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Orgulho de ser maloqueiro

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27.02.2013 - 19:08:08

Optei pela maloqueiragem há tempos. Logo no início da adolescência. Deixei o cabelo crescer, furei a orelha, rasguei calças e bermudas que de tão largas cabiam dois de mim em versão magrela da puberdade, comprei camisetas de bandas que meus pais sequer conseguiam ler os nomes. Comparado com o visual maloqueiro da juventude de hoje, eu parecia um coroinha. Por favor, eram outros tempos, entenda. Até hoje não abandonei a esquisitice na aparência.

Por conta dos longos anos nesse métier, os olhares de estranhamento quando chego a um ambiente não me incomodam. Digo mais, nem percebo que estou causando algum tipo de burburinho. Sou calejado. E, se percebo algum olhar mais incisivo, a situação me diverte. Não me sinto constrangido ou deslocado. Por favor, passe a peroba para eu lustrar meu rosto.

Fiz esse extenso preâmbulo só para contextualizar uma história que aconteceu recentemente e me deixou intrigado. Eu tinha um compromisso profissional que, embora não estivesse explicitado no convite, sabia que tinha que ir mais arrumadinho. Meu guarda-roupa não é farto desse tipo de vestimenta. Elementar, pois nunca foquei em gastar dinheiro nesse padrão de roupa. Aliás, gastar dinheiro em roupa não é comigo mesmo. E, por não ser minha cara, tampouco fui presenteado nessa linha da moda. Para a ocasião, saquei uma antiga camisa que, embora não fosse a ideal, achei que seguraria a onda do evento.

Doce ilusão. Fui o assunto geral de toda rodinha na qual chegava. Com comentários os mais vastos possíveis. Desde elogios à minha “autenticidade” e gente falando que minha camisa parecia a do Agostinho da Grande Família, até pessoas da pior estirpe comentando de lado com maldade suficiente para me deixar ouvir que “não acreditava que eu estava vestido daquela forma para uma ocasião solene”. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Cerro meu punho direito e o ergo ao alto tal qual um pantera negra no pódio olímpico: sou orgulhosamente maloqueiro e não estou nem aí!

Antes de tudo, essa é uma opção de vida. Eu diria até arriscada. Não é para quem não aguenta a peia. Não dava para eu ter qualquer tipo de profissão. Enveredei por uma em que a maloqueiragem é parcialmente aceita, ao menos em algumas de suas ramificações. Não dei ouvidos aos cuidadosos conselhos da família. Tal qual Sinatra, trilhei meu caminho. E não posso dizer que me arrependi. Tive portas fechadas na minha trajetória? É bem provável. Estou triste com isso? Definitivamente não.

A maloqueiragem vem de dentro. Quando vou almoçar no shopping, vejo os engravatados subindo e descendo a escada rolante e penso: “ainda bem que não preciso andar assim”. Um orgulho bobo e pueril, sei disso. Mas que me faz incrivelmente bem. Já deixei para trás o ponto de inflexão quando a maioria larga a maloqueiragem. Costuma ser logo depois da colação de grau. Na hora do primeiro emprego sério, na hora em que precisamos ganhar alguma grana para justificar aos pais os anos de investimento em nossa educação. Depois que vencemos esse estágio, as coisas se encaminham mais facilmente. Depois dos 30, se ainda é maloqueiro, será maloqueiro até a morte. O que é meu caso. Estou no time do “uma vez maloqueiro, sempre maloqueiro”.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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