O Brasil não pode tratar a vacinação como uma conquista definitiva. A redução da cobertura vacinal mostra que avanços históricos da saúde pública podem ser perdidos quando a imunização deixa de ser prioridade. Sempre que menos pessoas se vacinam, aumenta o risco de circulação de vírus e bactérias capazes de provocar surtos, hospitalizações e mortes evitáveis. Doenças que antes causavam milhares de vítimas tornaram-se raras graças às campanhas de vacinação, mas essa proteção depende de um compromisso permanente de toda a sociedade.
Segundo o Ministério da Saúde, diversas vacinas do calendário infantil permaneceram abaixo da meta de 95% nos últimos anos, índice considerado essencial para garantir a proteção coletiva e reduzir a circulação de doenças altamente contagiosas, como o sarampo.
As consequências dessa queda já ficaram evidentes. Em 2016, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) o certificado de eliminação do sarampo. Com a redução da cobertura vacinal, o vírus voltou a circular, provocou surtos e levou o país a perder essa certificação. Somente após a retomada das ações de imunização, o reconhecimento foi recuperado, em 2024. Doenças preveníveis podem retornar rapidamente quando a vacinação deixa de atingir níveis seguros.
A redução da vacinação afeta não apenas quem deixa de se imunizar. Crianças que ainda não completaram o calendário vacinal, idosos, pessoas imunossuprimidas e pacientes que não podem receber determinadas vacinas dependem da proteção coletiva para permanecerem seguros. Quando menos pessoas estão vacinadas, essa barreira é enfraquecida e toda a comunidade fica mais vulnerável.
A queda da cobertura vacinal não acontece por acaso. Entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário está a falsa percepção de que essas doenças já não representam uma ameaça. O sucesso das vacinas também pode criar uma falsa sensação de segurança. Existe uma geração que não conviveu com o sarampo, poliomielite ou difteria justamente porque a imunização foi eficaz. Isso pode levar à impressão equivocada de que essas doenças desapareceram. Na realidade, continuam circulando em diferentes partes do mundo e podem voltar sempre que encontram populações desprotegidas.
Essa percepção equivocada é frequentemente alimentada pela disseminação de informações falsas sobre vacinas. A desinformação alimenta dúvidas, reduz a confiança nas campanhas de imunização e dificulta o controle de doenças que já poderiam estar eliminadas. Combater esse cenário exige acesso a informações confiáveis, diálogo e valorização da ciência e dos profissionais de saúde.
Retomar altas coberturas vacinais é uma responsabilidade compartilhada entre gestores públicos, profissionais de saúde e sociedade. Além de garantir acesso às vacinas, é fundamental investir em educação e recuperar a confiança da população no Programa Nacional de Imunizações. A história já mostrou o impacto devastador de doenças como poliomielite, sarampo e difteria antes da vacinação em massa. Permitir que elas voltem a circular seria abrir mão de uma das maiores conquistas do Brasil. Vacinar continua sendo um compromisso coletivo com a vida.
*Márcio Niemeyer é alergista, imunologista e otorrinolaringologista
