Logo

O que é pior que um filho gay?

WhatsAppFacebookLinkedInX
28.05.2012 - 11:01:10
Duas mensagens enviadas por leitores na semana passada me sensibilizaram muito. Ambos homossexuais, uma moça e um rapaz, me relataram a angústia de esconder sua orientação sexual da família e pediram ajuda, no sentido de orientá-los sobre a melhor forma de contar isso aos pais. O fato de não ser psicóloga e de ser heterossexual fez, inicialmente, com que eu me julgasse incapacitada para auxiliá-los. Mas como não acredito em coincidências – e receber duas mensagens com o mesmo tipo de conteúdo na mesma semana é, no mínimo, estranho – pensei que talvez tivesse chegado a hora de falar sobre isso.
 
E lá fui eu conversar com meus grandes amigos homossexuais, para saber como revelaram para a família sua orientação sexual e que tipo de conselho dariam para quem está vivendo esse momento agora. Será que realmente é preciso contar a verdade? Todos foram unânimes na resposta: sim, é preciso. Se a pessoa tem certeza de que sente desejo por alguém do mesmo sexo, não faz sentido esconder esse fato dos familiares. E se já é difícil o próprio homossexual contar isso aos pais e irmãos, a coisa fica ainda pior se for dita por um terceiro elemento, alguém de fora do núcleo familiar. A sensação de traição dos parentes é maior.
 
Sim, eu disse maior. E essa palavra não veio por acaso. Conforme os amigos gays e lésbicas com quem conversei, todos os pais se sentem traídos no momento da revelação da homossexualidade dos filhos. Acham que foram enganados, pela vida e pelos seus, e são acometidos por um ataque de ira, seguido de muita tristeza. Segundo a professora universitária Edith Modesto, autora do livro “Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais” e fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais (http://www.gph.org.br/), a sensação que ela teve ao saber que o filho era gay foi de luto, e a dor comparada à de “uma operação sem anestesia”.
 
Toda a idealização que os pais faziam dos filhos cai por terra. É como se aquela pessoa não fosse a criança gerada e criada por eles, o ser para quem se sonhou um futuro perfeito. A reação é de estranheza e confusão. É como se o filho amado tivesse morrido e dado lugar a um outro, absolutamente desconhecido. Nessa hora, julgamentos são inúteis. Dizer que ele ou ela é promíscuo (a) e doente só vai piorar as coisas. Isso porque o próprio homossexual se culpa e se julga, muitas vezes com mais crueldade e dureza que qualquer outra pessoa. A autoaceitação é uma das etapas mais difíceis do processo. 
 
Buscar curandeiros, médicos ou religiosos para alterarem a orientação sexual do filho também não é boa ideia. Desde 1973, a homossexualidade não é mais considerada uma doença física nem um problema psicológico. Com base em estudos, há quase 40 anos a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do seu Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Distúrbios Mentais, demonstrando que ela nada mais é do que uma variação possível e legítima da manifestação do desejo sexual.
 
Seguindo a mesma linha, desde 1985, o Conselho Federal de Medicina passou a não considerar a homossexualidade uma doença mental ou física. Além disso, em 1999, foi publicada uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que normatizou a conduta dos psicólogos quanto à questão, determinando que eles “não colaborarão com eventos ou serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.
 
Como se vê, o filho ou filha que revela aos pais que é homossexual não está doente. Entretanto, há ainda um outro aspecto sobre ele que talvez os pais não percebam, mas que é de profunda importância: o caráter dessa pessoa continua o mesmo, bem como o amor e o respeito que ela nutre pela família. Uma prova de que os pais não falharam na educação que deram ao filho ou filha homossexual é o fato de eles quererem compartilhar com quem está dentro de casa a verdade sobre sua orientação sexual e se preocuparem com o impacto que essa revelação terá sobre a família. É sinal de honestidade e sensibilidade. 
 
Ser heterossexual também não é mérito algum. Fosse assim, não haveria tantas mulheres espancadas por seus maridos, tantos homens traídos por suas esposas, números crescentes de divórcios entre os casais ditos “normais”. Como bem disse Caetano, de perto ninguém é normal. Edith Modesto ensina que “temos de matar partes nossas para aceitar aquele (a) 'novo (a)' filho (a). Matar conceitos que tínhamos, maneiras de ser que acreditávamos serem as únicas; temos de matar os sonhos que construímos para ele (a)…Reinventar-se é construir uma nova identidade para nós, mais ou menos o que nossos filhos tiveram de fazer para eles”. Tarefa árdua, mas plenamente possível.
 
