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O conforto do lugar-comum

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11.10.2012 - 09:30:45
Goiânia – Certa vez, um rapaz com quem havia tido alguns encontros românticos, mas não ainda suficientemente íntimos, e que sumira de repente, telefonou-me, após semanas, conversando comigo como se tivéssemos nos falado ontem mesmo. Diante de meu silêncio nada cortês, gaguejou:

“É, andamos sumidos.”
 
“Não. Você sumiu.”
 
“É que tenho estado ocupado. Muito trabalho. Algumas viagens.”
 
“Não se preocupe. Esta é a regra, não a exceção.”
 
Ante a inopinada resposta, tartamudeou novamente. Mas se tinha a costumeira cara-de-pau masculina, também não lhe faltava espírito:
 
“O lugar-comum é um lugar confortável.”

Ri.
 
Ele merecia uma nova chance por isso. Não lhe dei, porém. Aliás, não lhe dei. Não que, se eu tivesse dado, ele não tivesse desaparecido e reaparecido.

Não existe uma lógica para o comportamento masculino nesses casos de sumiços e aparições. Trata-se do mais sobrenatural dos mistérios. Ou melhor, existe. E, nós, mulheres, sob as lentes distorcidas da fantasia, não precisamos ser médiuns para deduzi-la.
 

O que afinal eu esperava? Que ele fosse um tipo de super-sincero, original na expressão e no estilo, e me dissesse:
 
“Olha. Eu sumi, porque você fez doce e não fomos logo ao que interessa. Eu tenho pressa. Mulher que não dá, voa, diz a canção sertaneja. E como tem muita por aí, que anda dando à toa, se não ajoelha, não reza. Vivemos o amor nos tempos da cópula, que não termina na igreja. Veja. Eu fui ali comer algumas gostosas. Concluída a rota, volto ao começo. Você é a letra C da agenda. Não se ofenda. Alegre-se. Sua vez uma hora chega.”
 
É. O verdadeiro lobo não é tolo e não se vangloria de seu almoço para seu jantar. Nenhum homem, em sua sã consciência da lei da oferta, sacrifica a reserva amorosa de sua geladeira por uma mera questão de retórica ou de poética. O lugar-comum pode algumas vezes traduzir uma verdade, mas na maioria consiste apenas em uma mentira inofensiva para consumo doméstico.
 
Imagine se nas situações cotidianas trocássemos as mentirinhas inocentes, os farrapos das desculpas diplomáticas, os clichês, as frases destituídas de sentido, as saudações, as interjeições, os bons-dias, os como-vai, os meros ruídos, por declarações originais, cheias de verdade e de significado. A vida humana seria um inferno impossível. Talvez nem se tivesse perpetuado a espécie. Não haveria quem sabe vida em sociedade.
 
“O problema não é você, sou eu. Nesse momento, não quero me envolver.”
 
 Luis Fernando Veríssimo, em seu livro " As mentiras que os homens contam" , conta-nos muito bem que os homens mentem, ou melhor, usam repetitivos lugares-comuns para nos proteger do desconforto da verdade. Mentem, não para nós, mas por nós. Como ficaríamos mal se admitissem: “sim, você é o problema; quero namorar outra, não você.”
 
Nós também usamos lugares-comuns por puro cuidado. O que seria da autoestima de vocês, se em vez de falar que estamos com dor de cabeça, disséssemos… 
 
Imagine se, tendo perguntado a uma amiga, nosso melhor espelho, “você acha que engordei?”, ouvíssemos, em vez da elegante negativa, “sim, você parece uma baleia.”
 
E se ao perguntarmos ao vizinho que encontramos no elevador “tudo bem?”, ele nos respondesse, em vez do “bem, obrigado”, “estou péssimo; perdi o emprego; bateram no meu carro; estou endividado; você tem aí algum para um empréstimo?” Seria considerado um típica persona chata non grata.
Grande parte do que dizemos no dia-a-dia nada mais é do que uma forma de manter o canal, sem importar a mensagem, a chamada função fática da linguagem: o alô, para dizer que alguém está na linha. Grande parte da comunicação humana é pura sociabilidade e desinteresse cínico.Você deseja sinceramente que seja bom o meu dia? Por acaso tem verdadeiro prazer ao conhecer alguém que nunca voltará a ver mais gordo? Quer mesmo saber a resposta para o que pergunta?
 
Não advogo, porém, de jeito nenhum o fim do lugar-comum, embora em muitas situações tenha preguiça de adotá-lo e ganhe com isso considerável e justa fama de antipática.   Limito bastante meu repertório de frases fáticas, faltando-me aquela amabilidade afetada que alcunham de simpatia. Emprego com parcimônia os vocativos amáveis, muito comuns às mulheres (querida, flor, meu bem). Não sou pródiga em adjetivos.
 
Por outro lado, em outras situações atrevo-me a dizer o que, por convenção e bom-senso não se diz, de tal forma que pela minha boca entram mosquitos, ao encalço dos quais se fazem seguir sapos engolidos e depois vomitados, num vicioso círculo suicida, que já me fez perder amores, empregos e amizades. Em vez de responder monossilábica ao que foi perguntado, e cuja resposta genuína não quer ser ouvida, falo demais e cumprimento o cavalo.
 
O prêmio por tentar  dar um invólucro original aos seus honestos pensamentos é ser chamada de pessoa autêntica, o que frequentemente quer dizer desagradável.  Todos admiram sua originalidade, mas poucos querem sua amizade sincera com a sua franqueza exagerada. Portanto, nem oito, nem oitenta. Nem é preciso bancar o anti-social original, pois o sem lugar-comum é um sem lugar no mundo, nem tampouco agir como um papagaio popular, a boca repleta de chavões gentis e o coração mais falso do que uma nota de quatro.  
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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