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O que será de Micael?

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05.04.2013 - 19:53:18

Goiânia – Minha amiga me contava como estava levemente preocupada com a decisão de morar sozinha, deixando a casa da avó onde mora, as contas apertarem e ela não conseguir fazer mais uma viagem ao exterior como sempre faz. “Queria tanto ir para Nova York”. Compartilhei do sentimento dela, dei um gole na minha cerveja depois de engolir uma garfada de carne e purê de mandioquinha. 

– Ei, tia, me ajuda! Compra essas figurinhas!

Levei um susto tão grande. Um menino bem pequeno me abordou sem eu perceber sua chegada. Ele chegou rápido, olhou bem pra mim de uma forma que me motivasse a fazer mais do que dizer sim ou não. Engoli seco. Olhei para minha amiga buscando no olhar dela a mesma preocupação que tive. Uma criança muito pequena, a mando de alguém, pedindo dinheiro. Eram mais de dez da noite. Estávamos num bar do Setor Marista. Encontrei no olhar dela a cumplicidade que busquei. Respirei.

– Você está com quem aqui?
– Com a Zuliana (disse querendo dizer Juliana)
– Quem é Juliana?
– Minha tia.
– Ela que te mandou aqui?
– Foi.
– O que vai fazer com esse dinheiro?
– É pro fusca. Para pagar gasolina do fusca. 

A criança respondia sem nenhum pudor às perguntas que fazia. Com toda ingenuidade de uma criança. Olhei para os lados para ver se a tal Juliana não estava nos assistindo e depois daria uma bronca nele. Continuei.

– Onde você mora?
– No Maysa II.
– Como vão embora?
– No fusca!
– Quem dirige esse fusca?
– O Rodrigo. Ele é pequeno. Mas sabe dirigir.
– Cadê sua mãe?
– Minha mora em outra casa. Eu moro com minha vó.
– E seu pai?
– Meu pai? … Acho que meu pai tá na Brasília!
– Que horas você veio pra cá?
– Umas seis horas.
– Quantos anos você tem?
– Seis.
– O que você faz de manhã?
– Brinco!
– Você gosta de vir para cá?
– Não, mas a Juliana manda.
– Então toma esse dinheiro. Mas não dá nem pra ela nem pro Rodrigo, combinado?
– Aham!

Colocou no bolso da bermuda e saiu. Não sei se fiz certo. Também não sei se ele realmente não entregou esse dinheiro pra Juliana. Não sei o que faria com esse dinheiro e talvez fosse melhor não ter dado. Mas, na hora, foi meu impulso. Não dar nada para essa tal de Juliana. Pagar a criança por estar trabalhando, longe de casa. 

Ele se chamava Micael. Fiquei pensando em Micael e no parêntese que ele colocou naquela noite agradável com minha amiga e que me parecia romper de um momento burguês, perto do dele.

Pensei no vizinho dele, que também mora no Maysa II e contei para vocês que conheci na delegacia durante uma reportagem. Ele havia sido preso por roubar os bares no Marista naquele chamado arrastão. Era a primeira passagem dele pela polícia enquanto maior. Havia 20 dias que ele tinha completado 18 anos. Como menor, eram mais de 15 passagens. 

Pensei que em menos de dez anos, poderia encontrar com Micael na mesma delegacia. Pelo mesmo problema, quem sabe. Imaginei Micael voltando ao Marista, mais velho, não para vender figurinhas. Mas para roubar mesmo. Dessa vez não seria a Juliana a mandar nele. Seria alguém mais poderoso, de posse de armas e drogas na mão. Jogam os crimes nas mãos dos menores sabendo que não vão permanecer presos.

Se Micael se tornasse esperto, malandro e profissional o suficiente, poderia conseguir atingir a maioridade, mudar de cargo no mundo do crime e, quem sabe, passar dos 30 anos. Se não, pensei que poderia encontrar com Micael morto na rua, para fazer uma matéria. Como encontrei com outros meninos nascidos na década de 1990, cheio de furos, mortos pelas mãos da polícia mesmo. Esticariam os homens em seguida. “Menos um”. 

Pensei que às vezes ele se cansaria da Juliana quando fosse mais velho. A avó teria morrido e quem cuidaria dele agora seria a tia malvada. Ele estaria mais velho e ia conseguir sair de casa. Morar na rua! Fazer o que quisesse. Fumar craque, como os colegas de rua. Dormir em papelão, passar fome de vez em quando, mas não estaria subordinado a ninguém. Mas, de repente, um dia ele pudesse ser acordado com um tiro na madrugada. Encontrar um destino como os moradores de rua de Goiânia têm encontrado.

A verdade é que não consegui pensar um destino diferente para Micael. Achei improvável um garoto ser criado sem pai nem mãe (sabendo que a mãe mora em uma outra casa, ali perto e o pai em uma cidade a menos de três horas), com uma tia que não tem noção nenhuma de educação, ter algum referencial de amor na vida. 

Pensei na escola precária de Micael no Maysa II. Sem estrutura para dar educação ao aluno com dignidade. Pensei nos professores cansados de terem de assumir papel dos pais em casos como de Micael. Exaustos de terem de lidar com pepinos grandes, problemas sociais, do mundo inteiro, recebendo R$1200 por mês. 

Micael seria uma exceção, se eu pensasse em um destino diferente. A regra passa pelo perfil de meninos como ele: pobres, negros, homens, jovens. São eles os temidos criminosos. Os envolvidos com tráfico. São eles os mais assassinados no Brasil. Desejei boa sorte, em pensamento. E voltamos a falar de Nova York e morar sozinha. 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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