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O papa-coquetel

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22.11.2013 - 19:17:21
 
Que interessante foi reencontrá-lo ontem, quase dez anos depois. Conheci Mauro quando iniciava a vida no jornalismo como repórter de tevê. Apresentou-me a curiosa figura o cinegrafista Spaghetti – carinhoso apelido por causa de seu jeitão comprido e desmilinguido. 
 
Cinegrafistas são seres observadores, perspicazes, escolados em cobrir sempre as mesmas pautas, enquadrar as mesmas figurinhas repetidas, os aparecidos papagaios de pirata. Logo se apercebem que há todo um interessante mundo que gravita em torno das lâmpadas, lentes e flashs, não o mundo das ingênuas mariposas que se consomem na luz, mas aquelas figuras persistentes, duradouras, que entra-governo-sai-governo, entra-década-sai-século, estão ali.  

Mulheres que dão um jeito de não envelhecer mesmo quando envelhecem; políticos que são sempre secretários ou autoridades de alguma coisa, ainda que não estejam mais no poder; assessores para assuntos aleatórios de porcaria nenhuma, mas com nomes pomposos e  imaginárias  honrarias; artistas em começo ou fim de carreira, eternamente desejosos da tão sonhada fama ou ao menos de algumas migalhas de elogio; metros e metros de pessoas sempre à procura e ávidas  de algum bom contato para os negócios, de um encontro romântico ou no mínimo de um registro fotográfico, ontem publicado nas colunas sociais, hoje em sites como www.seestivealivocetemquesaber.com.br ou www.vocesoeseaparece.com.br.
 

Spaghetti, experimentado de tanto cobrir todas as noites os mesmos coquetéis, os mesmos vernissages, os mesmos lançamentos de livros – matérias produzidas para arejar a programação árida ou sanguinolenta dos noticiários diários -, me disse:
 
“- Está vendo aquele sujeito ali?  Frequenta todos os coquetéis.  Não é artista, autoridade ou crítico de arte. Mas está em todas,  sempre com um olho na coxinha, o outro na empadinha. Desenvolveu uma técnica para se regalar. Sabe o ponto estratégico onde ficar e ser bem abastecido. Coloca-se na porta do local de onde saem os garçons. Quando eles passam em fila indiana, serve-se. Com um gancho formado pelo indicador e o polegar, pega um salgadinho. Com os demais dedos, afana discretamente outros três. ”
 
Acostumei-me a vê-lo: sempre muito discreto, reservado e elegante. Nos intervalos de sua nutrição, contemplava com ar de profundo interesse os quadros em exposição, folheava atenciosamente os livros. Ele me parecia muitas vezes mais atraente do que muitos dos quadros, porque me abria o apetite do imaginário, mais profundo do que muitos dos livros lançados, porque parecia recheado de histórias.

Na época eu ficava curiosa por saber como ele se se informava sobre todos os eventos: exposições, lançamentos, inagurações de lojas. Devia ler a programação nos jornais. Suspeitava que acompanhasse atentamente as colunas sociais, as agendas culturais. Tinha curiosidade sobre sua vida. Imaginava quem era ele,  o que fazia, se trabalhava, se vivia de brisas. Às vezes supunha que passava o dia inteiro a pão e água e à noite aproveitava para comer e beber de graça.

Supunha as técnicas que utilizava. Mudaria de hotel toda semana, deixando contas por ser pagas? Tomaria banho nas academias ou nos clubes que frequentava sei lá com que ardis, com que trapaças? Os coquetéis seriam sua única e substanciosa refeição do dia. Porque era difícil conceber que alguém fosse tão viciado em empadinhas ou tão bem relacionado com todos do mundo das artes e do comércio, para receber tantos convites.
 

Ontem, porém, ao revê-lo depois de tantos anos em evento que não fora divulgado por nenhum veículo da imprensa, mas restrito a um grupo seleto de convidados, passei a suspeitar que ele tem secretos acordos com funcionários dos bufês, que lhe informam onde haverá boca livre, onde poderá penetrar sem que lhe exijam convites, onde não terá que se apresentar como alguém de alguma importância, onde poderá confundir-se entre as jactâncias. 
 
Sim,  revê-lo me fez relembrar que o admiro, pois ele, confundindo-se naturalmente com o resto dos convidados, parece não sentir nenhum constrangimento, nenhum envergonhamento de seu não-pertencimento e de sua solidão. Se bem que dessa vez julguei ter visto Mauro acompanhado de um outro Mauro, sujeito também discretamente vestido, a postos a noite inteira diante da suntuosa mesa de quitutes – não, hoje nos coquetéis finos já não se usam coxinhas ou empadinhas, tampouco insossos e esfarinhentos canapés, mas comidinhas sofisticadas, combinações do que há de melhor e mais caro, queijos fabricados com leites de animais exóticos, frutas raras. Eles rapidamente se separaram, afinal dois penetras não bicam juntos.
 
Ah, Mauro, meu velho amigo, passei grande parte da noite a contemplá-lo. Não sei se recorda de mim, não sei se de mim suspeita. Talvez saiba muito mais de nós do que nós mesmos. Também sou um pouco você, também sou um pouco esse ser que penetra nos eventos para os quais não é verdadeiramente convidado, que tudo observa, que ali se alimenta, que às vezes finge interesse pelo que absolutamente não lhe interessa, que é feliz em ser ignorado, em não pertencer, porque assim, só assim, estamos completamente a salvo. A salvo, a salvo de quê? Talvez de ser misturados no borbulhante e explosivo coquetel da humana vaidade, talvez de ser papados.
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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