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Os donos de Goiás

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23.07.2012 - 12:13:23

 
Sábado encontrei com um jornalista de Brasília que, ao me cumprimentar, já foi logo dizendo: “Puxa, mas a máfia do Cachoeira tomou conta da sua terra, hein? São os donos de Goiás!”. Não é a primeira vez que escuto esse comentário de quem vive fora do Estado sobre os recentes escândalos de corrupção envolvendo pessoas daqui. Também não é a primeira vez que discordo dele.
 
Sinto muito, colega jornalista, mas Goiás pertence aos goianos. E ser goiano não é para quem quer, nem para quem se autointitula, é para quem pode e faz por merecer. Para ser goiano não é preciso nascer em Goiás, mas é indispensável honrar este Estado, lutar por ele, amá-lo de verdade e não envergonhá-lo. É imprescindível não abrir mão da decência e da honestidade.
 
Goiás é do professor Altair Sales, que à frente do Instituto do Trópico Subúmido da PUC-Goiás produz pesquisas incansáveis sobre o Cerrado e alerta para sua extinção iminente. É do fotógrafo João Caetano, que transforma cada pedaço desse bioma em arte e beleza. É do aposentado Corivaldo Ferreira que, mesmo paraplégico, não deixa de regar todos os dias, no Conjunto Itatiaia, os ipês, jatobás, carobas e sibipirunas.
 
Aos médicos que transformam o Estado em referência de excelência em suas áreas de especialidade; aos que atuam na rede pública, lutando contra a falta de infraestrutura e os baixos salários, e aos idealistas, como Danilo Maciel, que no Hospital de Medicina Alternativa mostram que a natureza pode ser uma enorme prateleira de medicamentos, é que pertence o nosso Estado.
 
Goiás é da equipe do Centro de Valorização da Mulher (Cevam), que acolhe e conforta centenas de vítimas de violência doméstica. É de Ana Motta, que por meio da Asdown luta pela inclusão das crianças com Síndrome de Down. É da advogada Chyntia Barcellos, que com sua atuação incansável na área de Direito Homoafetivo ajuda a combater o preconceito aos homossexuais e transexuais. 
 
São goianos o cineasta Pedro Novaes, que com sua Sertão Feelmes mostra que se pode ir além, muito além de coisas banais como “E aí, comeu?!”; a equipe do Coletivo Cine Cultura, que com o Cinealmofada prova que a experiência de ir ao cinema pode ser muito mais acessível e agradável do que se imagina; a dupla Márcio Júnior e Márcia Deret, que com obras como “O ogro” mostram que animação é coisa séria.
 
Goiás é das equipes da Monstro e da Fósforo Cultural, que com seu apoio às bandas e seus festivais mostram que o Estado é lugar de rock de qualidade, sim senhor; é dos artistas do Estúdio Bicicleta Sem Freio, que com suas ilustrações provam que criatividade e talento não faltam por aqui; é da Quasar Companhia de Dança, que encanta o Brasil e o mundo com seus movimentos sutis e intensos.
 
O Estado pertence à gente como os membros do Pedal Goiano, que lutam por políticas públicas que garantam a mobilidade urbana com uso de energia limpa e mostram que sustentabilidade não é discurso, é prática. Pertence ao grupo Vida Seca, que também segue o preceito de que atitude é tudo e leva arte e educação ambiental a crianças carentes com o projeto “Lixo Ritmado, Batuque Reciclado”. 
 
Também são goianos de verdade os católicos que ajudam a combater a desnutrição infantil, os evangélicos que levam conforto e auxílio aos pacientes carentes nos hospitais e os espíritas que distribuem alimento para as pessoas que dormem ao relento. São goianos os ateus que, apesar de não crerem em Deus, creem nos homens e ajudam aqueles que estão em situação de vulnerabilidade social. 
 
Goiás é dos professores da rede pública, que enfrentam as precárias condições de trabalho e insistem em levar conhecimento aos estudantes. É dos alunos que desafiam o cansaço de quem precisa estudar e trabalhar ao mesmo tempo, mas ainda assim não abrem mão de se formar. É também daqueles que não puderam estudar, mas fazem questão de aprender com a vida. 
 
São goianos aqueles que geram emprego e renda, que tratam seus colaboradores com respeito; aqueles que trabalham incansavelmente, ainda que por um salário mínimo mensal ou menos que isso, sem desistir da meta de viver honestamente; aqueles que lutam por melhores condições de trabalho para a coletividade, que não nos deixam perder de vista que um mundo mais justo e igualitário é possível.
 
São goianas milhares de outras pessoas cujos nomes, felizmente, não caberiam nesse espaço. Aqueles que vivem em Goiás apenas para levar vantagem são os falsos filhos da terra. Hoje estão aqui, mas amanhã podem estar na Suíça, nas Ilhas Cayman ou em qualquer outro lugar que lhes seja mais conveniente do ponto de vista financeiro e do tráfico de influência. Esses não fazem história, fazem escândalos. 
 
É a essa gente que leva arte, alegria, saúde, educação, alimento, conhecimento, qualidade de vida e dignidade aos outros, não porque vai enriquecer com isso, mas porque entende essa tarefa como sua missão de vida, que Goiás pertence. Talvez o grande problema seja o fato dessas pessoas não fazerem valer sua autoridade. Como donos de Goiás, está na hora de mostrar quem manda de verdade por aqui.   
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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