Um amigo meu nunca vai esquecer do dia em que contou ao pai que era gay. Coberto de ódio e decepção, ele gritava: “Meu Deus, por que não matou meu filho? O que é pior que um filho gay? Não há castigo mais terrível que esse!”. Disse isso e expulsou sumariamente o rapaz de casa. Meu amigo foi morar com o namorado, um enfermeiro íntegro e esforçado. Algum tempo depois, o pai viu a filha caçula abortar um bebê de cinco meses, em decorrência do espancamento que sofreu do marido. E também assistiu ao drama do filho mais velho, que, em função do comodismo da nora, que se recusava a trabalhar e gastava demais, fora internado no hospital com estresse agudo. 
 
Nesse período, a mãe do meu amigo teve câncer. A família era pobre e não possuía plano de saúde. Foi então que o namorado dele conseguiu, no hospital em que trabalhava, que um dos donos, um grande oncologista, atendesse a senhora doente de graça. Quando ela estava no quarto debilitada, era o enfermeiro que seu marido odiava quem cuidava dela com carinho e atenção. Grato pelo carinho e atenção do namorado do filho a sua esposa, hoje o pai do meu amigo diz que a pior coisa não é ter um filho gay: é ter um filho infeliz, que não sabe escolher uma boa pessoa para se relacionar. 
 
Quando há amor genuíno é sempre possível buscar formas de superar as diferenças. Por mais difíceis e dolorosas que pareçam, elas serão sempre menores que o afeto verdadeiro. Porque, no final das contas, o que nos distingue, o que nos torna melhores ou piores, não é o que temos entre as pernas, mas o que trazemos dentro do peito.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
26.10.2026
População comemora aniversário de Goiânia no tradicional desfile cívico; veja galeria de fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia comemorou seus 93 anos, no último sábado (24/10), com a realização do tradicional desfile cívico-militar na Avenida 24 de Outubro, no Setor Campinas. A programação, realizada durante a manhã, reuniu mais de 1,2 mil participantes e marcou as celebrações pelo aniversário da capital goiana. O prefeito Sandro Mabel e a vice-prefeita […]

Curadoria afetiva
25.10.2026
Equilíbrio

“A Anitta fez um curta musical que é um dos maiores acontecimentos do ano. Equilibrivm I-II tem 35 minutos. Acho que uma boa maneira de resumi-lo é dizer que ele é uma grande homenagem à cultura brasileira, feito com muito cuidado e respeito. A pesquisa visual do projeto vai fundo em três pilares. Primeiro, as […]

Joias do Centro
23.10.2026
Goiânia em nove capítulos: marcas que ajudam a contar a história da capital

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia nasceu de um projeto de modernização, ganhou forma entre avenidas largas e edifícios de linhas geométricas e, ao longo de nove décadas, construiu uma identidade que ultrapassa os limites de seu plano original. A capital que completa 93 anos neste sábado (24/10) guarda, em suas ruas, praças, monumentos e instituições, […]

Noite e Dia
22.10.2026
Goianienses prestigiam noite de música, teatro e dança com o espetáculo “Pop Hits”; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Os alunos do curso de Teatro Musical e da Banda Sinfônica Jovem de Goiás, da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França, apresentaram o espetáculo “Pop Hits” nesta quarta-feira (21/10), no Teatro Escola Basileu França, em Goiânia. A apresentação reuniu música, teatro e dança, com interpretações de canções conhecidas […]

Noite e Dia
19.10.2026
OCB/GO homenageia lideranças por atuação em prol do cooperativismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO homenageou, na última sexta-feira (16/10), três personalidades de destaque nos cenários regional e nacional, pelas suas contribuições ao cooperativismo. O prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, a presidente-executiva do Sistema OCB Nacional, Tania Zanella, e o ex-ministro da Agricultura, ex-presidente do Sistema OCB Nacional e da Aliança Cooperativa Internacional, […]

Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]