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O menino, o mundo e o Fica

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08.06.2014 - 15:43:12

"E aí, vai pro Fica?"
"Não sei. Quem vai tocar?"
 
Este diálogo é real e deve acontecer todo ano entre amigos distintos. Já aconteceu comigo.
 
O amigo que pergunta quem vai tocar no festival de cinema não tem culpa alguma. O Fica, embora tenha o Festival Internacional de Cinema Ambiental em suas siglas, é o evento cultural de maior orçamento do estado, isso todos sabem, e apontar que a música está em primeiro plano é crítica velha.
 
Mas, enfim, eu sou um desses que vai ao Fica para ver filmes. Ficar enfurnado no Cine Teatro São Joaquim. Só depois, de volta pra casa, descubro que muitos amigos e conhecidos foram lá, pro fim de semana, pela rápida festividade. Ver Gal de graça. Pato Fu. Rita Lee. Nação Zumbi.
 
Nada contra, embora eu particularmente não tenha mais paciência para essa Cidade de Goiás um tanto micareteira. Por esse lado, ficar na caverna do cinema é ainda melhor. Mesmo quando não ia a trabalho, passava boa parte nos filmes. Foi numa Mostra ABD (2011?) que vi O Ogro pela primeira vez, quando ainda era exibida no antigo Cinemão, aquele galpão que tinha cara de improviso que abrigou os filmes goianos por anos.
 
A Mostra ABD, por sinal, continua sendo meu primeiro interesse. Porque ali é livre, mas também, mais importante, é vitrine da produção local, do cinema/audiovisual feito em Goiás, que ainda procura sua vez de despontar, de ser observada mais de perto. Assim como a mostra regional da Goiânia Mostra Curtas, é a Mostra ABD que sintetiza esse processo, do mais canhestro ao mais sofisticado que podemos chegar, e de lá começar a discutir algumas coisas.
 
No rastro dela, os laboratórios e oficinas, pequenas e breves joias oferecidas durante o festival. Laboratórios de roteiro com Hilton Lacerda (Tatuagem, Febre do Rato) e Adirley Queirós (A Cidade É uma Só?), por exemplo, e, de carona, uns papos normais. Umas cervejas com Adirley, pô. Um forró no Morro do Macaco Molhado com Hilton. E o cinema presente, surgindo por esses cantos e encontros. Perto disso, num festival que tem cinema no nome, um show de Gal é pouca coisa.
 
Mas voltemos à competitiva ambiental, pois a ABD exige mais atenção, texto e, com azar, lágrimas (simbólicas; não me superestimem), e para tamanho espaço eu já me comprometo com a revista ] Janela [.
 
Enfim, no que diz respeito à competitiva do Fica, vale lembrar que ano passado foi dos melhores. Sanã, Os Mortos de Alos, Em Busca de um Lugar Comum, Meu Nome É Silêncio, entre outros, muita coisa boa, não necessariamente dependente do ambiental para ser cinema. Teve até A Onda Traz, o Vento Leva de Gabriel Mascaro, e um longa israelense que se passava nos lixões do país, e que agora não lembro o nome, mas era muito bom.
 
Perto da edição anterior, esta última me pareceu um tanto decepcionante. O curioso foi a dominação das animações. Apesar do grande prêmio Cora Coralina sair para Metamorfose, longa alemão que não pude conferir (estava entrevistando o Adirley), os brasileiros O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, Depois da Chuva, de Wesley Rodrigues, e Wind, de Robert Loebel, fizeram o limpa onde puderam.
 
Também perdi o curta de Wesley, que ano passado estivera na Mostra ABD com o lindíssimo e incrível Faroeste – Um Autêntico Western. Fica para a tradicional sessão dos premiados, a serem exibidos no Cine Cultura, então.
 
Resta, portanto, lembrar de O Menino e o Mundo (e as câmeras subaquáticas que rasgavam o gelo no documentário dinamarquês Expedição ao Fim do Mundo), que já havia estreado nacionalmente no começo do ano e só agora entra em cartaz no Cine Cultura. No FICA acabou soando como uma sessão especial, e talvez das mais bonitas daquele cinema. Dava até pra esquecer o desconforto das poltronas, porque o filme de Abreu é tocado que nem um feitiço, uma hipnose, pra olhar e não desviar.
 
Consegue ser um desses feitos, uma animação na medida para adultos e crianças, sem subestimar nenhum dos dois, e portanto não é extremamente calculada (no sentido comercial, quero dizer, embora o filme tenha, sim, algum apelo de mercado).
 
É ousada, sem falas compreensíveis, totalmente baseada no traço, nos diferentes estilos de desenho e pintura. E no uso do som, não esqueçamos. Seja pela trilha (Emicida, Naná Vasconcelos…), seja pelo som em si, que se harmoniza com a fantasia e a "realidade", com as manifestações de cultura brasileira, ou sugere o ambiente (na favela, as portas coloridas são traduzidas pelo som que delas saem).
 
Essa sessão lotou. Cerca de metade da sala saiu ao fim do filme, sendo que ainda haviam outras exibições naquela noite. Estavam ali apenas para O Menino e o Mundo. Foi, de algum modo, por uma hora e meia, uma verdadeira noite de cinema no Fica. Do lado de fora, um mundo um pouco óbvio demais.
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por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

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