A saúde do coração não começa apenas quando surgem os primeiros sintomas. Em crianças e adolescentes, conhecer o histórico familiar pode ser uma das formas mais importantes de identificar riscos cardiovasculares antes que eles se transformem em problemas cardíacos maiores.
Mesmo que a pessoa tenha hábitos saudáveis, boa alimentação e pratique atividades físicas, ela não está imune ao que o DNA pode trazer de histórico. E a maioria dessas pessoas só descobrem doenças cardíacas após o surgimento dos primeiros sintomas. O alerta é claro: se algum membro da família têm histórico de doenças cardíacas, a investigação deve começar ainda na infância.
Segundo as diretrizes do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue dos Estados Unidos (NHLBI), o histórico familiar de doença cardiovascular precoce figura como um dos principais fatores para risco em crianças e adolescentes. Já a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta que o colesterol alto de origem familiar pode se manifestar ainda na infância e aumentar significativamente o risco de infarto precoce quando não é identificado e tratado.
De acordo com a SBP, a suspeita de hipercolesterolemia familiar deve ser considerada quando há parentes com o colesterol muito elevado ou histórico de infarto e morte súbita em idade precoce. A condição é hereditária e aumenta o risco de doenças cardiovasculares ao longo da vida, especialmente quando não há diagnóstico ainda na infância. A identificação precoce permite iniciar o acompanhamento adequado e reduzir a exposição prolongada a níveis elevados de colesterol.
O problema é que muitas dessas alterações podem não apresentar sintomas. Uma criança pode parecer saudável, brincar, estudar e praticar atividades físicas normalmente e, ainda assim, apresentar um fator de risco que merece investigação. Por isso, informações sobre a saúde de pais, irmãos e até outros familiares podem ser relevantes durante as consultas pediátricas.
Essa atenção também é importante diante de sinais como desmaios sem causa aparente, palpitações, dor no peito durante atividades físicas, falta de ar desproporcional ao esforço e cansaço excessivo. Embora esses sintomas tenham diferentes causas e nem sempre estejam relacionados ao coração, não devem ser ignorados quando aparecem de forma recorrente ou em situações de esforço. A avaliação médica é fundamental para determinar quando é necessário investigar mais profundamente.
Cuidar da saúde cardiovascular na infância não significa transformar toda criança em paciente. O objetivo é justamente o contrário: identificar quem realmente apresenta maior risco e evitar que alterações silenciosas passem despercebidas. Dependendo da avaliação clínica e do histórico, o médico pode solicitar exames como eletrocardiograma, ecocardiograma, Holter ou exames laboratoriais, incluindo a análise do colesterol.
A prevenção também começa dentro de casa. Alimentação equilibrada, atividade física regular, controle do peso e sono adequado contribuem para a saúde cardiovascular desde os primeiros anos de vida. Esses hábitos são importantes para todas as crianças, mas ganham ainda mais relevância quando existe uma predisposição familiar. No caso de condições genéticas, entretanto, hábitos saudáveis não substituem o acompanhamento médico nem o tratamento indicado.
O maior desafio, portanto, é mudar a percepção de que o cardiologista deve ser procurado apenas quando existe um sintoma. Conhecer a história da própria família, informar o pediatra sobre casos de doenças cardíacas e buscar orientação quando houver fatores de risco são atitudes simples que podem fazer a diferença. A infância é o momento de construir hábitos e identificar riscos. Esperar o problema aparecer para só então agir pode significar perder uma oportunidade valiosa de proteger uma vida.
*Mirna de Sousa é cardiopediatra
