Em 15 de maio de 1977, Norberto Bobbio publicou o artigo “O dever de sermos pessimistas”, posteriormente incluído em As ideologias e o poder em crise — obra lida e relida por este articulista. Diante da desagregação institucional italiana, da penetração mafiosa e da baixa qualidade da classe política, Bobbio afirmava que o homem de razão tem o dever civil de ser pessimista. Não se tratava de derrotismo nem de resignação, mas de pessimismo da inteligência compatível com o otimismo da vontade. Gritou bem alto o intelectual italiano: “só um pessimismo radical da razão pode despertar com uma sacudidela aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros”.
O pessimismo, assim, não é mera disposição afetiva, mas postura cognitiva e moral. Bobbio distinguia cuidadosamente esse dilema: o pessimista teme o pior porque deseja ardentemente o melhor; o derrotista se alegra com o pior. O otimismo fácil é uma forma de infatuação incompatível com o exercício da razão — uma espécie de anestesia intelectual que confunde torcida com análise crítica. Essa postura — “iluminista pessimista” — atravessa toda a sua obra.
Quase meio século depois, a angústia que animava Bobbio não apenas persiste, mas se agrava sob novas condições estruturais da contemporaneidade líquida (Zygmunt Bauman). A revolução da internet, a consolidação da hipermodernidade e a colonização da esfera pública pelas redes sociais produziram efeitos deletérios sobre a qualidade da representação política, sobre a figura do estadista e sobre o próprio comportamento social e midiático. Hannah Arendt, em várias de suas obras, também oferece recursos teóricos decisivos para aprofundar essa angústia interior: a thoughtlessness (ausência de pensamento), a banalidade do mal, o declínio do espaço público e a solidão característica da sociedade de massas.
Impõe-se aqui suscitar uma reatualização rigorosa do dever bobbiano, articulando-o ao pensamento arendtiano e a diagnósticos hodiernos da cultura e da política, porquanto essa santa angústia também consome este modesto escriba ao ver o quadro atual da política brasileira, mormente diante das eleições gerais em curso no Brasil.
No contexto italiano dos anos 1970, esse dever respondia à combinação de crime organizado, violência política e degradação da classe dirigente — semelhantemente ao que hoje temos em nossas plagas. Ali, Bobbio não negava a possibilidade de superação da crise; negava, porém, o direito de subestimá-la. Aqui, a mesma lógica se aplica hoje: o reconhecimento lúcido da gravidade da situação não exclui a esperança de superá-la, mas a condiciona à recusa de ilusões.
No Brasil, a política é o tema mais associado a fake news (43% da população), os extremos geram a maior parte do volume de menções políticas nas redes, e mais de seis em cada dez declarações de atores políticos checadas em ciclos eleitorais contém algum grau de distorção. A lógica do engajamento transformou escândalos, fofocas e polarização afetiva/pessoal no principal combustível da cobertura, reduzindo drasticamente o espaço para a deliberação racional sobre políticas públicas.
Como uma novela pastelona, a política brasileira assemelha-se a um drama de proporções imprevisíveis, marcado por crises institucionais recorrentes, envolvimento com o crime organizado, reviravoltas jurídicas e espetáculos midiáticos que capturam a atenção pública, ofuscando o debate substancial sobre políticas públicas e o desenvolvimento socioeconômico do país.
No âmbito institucional, estudos sobre o Senado brasileiro revelam o encurtamento sistemático dos discursos parlamentares e a redução das interrupções e debates reais em favor de falas moldadas para cortes virais nas redes. Os plenários do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal transformaram-se, cada vez mais, em estúdios de produção de conteúdo digital. Debates eleitorais e confrontos políticos são frequentemente reduzidos a formatos de entretenimento (“um contra vinte”, rage bait), nos quais a performance e a geração de engajamento emocional prevalecem sobre a argumentação substantiva.
Assiste-se à ascensão de campanhas centradas em memes, vídeos curtos e influencers — reais ou sintéticos —, à substituição do discurso programático por slogans e reações afetivas, e à elevação de métricas de engajamento (curtidas, visualizações, compartilhamentos) a critério principal de sucesso político. A figura do estadista — aquela capaz de sustentar a complexidade, a temporalidade longa e a responsabilidade pelo mundo comum — torna-se rara e residual. Em seu lugar, emergem, aos montes, o político-influencer, cuja existência depende da capacidade de alimentar continuamente o fluxo algorítmico. Nesse diapasão, a política passa a ser consumida como espetáculo de curta duração, confirmando a tese de que, quando o meio privilegia o entretenimento, o conteúdo político se degrada.
Sem dúvida, o pessimismo da inteligência continua a ser, hoje, um dever civil. Não como convite à paralisia — Deus nos livre de mais uma desculpa para a inação —, mas como recusa lúcida da infatuação e como condição de uma vigilância crítica sem a qual nenhuma reconstrução democrática séria é possível.
Por todo o exposto, pensar — no sentido arendtiano — e ser pessimista — no sentido bobbiano — são duas faces da mesma exigência: não dormir o sono da razão. E, mesmo aos que insistem em dormir, resta que ao menos tenham pesadelos para os fazer abismar, porquanto antes o susto do que o coma.
Edemundo Dias de Oliveira Filho é Advogado. Delegado de Polícia de Classe Especial Veterano. Especialista e Mestre em Segurança Pública – Políticas Públicas – Direito Público. Escritor.
