Catherine Moraes
Se escolher um curso superior ainda na adolescência é algo difícil, o que dizer de cursar uma faculdade após os 50? Disciplina e força de vontade são requisitos fundamentais para que esse sonho se realize e a maturidade pode ser o ponto mais positivo de quem escolhe correr contra o tempo e conquistar o tão sonhado diploma. Paulo, Luís e João nasceram quando a população rural era maior que a urbana, as rodovias podiam ser contadas nos dedos e a faculdade era um degrau muito difícil de ser conquistado no Brasil. Hoje universitários e recém-formado, eles contam a experiência de fazer um curso superior depois que os filhos já saíram de casa.
Há pouco mais de dez anos, em 2001, cerca de 33 mil pessoas acima da meia década estava em um curso de educação superior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nessa época, a Região Sudeste já dominava com 17.070 pessoas, equivalente a 50,49% do total. No Centro-Oeste então, os números representavam apenas 12,48%. Já no Estado de Goiás, eram apenas 1.623 estudantes, equivalente a 4,8% do total no país.
Acima dos 60 anos, cerca de 6 mil estudantes no Brasil cursavam o ensino superior em 2001, sendo que o maior quantitativo por região permanecia no Sudeste, com 5.073. Em Goiás, não havia sequer computação de dados e no Centro-Oeste eram apenas 200 estudantes.
Da ajuda de Dona Gercina ao Fies
Paulo dos Santos Pereira, de 62 anos é o 17º de 20 filhos que seus pais tiveram. Nascido em março de 1950, em Minas Gerais, se mudou para Goiás com apenas três anos. A mãe dizia que os filhos precisavam trabalhar para ajudar a família. Já o pai, analfabeto, dizia que precisavam estudar. Todos viveram essa dualidade e perceberam que os dois tinham razão. Era preciso trabalhar para sobreviver e estudar para garantir um futuro melhor.
Paulo dos Santos Pereira, de 62 anos, cursa Gestão Ambiental no Senac (Foto: André Saddi)
“Meu pai era amigo do Pedro Ludovico Teixeira e a esposa dele, Dona Gercina, era quem doava os cadernos para levarmos para a escola. No governo de Mauro Borges fiz curso de técnico em máquinas agrícolas, fui mecânico, motorista, vendedor e tive até um bar/restaurante que vendia bolinhos de bacalhão que foi vendido para italianos e se transformou no Ciao Bella, próximo ao Flamboyant. Fui para Boston em 1997 e, 11 anos depois, quando voltei, encontrei um Brasil completamente diferente.”
Paulo retornou ao Brasil em 2008, quando mais de 127 mil pessoas acima dos 50 anos cursavam faculdade. No Centro-Oeste, já eram 11.076 e se falarmos de Goiás, tínhamos 4.577 universitários. Nessa época, os sexagenários somavam mais de 23 mil no País. Na Região Centro-Oeste, eram 557 pessoas, a maioria delas, 325, em Goiás. As justificativas não são citadas na pesquisa do IBGE, mas o estudante atribui esse crescimento às facilidades que foram criadas como o Fundo de Financimento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (Prouni), além da mudança de costumes.
No final de 2011 Paulo Pereira decidiu prestar vestibular e o resultado foi o início do curso de Gestão Ambiental no Senac. Com isso, um dos filhos, que tinha trancado o curso de direito e se dizia velho para voltar a estudar, decidiu retonar à vida acadêmica. Desta vez, Engenharia Ambiental foi a escolha. Paulo, que afirma não defender nenhum partido, diz reconhecer a importância do governo Lula no que diz respeito à educação. Isso porque é um dos beneficiados pelo Fies.
A formatura está prevista para o final de 2013, mas os planos ele já tem em mente: investir em capacitação sobre aterro sanitário e montar o próprio negócio.
Ensino à distância
Luís Otávio Dias Ferreira, de 59 anos, escolheu estudar à distância pela Estácio de Sá onde cursa Gestão de Pessoas e as facilidades ele enumera sem dificuldade. “Com o ensino à distância o professor acaba sendo mais presente porque parece estar disponível o tempo todo. Sempre que preciso a resposta é imediata e além disso posso fazer meu próprio horário”, completa.
Luís Otávio, de 59 anos, cursa Gestão de Pessoas na Estácio de Sá (Foto: André Saddi)
A primeira faculdade Luís começou a cursar ainda na adolescência: Direito, na Pontíficia Universidade Católica (PUC-GO), mas era casado e o primeiro filho estava à caminho. Tanto ele quanto a esposa estudavam e, então, tiveram que optar. A esposa continuou na faculdade e quando ela se formou, eram duas filhas na escola, situação ainda mais complexa. Ele chegou a morar nos Estados Unidos e se formou em Administração e Contabilidade, cursos que não foram validados no Brasil.
Luís fez vários cursos ligados a treinamento de pessoas e foi diretor da Fundação Carlos Chagas em 1988. As duas filhas se formaram em Engenharia Elétrica e Medicina, especilizada em Otorrinolaringologia. Foi aí que Luís percebeu que era hora de voltar a estudar e prestou o vestibular. “Fui em busca do canudo que deveria ter pego aos 21 anos, com mais de 40 anos de atraso. Estou no 3º período em um curso de cinco semestres. Além da força de vontade, assumo que a disciplina é fundamental para se conquistar o sucesso”, completa.
Ele conta que sempre gostou de levantar cedo e por volta de 5h30 já está de pé, mas dorme antes da novela e precisa gravar para assistir depois. É logo cedo que ele checa os e-mails e faz pelo menos uma hora de aula, além de participar do fórum de discussão. No sábado antes do almoço e no domingo entre 6h e 10h, ninguém o atrapalha. É hora de se dedicar à faculdade. A ideia é se aposentar e permanecer na ministrando palestras e cursos.
“Há 10 anos um aposentado era carta fora do baralho e o que vi nos EUA há uma década, percebo agora no Brasil: diferenças de desenvolvimento social, costumes e comportamento. O idoso está começando a ser produtivo e o nosso país está começando a valorizar a experiência”, se alegra.
Com o canudo na mão
João Enéas Bretas Netto, de 66 anos, já foi candidato a prefeitura de Catalão e o vereador mais votado da cidade, sem curso superior. Em 2003, quando perdeu a esposa, aos 61 anos, decidiu enfrentar as cadeiras da faculdade. Prestou vestibular, passou de primeira e deu início ao curso de Direito no Centro de Ensino Superior de Catalão (CESUC). Com o curso pretendia aumentar o conhecimento, já que ele trabalha em um cartório da cidade há 47 anos.

João Enéias, de 66 anos se formou em Direito (Foto: Arquivo Pessoal)
O maior medo de João era se sair mal nas provas, nota baixa era um bicho papão. “Em dias de prova todos sabiam, porque meu humor mudava completamente”, afirma, revelando que as notas ruins fizeram parte da vida acadêmica. Foi querido por todos e em 2008 foi escolhido orador da turma que ganhou o nome João Enéas Bretas Netto.
Quanto às dificuldades de enfrentar os desafios de ser novamente estudante, ele diz apenas que a memória falha um pouco, mas que chegar ao topo é possível. “Para os mais velhos, a convivência com os jovens traz ainda um novo estilo de vida, abre os horizontes, faz crescer. O estudo é importante do nascimento até à morte, independente da idade”, garante.