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Os preferidos de Tarantino

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17.01.2016 - 15:31:06

Goiânia – O último western de Tarantino, Os oito odiados (2015), inicia-se com uma narrativa principal linear, que revela, como desenlace, a história que a antecede. Dá-se, assim, a trama do filme, estabelecida em 6 capítulos, para 187 minutos, em que o exagero sempre esperado do diretor ou, no caso, seu exagero maior, sua hipérbole exemplar, acontece no desenlace da história, no interior do espaço de uma estação de diligências, com o envenenamento, pelo café, de duas personagens, numa sequência que confirma uma suspeita de Marquis Warren e John Ruth (caçadores de recompensas) desde sua chegada à estação: algo havia acontecido naquela estalagem em que chegaram, ao lado do cocheiro da diligência e uma prisioneira de Ruth, e encontraram hóspedes desconhecidos e posteriormente revelados como da gangue da prisioneira de John Ruth, Daisy. A gangue lá aguardava o comboio para, a qualquer custo, resgatar Daisy Domergue. Embora Warren e Ruth suspeitassem do ambiente mudado no Armazém de Minnie, Warren, diferentemente de Ruth, analisou, seguida e solitariamente, toda a situação suspeita. O mesmo não se deu com Ruth e tal falha redundou em sua morte por envenenamento. Warren faz-se, também por isso, no porta-voz da narrativa de Os oito odiados: sagaz, com o senso do mistério que envolve o já acontecido e, ao mesmo tempo, mentiroso, inconfiável.
 
A hipérbole, o exagero, uma forma recorrente de Tarantino dialogar com seus espectadores, desta vez está, principalmente, na ingestão, por Ruth e o cocheiro, de um veneno e nos jorros de vômitos de sangue provocados pela substância nas vítimas até suas mortes. Tal hipérbole assenta a progressão final da narrativa, intensificando o que acontecia lentamente entre os capítulos, além de instalar a terceira espacialidade da história, a do porão da estalagem, lugar do mistério, pressuposto pela narrativa, local em que o chefe da gangue se encontra para desatar, em momento preciso, o nó da intriga – o resgate de sua irmã, a prisioneira de Ruth, que esteve ao lado do caçador de recompensas desde o primeiro capítulo.
 
Os primeiros capítulos apresentam, com magnitude, o espaço da viagem dos caçadores, de neve pesada, com tempestade anunciada, até a estação de troca da diligência, instantes em que os caçadores se conhecem, diante de um solto humor entre eles. Uma vez na estalagem, o movimento e a dificuldade da viagem pela neve pesada são trocados, em salão aquecido, pelos movimentos de olhares suspeitos, calados, entre viajantes e componentes da gangue que os esperavam para o ataque e resgate.
 
Os oito odiados trama uma narrativa cerrada, bem composta. Lemos no Dicionário de Fritz Lang: “A moral dos westerns: ela é muito simples. O western concebe da maneira mais simples os atores, os cenários, a luz, e tudo isso recai sobre seus filmes seguintes”.
 
Tarantino, certamente, de maneira constantemente confessa, aproxima situações de suas narrativas de situações já realizadas e presentes na história cinematográfica. John Ford, em No tempo das diligências (1939) e Legião invencível (1949), mostrou para Tarantino como modular a câmera e filmar de modo distante ou próximo e em detalhes uma diligência, com pormenores do seu interior e exterior, de seus cavalos: suas ancas, cabeças e patas; mais, seu vigor, ainda quando extenuados. (Warren e Chris, protagonistas de Tarantino, como Ringo, em No tempo das diligências, fizeram-se passageiros do comboio no curso da viagem). John Ford nunca deixou de atrelar em seus carroções ou diligências três juntas de dois cavalos, modelo seguido por Tarantino, que estabelece o mesmo para a diligência de Os oito odiados. Ao lado disso, percebemos que No tempo das diligências, no momento em que interrompe, para descanso, a viagem, Ford reúne um mesmo clima de tensão durante a parada, num conflito entre humores e moralidades do grupo de viajantes que também já passou por uma nevasca. (John Ford, de forma desbragada, confessou que tal situação, Dudley Nichols, seu roteirista, retirou do conto de Maupassant – Bola de sebo).
 
No western, a paisagem, lembrando-nos das observações de Fritz Lang, é um lugar de imagens que encenam atos com clareza moral: de aventura, coragem, força; os espaços internos ficam reservados para a encenação da surpresa e do mistério. No último western de Tarantino, a surpresa surgida do sótão do Armazém de Minnie derrotou o mais bem construído entre oito detestáveis anti-heróis do diretor norte-americano: o major Marquis Warren que, de forma atrevida e abusada, descobrira, mediante mudas observações, quase toda a história que envolvera o desaparecimento de Minnie e seus familiares.
 
*Luiz Gonzaga Marchezan é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, Campus de Araraquara.
 

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por Luiz Gonzaga Marchezan

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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