteves contou que tinha pânico de ler a coluna do jornalista José Simão, na Folha de São Paulo, pois quase todos os dias ele fazia comentários cruéis e destruidores sobre a atuação dela. Confessou que entrou em depressão profunda e passou quase dois anos trancada em casa, pensando em desistir de tudo. 
 
“Às vezes eu nem conseguia existir e me deitava no chão enquanto aquilo passava. Mas passou, como tudo passa”, revelou a atriz este ano, também sobre a depressão, na revista Lola. Superada a crise, ela resolveu que não encerraria sua carreira como atriz. Ao contrário: decidiu que faria melhor e se entregaria de corpo e alma ao ofício.
 
Na semana passada, a Associação Paulista de Críticos de Arte concedeu a ela o prêmio de melhor atriz do ano por sua atuação impecável em Avenida Brasil. Anos depois de ser execrada pelo principal colunista de televisão e entretenimento do Brasil, a atriz conquistou um dos mais prestigiados prêmios culturais do País. 
 
Fico pensando o que teria acontecido se Adriana Esteves tivesse dado ouvidos às críticas da imprensa. Provavelmente teria abandonado a carreira de atriz e se dedicado a outra área. Poderia ser uma arquiteta, advogada ou engenheira anônima, e nos privaria do seu grande talento.
 
A questão é que ela teve força e sabedoria suficientes para superar as opiniões contrárias e ouvir o que realmente importa: aquela voz interna, que nos mostra o que nossa alma deseja, o que queremos de fato. E lutou para realizar seu sonho, para concretizar o que ela sempre soube que seria sua missão de vida.
 
É como a fábula da corrida de sapos. O objetivo era atingir o alto de uma grande torre. Havia no local muita gente assistindo. Quando começou a competição, a multidão não acreditava que os sapos pudessem alcançar o topo da torre e o que mais se ouvia era: “Que pena, eles não vão conseguir!”.
 
Diante dos comentários, os sapos começaram a desistir. Mas havia um que persistia. A multidão continuava gritando: “Você não vai conseguir!”. Só que o sapo prosseguia firme, até que chegou ao cume. Curiosos, perguntaram a ele qual o seu segredo para vencer a prova. E descobriram que o sapo era surdo. 
 
O que não falta é gente para dar palpite nas nossas vidas e dizer o quê devemos ou não fazer. Se formos ouvir todo mundo, provavelmente acabaremos loucos ou frustrados. Muitos que palpitam gostam mesmo de nós e querem que sejamos felizes, mas muitos também opinam por maldade ou mera intromissão.
 
Pode-se pensar que talvez o segredo seja ouvir apenas aqueles que nos amam. Mas isso não basta. É que muitos amam de forma autoritária e possessiva e querem que façamos apenas o que julgam ser certo ou conveniente para eles. É preciso descobrir quem nos ama de forma libertária e generosa.
 
Geralmente, esses que amam de maneira saudável não se intrometem nas nossas vidas. Quando dão sua opinião, o fazem porque pedimos. E a emitem com tanto equilíbrio, carinho e sinceridade, que nos ajudam a perceber melhor nuances de situações que certamente jamais conseguiríamos ver sozinhos.
 
A opinião de gente assim vale considerar. Para o resto, o melhor é se fazer surdo, como na fábula dos sapos. Da mesma forma que existe memória seletiva, podemos começar a exercitar também a “audição seletiva”. O que não for nos acrescentar nada, entra por um ouvido e sai pelo outro. Literalmente.    
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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