Advogar é, no fundo, uma sucessão de portas: as que se abrem pelo mérito e pela confiança conquistada, e as que ainda resistem a quem está chegando. Neste mês de celebração da advocacia, é justo comemorar as primeiras. Mas também é necessário reconhecer que as segundas ainda existem.
Um episódio ilustra a distância entre o discurso e o cotidiano. Tratava-se do cumprimento de uma ordem judicial em área rural, com todas as particularidades que isso envolve. Diante da diligência, um cliente hesitou antes de me acompanhar até a propriedade.
“Não sei se seria adequado você entrar aí, nessas circunstâncias. É perigoso.”
Perguntei o porquê.
“Porque é muito pesado para você.”
Fui e a ordem foi cumprida. A frase ficou.
Ficou porque não havia nela nenhuma má intenção, e é por isso que gestos assim persistem. Ninguém decide poupar um advogado da diligência. Simplesmente presume, antes de qualquer prova em contrário, que aquele peso não é dele. Persistem no início da carreira, persistem no exercício da diretoria e persistiram nas vezes em que exerci a presidência.
Na advocacia, isso alcança quem está começando, quem vem do interior, quem constrói uma trajetória fora dos círculos tradicionais, quem chega a um espaço em que pessoas com a mesma história raramente estiveram.
Ocupar esses espaços importa: visibilidade produz referências, e referências ampliam o horizonte de quem ainda está chegando. Mas ocupar é apenas o primeiro passo.
Não escrevo como reflexão abstrata, mas como experiência direta: quase cinco anos como diretora da OAB-GO, ao longo de duas gestões, e mais de vinte anos de advocacia.
Nesse período, vi a advocacia avançar pela valorização das subseções, pelo fortalecimento da advocacia dativa e pela abertura de novos espaços de participação. Vi jovens profissionais trazerem perguntas necessárias e colegas experientes compartilharem a memória do que já foi tentado e do que ainda precisa mudar.
Autoridade não nasce do cargo. Ela se constrói na entrega, decisão após decisão. O problema surge quando alguns precisam provar antecipadamente sua capacidade, enquanto de outros ela é presumida.
Nenhum profissional deseja ser poupado do peso da advocacia. Deseja apenas a oportunidade de demonstrar sua capacidade sem ser limitado por sua origem, idade, tempo de carreira ou lugar de atuação.
Daí a responsabilidade de quem alcança uma posição de decisão política ou institucional: usar esse espaço para reduzir as barreiras que enfrentou, não apenas para atravessá-las. A experiência de quem chega primeiro ganha sentido quando produz continuidade, abre oportunidades e se transforma em caminho coletivo.
Essa é a métrica correta: não apenas o número de espaços que ocupamos, mas o número de profissionais que, depois de nós, poderão exercer sua vocação sem precisar pedir licença para pertencer.
Talita Hayasaki é Secretária-Geral da OAB-GO
