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O conselho do Baobá

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11.11.2017 - 18:09:40

São Paulo – Lá estava ela, a árvore gigante, a que guarda segredos e sabedorias, a que enfrenta as intempéries e continua crescendo, a que não se apressa a não ser para não desperdiçar os tempos da infância. Sim, ela, a árvore, gosta das crianças. Ela as vê com raízes de esperança. Ela as aguarda com sombras preciosas para o tempo do aconchego. E com elas conversa. Era um dia de sol, de sol forte, e meninas e meninos estavam ali, deitados perto da boca do gigante Baobá. Sim, porque quem sabe das
lendas e dos ditos antigos sabe que Deus criou primeiro o Baobá; depois, as outras árvores; e, por uma dessas razões que não vêm ao caso, virou o Baobá de cabeça para baixo.

As raízes veem o infinito, e a boca pode sussurrar preciosidades aos que têm ouvidos de ouvir. O Baobá começou por dizer que era bom estarem juntos. Crianças não devem viver sozinhas. Isolamentos nos levam a lugares perigosos. Sabe, a gigante árvore, que a conivência é o fio de beleza que nos liga à Luz primeira que nos gerou. Geradores de felicidade dependem dessa energia. Sozinhos nos apagamos. Sozinhos nos amedrontamos e, por vezes, desistimos.
 

As crianças ouviam atentas. Estavam juntas porque brincavam de viver. Brincadeiras tantas que desenvolviam suas inteligências e que acendiam seus sorrisos. Corriam, caíam, levantavam. Sujavam-se em terra boa. E mergulhavam em um rio de delicadeza que ficava bem ali ao lado, desfrutando parte dele, da sombra do gigante Baobá. Foi quando o gigante aproveitou o rio para dizer das águas que não paravam. Do curso necessário. Dos instantes que se renovam. Das surpresas que virão. Uma das crianças quis saber se seriam boas as surpresas.

A explicação lançou sementes em terra fértil. Algumas, sim. Outras, não. Tanto umas quanto as outras passarão como passa a

água corrente do rio. Outra criança falou da morte. A árvore comoveu-se. A pergunta havia nascido de alguma dor. Perder quem amamos é desconcertante. A árvore da vida pediu ao vento um sopro suave para que a compreensão fosse mais agradável. Somos filhos das estradas. Chegamos e partimos. Nós e todos os outros. Ninguém permanecerá. Há outras terras com outros Baobás? – insistiu o menino. Sabia a árvore que ele queria saber do pai que se foi em uma dor teimosa, de uma dessas doenças que não desgrudam enquanto não levam.

As raízes, que viam o infinito, inspiraram os ditos, e a resposta acalmou o menino. Era preciso esperar. Enquanto isso, era necessário viver. E juntos. “Nada de isolamentos” – insistia ela. “Os choros precisam ser compartilhados; as dúvidas, também”.

Naquelas sombras, eles deitavam uns ao lado dos outros na inocência linda dos inícios. “Por que não continuar assim?” – era o que dizia a grande árvore;Por que permitir agressões?”. Foi quando alguns
animais se deitaram ali. Sem brigas. Apenas para ouvir as histórias.

O dia ia passando. A lua resolveu surpreender e apareceu antes. A paisagem não era para ser desperdiçada. O som dos pássaros

completava a obra de arte. Sabia muito o Baobá, só não sabia o que acontecia depois desse dia. Futuros incertos. Crescendo, decrescem em alma. Começam a competir, a odiar, a destruir. As raízes já tentaram reposta. São milênios de perversidades. E, em algumas noites, a árvore chora para dentro. Na companhia das estrelas, conversa com o vento que traz notícias não tão boas de outros lugares. Mas quando amanhece e surgem as crianças, o sorriso do Baobá tem poderes restauradores. Quem sabe esses sejam diferentes? Quem sabe cresçam de verdade? Uma criança pergunta sobre o perdão.

A árvore explica. Para as crianças, é mais fácil compreender, principalmente quando se olha o rio que passa. Uma outra pergunta sobre os que não têm alimento. Há ainda a que quer saber das razões das bravezas. Ali, naquela Árvore da vida, as prosas têm a temperatura certa. E as dúvidas irrigam a alma de quem precisa crescer.
 

Despedem-se e partem juntos. Caminheiros de trilhas incertas, mas ao menos alimentados pela seiva da bondade. Foi quando uma coruja reparou no orvalho chorador do gigante Baobá. Um pouco de tristeza, um pouco de emoção. A vida não se cansa de ter esperanças…

*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

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por Gabriel Chalita

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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