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O que Tomorrowland, Mad Max e Arquitetura da Destruição têm em comum?

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10.06.2015 - 18:27:18

Goiânia – Do ponto de vista de conteúdo, o recém-lançado filme Tomorrowland (2015) e Mad Max (1979/1981/1985/2015) seriam filmes antagônicos, no caso de Arquitetura da Destruição (1989) a forma em si (este último documentário) já os distanciariam nas categorias do Oscar. 

 
No entanto, as distâncias são meramente fictícias. Ao acabar de ver Tomorrowland, não pude deixar de notar seu caráter distópico e, pra irmos direto ao ponto, fascista. O filme é rico em metáforas que serão certamente utilizadas pelo novo engodo da moda (o Coaching, essa nova roupagem de Lair Ribeiro ou da teologia da prosperidade – já bem resumida em “O Segredo”). 
 
George Cloney e seus coadjuvantes integram uma obra que logo em suas primeiras cenas faz questão de desqualificar de forma incisiva a mais importante das tecnologias humanas para a solução pacífica de conflitos, a política. Segundo o filme, que também retrata de forma jocosa professores e críticos, a política e a burocracia seriam as principais razões do atraso humano. Após enquadrar nas primeiras cenas a razão da desgraça humana e o telespectador, vai direto a uma das metáforas mais antigas da humanidade, a da existência de escolhidos que serão levados à terra prometida. 
 
Os deuses Osíris, no Egito antigo, e Hades, na antiguidade grega, já foram responsáveis pela triagem das almas entre um mundo de abundância e felicidade ou a danação eterna do sofrimento. Tomorrowland abusa nas referências mitológicas dando inclusive nomes divinos a seus personagens, como Athena e Nix, respectivamente a deusa grega da sabedoria e da estratégia e a deusa grega das trevas, essa última, mãe de Tânato (o deus grego da morte). 
 
Santo Agostinho é quem empresta a metáfora mais forte a Tomorrowland, sua obra Cidade de Deus, já falava na predestinação dos escolhidos a integrarem o âmbito da perfeição plena construído por Deus, enquanto os demais estavam fadados à exclusão e sofrimento. A predestinação estava vinculada à obra divina e a igreja seria a intermediária entre o indivíduo e a cidade de Deus, teologia tão presente atualmente e que, ironicamente, faz de todos os protestantes fervorosos católicos agostinianos!
 
Se na cosmogonia agostiniana a salvação estava ligada a fazer jus à predestinação, em Tomorrowland ou na “Terra do Amanhã” os escolhidos são arrebatados pelo domínio técnico, isto é, pela sapiência e inventividade, que, sem freios políticos ou burocráticos, seriam capazes de construir a cidade e o futuro perfeitos. Apesar de ficcional e das fantásticas e cativantes imagens – principalmente pelo uso abusivo do apelo à pureza infantil –, a ideia por trás de Tomorrowland já foi aplicada e é neste ponto que essa obra prima dos efeitos especiais se conecta ao documentário Arquitetura da Destruição. 
 
Arquitetura da Destruição revela o sonho nazista e expõe de forma fática e visceral como a ideia da predestinação, ainda que justificada pela pseudociência racial e pela vanguarda da técnica, nos levou à desumanização e destruição extrema. Ao ver Tomorrowland e Arquitetura da destruição – recomendo que o faça em sequência – a analogia da cidade magnífica do primeiro com a cidade do Terceiro Reich de Albert Speer do segundo será automática.
 
A predestinação e a técnica pura negam a igualdade, ambas nos separam entre os que as detém e o resto de desafortunados. Ambas hierarquizam a sociedade e eliminam, por conseguinte, a política, pois só há política, como alerta Hanna Arendt e Jürgen Habermas, onde o diálogo se dá entre iguais. Qualquer relação hierarquizada elimina a igualdade e dá ao superior a capacidade de imposição de significados, consequentemente, da determinação das decisões e do futuro. 
 
Muitos perguntariam, mas como alguém que não está tecnicamente preparado poderia participar de uma discussão entre connoisseurs (experts)? A igualdade, certamente, não se imporia no domínio específico porque, por óbvio, seria fictícia, mas, residiria, sim, na capacidade de opinar sobre o valor moral da expertise ou tecnologia criadas ou as quais se pretende aplicar, como por exemplo, entre a construção de um foguete para a exploração espacial ou um míssil transcontinental. Talvez, esse seja um debate demasiado ausente em nossa atualidade de adesões quasi obrigatórias a Ipads, Ipods, 3Gs, 4Gs, Facebook ou Faceglória!
 
Ao demonizar a política e divinizar a técnica, Tomorrowland é nada menos que um spoiler ficcional da Alemanha Nazista e essa última, por sua vez,  é o spoiler real de Mad Max. É triste, mas posso dizer às mocinhas incautas, George Cloney é protagonista de uma obra fascista!
 
*Uirá de Melo é aluno do mestrado em Ciências Políticas da Universidade Federal de Goiás
 
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por Uirá De Melo

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