A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. O paciente envelheceu, mas a saúde não pode envelhecer em seus processos, estruturas e modelos de atendimento.
Adaptar os serviços de saúde não significa apenas instalar rampas, melhorar a iluminação ou ampliar a sinalização. Essas medidas são fundamentais, mas é preciso olhar para toda a jornada do paciente: o agendamento, a recepção, o tempo de espera, a realização de exames, a compreensão das orientações e a continuidade do tratamento. Um procedimento considerado simples pode se tornar um grande obstáculo para quem enfrenta limitações de mobilidade, visão, audição ou dificuldades cognitivas.
A tecnologia pode contribuir para a modernização dos serviços, mas é necessário compreender a quem cada recurso atende. Prontuários integrados, sistemas informatizados e ferramentas de telemedicina facilitam principalmente o trabalho dos profissionais e das unidades de saúde, ao permitir maior acesso às informações clínicas e apoiar decisões mais seguras. Isso não significa, porém, que essas soluções sejam automaticamente simples ou acessíveis para o paciente idoso.
Para uma parcela dessa população, aplicativos, plataformas digitais, totens de atendimento e agendamentos exclusivamente pela internet podem representar novas barreiras. Muitos idosos não têm familiaridade com essas ferramentas, enfrentam dificuldades para compreender comandos ou dependem de familiares para realizar tarefas básicas. Quando a tecnologia substitui completamente o contato humano, aquilo que deveria modernizar o atendimento pode aumentar a exclusão e dificultar o acesso à saúde.
Depois de 15 anos atuando na gestão da saúde, especialmente em serviços hospitalares e de atendimento domiciliar, aprendi que pessoas idosas frequentemente convivem com diferentes condições de saúde ao mesmo tempo. Por isso, além de integrar médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, cuidadores e familiares, os serviços precisam oferecer orientação presencial, comunicação clara e canais alternativos de atendimento. A tecnologia deve apoiar os profissionais, mas nunca abandonar o paciente à própria sorte.
Envelhecer não pode significar enfrentar uma saúde lenta, burocrática, distante ou excessivamente digital. Modernizar é utilizar novos recursos sem perder a escuta, o acolhimento e o contato humano. O futuro da saúde dependerá da capacidade de atualizar processos e ferramentas, mas também de reconhecer os limites e as necessidades de cada paciente. A verdadeira inovação é aquela que melhora o cuidado sem deixar ninguém para trás.
* Domingos Quirino de Freitas é administrador, empresário e especialista em saúde, com 15 anos de experiência em gestão hospitalar e gestão de pessoas nos setores público e privado. É graduado em Gestão Hospitalar e Gestão Pública, com pós-graduação em Finanças e Compliance, formação em gestão de home care e especialização em internação domiciliar e UTI terrestre e aérea. Foi fundador da primeira empresa de home care do Tocantins, que se consolidou como referência no atendimento domiciliar adulto e pediátrico de alta complexidade.
