Logo

O paradoxo do gaúcho

WhatsAppFacebookLinkedInX
16.05.2012 - 22:30:07

De Porto Alegre – Talvez o que mais me encante e me orgulhe no Brasil é que ele guarda esse tamanho de continente, gigante pela própria natureza (e consequentemente tanta diversidade cultural e natural) mas, ao mesmo tempo, uma espécie de união. De Norte a Sul, todos somos compreendidos pela mesma língua. Diferenças aqui, ali, sotaques chiados, puxados ou cantados: um mesmo Português. Quando penso na Espanha, por exemplo, que um galego não consegue conversar com um catalão, me impressiono com o Brasil. Apesar das diferenças étnicas, estamos longe de uma intolerância que leva a mortes e conflitos; e (mal e mal) vivemos num Estado laico.

Nessa história de ser nascida e criada no Centro-Oeste, percebo que as culturas dos extremos são as que mais estranho e, logo, me encanto. Sudeste sempre esteve muito próximo da cultura goiana. Por formação histórica (foram eles que migraram para cá) e cultural mesmo (sem falar na televisão, que por natureza é paulista e carioca). Já quando o assunto é Nordeste e Sul sempre me sinto em terreno, de fato, diferente. E quando falo em Nordeste, falo das pessoas e da cultura (para além das belezas naturais que levam a maior parte dos brasileiros até lá).

O primeiro carnaval em Olinda a gente não esquece. Lembro que cheguei à cidade antes da minha turma. Sozinha, caminhei até o centro, tomei o primeiro ônibus que vi e fui até a linha final. Depois tomei o ônibus de volta até o centro. (Tenho um prazer estranho em me sentir perdida em lugares que não conheço). É dentro de um ônibus que você conhece as pessoas que pertencem àquele lugar. Era pré-carnaval e foi ali no ônibus que vi que aquilo é muito mais que uma festa e gandaia pra esse povo. A coisa é, alegremente, séria. As casas, as famílias se preparam para aquilo como para o Natal. É tradição, é história, faz parte do ser. Eles estão pouco se lixando se os turistas vão gostar ou não. A festa é para eles. Sorte nossa de poder compartilhar.

E então me lembro que no ônibus uma criança estava no colo da mãe que conversava com uma conhecida. Dez minutos de conversa a criança já estava no colo da conhecida e perguntou: “pra quê você usa isso?”, se referindo aos óculos de grau. “Para ver as flores, para ver o mar azul e ver as cores do carnaval”. Entenderam? Para mim esse diálogo resumiu toda a alegria e poesia no ser nordestino. Mesmo na miséria e na dificuldade, guardam sempre um sorriso, humor e um quê de arte. Pronto! (Como eles mesmos dizem). Nordeste já me conquistou faz tempo. Eu poderia ainda falar da força da história, da música (e salve o coco, baião, maracatu) e da gente porreta que conheço. Mas acho que já convenci.

O Sul, como o Nordeste, é terreno longe para mim. Minha avó materna é do Paraná, mas viveu a vida toda em São Paulo. Então, não tenho vínculos, de fato. E se nordestino passa por preconceitos e estereótipos, por um lado, os sulistas não ficam para trás. Em especial os gaúchos, essa gente que convivi de perto nos últimos meses e me conquistou, como os nordestinos. Mas, descobri que no fundo, eu tinha um preconceitozinho com gaúchos. Nada muito grave, só achava, de fato, um povo metido e antipático.

Bem, tudo caiu por terra quando, durante o intercâmbio em Portugal, fiz duas grandes amizades com quem morei: uma gaúcha (com quem acabei dividindo quarto) e um gaúcho (quem acompanha essa coluna há um tempo,sabe de quem estou falando. Aquele “guri” que saiu de uma colônia alemã do Rio Grande). Fora essas amizades, já tinha tido um amigo gaúcho, das antigas, mas achava que era caso isolado. Há 10 dias, em ocasião de um encontro de filosofia, acabei tendo a oportunidade única de conviver com eles por alguns dias em Pelotas. Bom, a simpatia e hospitalidade não eram típicos apenas de Marcela e Dani. Os amigos deles, com quem moravam e estudavam e outras pessoas que conheci, me fizeram engolir, de vez, a imagem de antipáticos. Simpatia, aliás, que não vejo com freqüência por aí.

