A gente percebe que alguma coisa está fora da ordem quando crianças de 8 anos sabem de cor quais são os novos modelos de carro ou meninas de 12 têm como objeto de desejo uma bolsa Chanel. E ninguém estranha. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Alguma coisa está fora da ordem quando crianças grandes e até mesmo adolescentes andam com babás e as tratam como se fossem uma mercadoria. Mandando e desmandando, como verdadeiros tiranos.
A gente percebe que alguma coisa está fora da ordem quando pais e mães terceirizam a educação dos filhos para o motorista, a empregada, a babá ou a escola. Não têm tempo nem paciência para amar, respeitar, conviver, ensinar e aprender com os pequenos.
A gente percebe que alguma coisa está fora da ordem quando o único motivo para viajar é voltar com a mala cheia de compras e nenhuma história. Ir para Paris pela primeira vez e conhecer cada corner da Galerias Lafayette e nem passar perto do Museu D’Orsay.
A gente percebe que alguma coisa está fora da ordem quando as relações pessoais passam a ser usadas apenas para ascensão social, troca de favores e interesse. Ao invés de afetos sinceros, risadas, ajuda desinteressada e boa companhia.
A gente percebe que alguma coisa está fora da ordem quando ter é o único assunto das rodas, do Facebook e do Instagram. A nova bolsa, o restaurante caro, as joias e até o cambio do carro de marca são fotografados e mostrados como símbolo de status e poder.
E todo mundo acha normal.
Eu não acho normal. Eu acho jeca. Mas pode ser que quem esteja fora da ordem seja eu.