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O preço de sair sozinha

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06.02.2014 - 20:03:28
Goiânia – A leitura abaixo só faz sentido se assistir a esse link de um trecho do programa “Encontro com Fátima Bernardes”, para que se possa estar atento às falas da apresentadora e, principalmente, da atriz Sophie Charlotte e do psicanalista Francisco Daudt.

A atriz afirma que gosta de sair sozinha. Ele arrebate dizendo que “Se você sai vestida para matar, vai para um bar, toma um chopinho e passa um radar em torno, as pessoas vão fazer a leitura correta de que você está disponível”. Continua. “A mulher que está sozinha (em um bar) é frequentemente uma garota de programa que está à caça de companhia”.

 
Cinco minutos depois que assisti a esse trecho (veiculado no dia 20/1), ainda engasgada com as frases do médico, levei a mão à gaveta de minha mesa que ainda abrigava uns guardanapos de uma noite que não faz tanto tempo. Neles, havia rascunhos de um texto escrito em um bar meio pizzaria em uma noite dessas. Era daquelas em que eu queria ficar sozinha. 
 
As pessoas mais próximas de mim não entenderam eu recusar a companhia delas em plena sexta à noite. Mandaram sms insistindo para que fossem ao meu encontro. Levou um tempo para entenderem que eu não queria e que, principalmente, estava tudo bem. Eu só queria gozar de minha companhia naquela noite. A gente nunca tem tempo para conversar com a gente mesmo.
 
Metalinguagicamente, os guardanapos registravam um texto que escrevi sobre esse estar sozinha. Apenas tive uma vontade louca de reunir três coisas de que gosto muito de fazer: comer pizza bebendo cerveja de trigo, ouvir música e escrever. E não cabia ninguém além de mim nesse compromisso. Muitas vezes faço isso em casa. Mas nesse dia, quis ir ao bar.
 
Algumas frases desse guardanapo eram. “Inventaram um pavor de solidão que era exatamente o que ela queria naquela noite. Sentou-se ao seu lado como quem goza da melhor companhia. Como quem nunca está só”.
 
Continua. “Atravessou o bar com roupa de trabalho, ainda, e com maquiagem borrada. Pensou que tanto melhor assim. Repeliria possíveis companhias que atrapalhariam a sua noite consigo mesma”. O que me fez escrever nesses guardanapos foi o que conto na parte seguinte. 
 
“Mal se sentou… 
– Oi, senta com a gente. 
Um conhecido a reconheceu na mesa do cantinho, isolada, no escuro. 
– Obrigada, só vim comer uma pizza e já vou.
Ele insistiu. 
– Come com a gente! Acabamos de pedir!
Ela insistiu de volta. 
– Quero ficar quietinha, obrigada!
– Mas tá tudo bem?
– Sim!
– Certeza?
– Claro!
Respondeu já sem paciência. 
Enquanto bebia só e ouvia a canção agradecida pela trilha sonora da noite, cruzou com olhares de compaixão, como se dissessem: tão nova! Tão só!”
 
Não assisti ao programa todo “Encontro com Fátima Bernardes”, mas pelo trecho que compartilhei acima acredito que tenham discutido justamente isso: estar só não é sinônimo de estar triste, estar mal ou, pior, estar procurando companhia.

Naquela noite tudo que eu queria era não ter nenhuma companhia. Sai tranquila e leve dali, como quem encontra um amigo que não via há muito tempo. Eu não me dava o direito de estar só comigo fazendo coisas de que gosto há uns dias. Apenas isso.

 
Mas, como o psicanalista Daudt afirma acima, há uma diferença: ir ao teatro sozinha, ir ao cinema sozinha ou, quem sabe, almoçar sozinha, pode até não gerar problema quando o sujeito é uma mulher. Mas sair sozinha, para um bar (como no meu caso), principalmente vestida para matar significa: você é garota de programa. Ou, você está disponível. Ou, pior: você tem que pagar pelo preço de fazer isso.
 
Ora, ao reler minhas próprias frases, pude constatar o preconceito que me impede de ter a liberdade de exercer o que queria naquela noite (ficar só, em paz, sem nenhuma companhia em um bar) que, para o psicanalista é traduzido pelo código social: sou garota de programa. Eu mesma disse que, como estava vestida com roupa de trabalho e sem maquiagem, e não “vestida para matar”, talvez tivesse mais paz. 
 
Fazendo uma análise psicológica bem rasa do que escrevi e confrontando com a fala de Francisco Daudt, eu já sabia ao entrar no bar – injustamente – do “preço que teria que pagar” por estar sozinha ali. Mas eu não estava disponível. Eu não queria ninguém além da minha companhia. Tudo que menos queria era alguém para se sentar à minha mesa (quanto mais outras coisas). E, muito menos, sou prostituta. Eu apenas queria ouvir música, beber cerveja, comer pizza, escrever e pensar. 
 
O preço que eu sabia que teria de pagar não se chama código social. Isso se chama construção histórica de dominação do homem sobre a mulher. É o mesmo incômodo que tenho ao passar ao lado do boteco próximo à minha casa.

Dia desses era feriado e boteco estava fechado. Passei em cima da calçada e não na rua, como sempre faço. Desde que a padaria do “Bruno” se transformou naquele bar, há uns 18 anos, não pisava na calçada, como é meu direito.

 
Se não é por medo, é pelo incômodo das cantadas – quando estou vestida para trabalhar ou quando estou de shortinho e vou apenas comprar um refrigerante na esquina. Não importa. É o mesmo medo que tinha ao ir para o ponto de ônibus às 20 horas com maquiagem e toda arrumada para encontrar amigos. 
 
Eu pago mesmo, alto, por muitas coisas que faço – como a atitude transgressora de ir sozinha a um bar comer pizza. E aqui e ali diariamente as mulheres pagam muito alto por muita coisa. Por dançar do jeito que quer. Por transar com quem tem vontade. Por gravar vídeos íntimos com o namorado. Por usar um shortinho curto. Ou, simplesmente, por amar, se entregar a um relacionamento e depois não conseguir sair dele. 
 
O que o doutor talvez não tenha medido (ou pior, tenha!) em suas palavras, é que “pagar pelo preço” pode significar meu incômodo no bar, as cantadas baixas no bar da esquina que tenho de ouvir, como pode significar estupro – clássicos casos de meninas bêbadas que acabam violentadas – e até assassinato – como o caso de tantas mulheres que traem os maridos e tem esse castigo eterno. 
 
Em Bruxelas, quem tem de pagar pela cantada não é a mulher, é o homem (pedreiro ou psicanalista) que a proferiu. E pagam mesmo: de 75 a 250 euros. O documentário de Sofie Peeters, “Femme de la Rue”, comprova o constrangimento, pavor e medo que as mulheres sofrem ao serem cantadas nas ruas. 
 

Obs: Este trailer não possui legendas em português
 
A mulher não tem de pagar pela saia curta, pela cantada, pelo jeito de dançar, pelo número de caras com quem transou. Não tem que ter os olhos perfurados porque o marido é louco de ciúmes. Não tem que morrer porque tem um amante. Não tem que ser estuprada porque o vestido é provocante. 
 
Não tem que apanhar porque chegou tarde em casa. E eu não quero pagar por nada para poder ir sozinha ao bar ficar em paz. A ordem do pagamento está invertida, seu dotô. São esses seus códigos sociais que estão de cabeça para baixo. 
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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