Bem, se pude rever o conceito de antipatia, também revi o de metidez. Eles têm mesmo orgulho em ser gaúchos. Um bairrismo que, sem conhecer de perto, me irritava. Depois admirei. E por fim, preocupei. No domingo, o cardápio era arroz carreteiro e cozinhavam ao som de música gaudéria. Não estou falando de gente adulta não tá? Pessoal da minha idade. Logo começaria jogo do Internacional, prepararam chimarrão. Aliás, pausa para falar do chimarrão. Eles compartilham como quem compartilha uma cumplicidade, uma história, um quê que a gente não é capaz de entender. Dani muito se irrita quando falo que não vejo graça em tomar chá mate no canudinho.

Continua a história: prepararam chimarrão, compartilharam e cantaram hino do Rio Grande do Sul antes do Jogo. “Oi? Você sabe hino do Rio Grande do Sul de cor?”, me levantei do colo da Marcela onde estava deitada. “Claro que sim! Aprendi antes do hino nacional. Olha o tanto que é lindo”. “Hino é hino, Marcela”, brinquei. Mas pensei que acho muito bonito saberem o hino do estado. Não sei nem como começa o de Goiás.

Eles sabem da história e frequentam Centros de Tradição Gaúcha. Em suas rotinas, ouvem sua música, comem seus pratos típicos, tomam seu chimarrão, cantam o hino antes do jogo e acham o sotaque a coisa mais linda do Brasil. Uma regionalidade admirável, perdida em muitos cantos desse país. Admirei esse amor pela cultura, essa tradição e, antes, todos Estados tivessem esse envolvimento. O Rio Grande é lindo, os gaúchos são simpáticos, a cultura interessante, a tradição admirável e sua história é bonita. Tá bom, Bündchen é a mulher (considerada) mais linda do mundo, a Dilma (a primeira presidente brasileira) é gaúcha e a Polar (cerveja) é gostosa (mas não é isso tudo). Os gaúchos só têm um defeito: acham que são os melhores.

Quando perguntava (de brincadeira) se defendiam separatismo, me respondiam: “A gente não tem condições. A gente precisa do Brasil”, riam. Então era uma questão de condições, menos que de vontade. Essa conversa hoje em dia é só para fazer piada mesmo, mas reforça esse bairrismo todo. Digo que esse bairrismo acabou me preocupando quando esse amor todo evolui para “se achar melhor que os outros Estados” até chegar ao “odeio nordestinos”.

Ouvi uma, duas, três vezes. Até ouvir na esteira do aeroporto em Brasília, de alguém que me parecia importante, ligado à política do Rio Grande e ia ao Ministério da Fazenda. “Venho aqui só uma vez ao mês. Gaúcho não gosta de Ministério da Fazenda, quem gosta são os nordestinos, que vêm pedir dinheiro”, declarou. Repito, declarou e não brincou. Lembrei-me, na hora, do que a guia na Charqueada São João que visitamos em Pelotas nos contou. Veja só que ironia, as charqueadas, umas das maiores tradições do gaúcho, determinante no crescimento pecuarista do Sul, foi possível pela seca do Nordeste. Quem sabia da técnica (fazer carne de charque) desceu para o Rio Grande.

Bem, a verdade é que em toda vida ouvi poucas piadinhas ou declarações de preconceitos com nordestinos em Goiás. Acabei me assustando. E o bairrismo me preocupou, porque de uma coisa linda e admirável, pode se tornar um grave problema étnico. Gaúchos, vocês são ótimos. Mas não são os melhores. Basta dar uma voltinha com coração aberto pelo Brasil e verão que não são. Eis vosso paradoxo: são bons demais. Só não são melhores porque acham que são.   

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]