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Ana Carla Abrão

O que queremos saber é do sonho

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05.09.2026 - 12:27:13

Apenas 30 dias nos separam da próxima eleição. O Brasil volta às urnas envolto na maior crise institucional da Nova República. Os três poderes estão manchados por uma crise de confiança sem precedentes. E o Supremo Tribunal Federal mais que todos. Escolheremos presidente, governadores, senadores e deputados num contexto em que programas eleitorais disputam (e perdem) nossa atenção para o barulho da erosão dos valores básicos de uma sociedade. Assistimos, perplexos, ao abandono de todos os limites éticos e morais que deveriam nortear nossas instituições públicas.

Esqueçamos as crises econômica ou fiscal. Embora elas continuem aí, são subsidiárias à dilaceração do nosso tecido político e ao abandono dos conceitos de ética e moralidade. Vivemos uma crise de referências, uma falência de princípios, que, silenciosa mas crescentemente, corroeu as bases sobre as quais uma República se sustenta.

Honestidade, transparência e espírito público foram sendo paulatinamente relativizados para dar espaço a conveniências pessoais. Benefícios públicos foram sendo direcionados aqui e ali a partir de critérios individuais. Passamos a confundir lealdade com submissão, autoridade com poder, liberdade com licença, legislar com negociar e justiça com defesa de interesses – agora sabemos, quase sempre escusos.

Nesse crescendo, tudo ganhou outra dimensão. Ultrapassamos todos os limites do que uma sociedade pode tolerar. Não há mais fundo do poço para cavar.

Uma República não se sustenta apenas sobre leis. Sustenta-se sobre valores compartilhados. Sobre limites. Sobre a compreensão de que há coisas que não devem ser feitas, ainda que sejam possíveis; que há ações que não devem ser tomadas, ainda que ninguém possa nos impedir. Sustenta-se, sobretudo, sobre princípios que nos contêm mesmo quando ninguém está vendo. Há vergonha em seguir, há constrangimento em ser descoberto. Há contenção.

Abandonamos, pouco a pouco, essas ideias. O resultado está diante de nós: nossa República ruiu.

E é no meio dessas ruínas que chegamos a uma eleição. Uma eleição que não pode ser apenas mais uma disputa pelo poder, mais um ciclo eleitoral, mais uma escolha entre nomes e partidos. Ela precisa ser, antes de tudo, um momento de profunda reflexão sobre o país que nos tornamos. Porque o país que se mostra hoje diante de nós não é nada bonito.

E talvez o primeiro passo para mudá-lo seja ter a coragem de olhar para ele de frente — e tentar entender o que cada candidato representa para essa mudança.

Que visão de país ele representa? Que relação tem com a verdade? Que importância atribui às instituições? O que entende por liberdade — e por responsabilidade? Como enxerga o dinheiro público? Quais são os seus limites? Que valor dá à honestidade e à transparência? O que teria vergonha de defender?

E, talvez, a pergunta mais importante de todas: o que fará quando puder fazer aquilo que quiser?

Isso é voltar a votar a favor de um projeto de país. O Brasil não pode continuar escolhendo entre pessoas porque teme as outras. Não pode votar apenas contra alguém. Não pode transformar cada eleição em uma batalha pela sobrevivência de uma metade contra a outra. Não pode votar em negação, ou simplesmente por descrença.

Aos candidatos, não precisamos mais que nos vendam a realidade. Essa já conhecemos. Conhecemos a dívida, o déficit, a violência, a desigualdade, a baixa qualidade dos serviços públicos, a insegurança jurídica, a descrença nas instituições, a captura do orçamento e a corrupção desenfreada. Conhecemos o tamanho do buraco.

O que queremos saber é do sonho.

Queremos o sonho de um país em que honestidade não seja ingenuidade. Em que competência valha mais do que proximidade com o poder. Em que liberdade venha acompanhada de responsabilidade. Em que autoridade seja exercida com limites. Em que o Estado tenha força para fazer o que precisa fazer e humildade para não fazer aquilo que não lhe cabe — e mais ainda que deixe de ser usado para enriquecer os que dele se apropriam.

Queremos instituições fortes, mas conscientes de seus limites. Queremos uma política capaz de discordar sem destruir. Queremos uma sociedade que volte a acreditar que princípios não são obstáculos, mas fundamentos, e que valores são virtudes.

Queremos o sonho de um país normal.

*Ana Carla Abrão é doutora em Economia pela USP. Foi secretária da Fazenda de Goiás e atuou como executiva e conselheira de empresas do mercado financeiro

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por Ana Carla Abrão

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