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Rodolfo Takahashi (Foto: divulgação)

O cerco aos juros abusivos

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03.09.2026 - 12:25:53

As investigações abertas pelo governo contra instituições financeiras suspeitas de cobrar juros abusivos recolocam em evidência um problema histórico do mercado de crédito brasileiro. Mais do que discutir casos específicos, o episódio expõe uma questão estrutural: por que o consumidor ainda encontra tanta dificuldade para compreender, com clareza, quanto realmente está pagando por um empréstimo?

Durante décadas, o debate sobre crédito esteve concentrado quase exclusivamente na taxa de juros. Naturalmente, ela continua sendo um dos principais fatores na decisão de contratação. No entanto, limitar a discussão apenas ao percentual cobrado significa ignorar um problema igualmente relevante: a assimetria de informação entre quem concede o crédito e quem o contrata.

Na prática, muitos consumidores ainda escolhem uma operação olhando apenas o valor da parcela mensal. Poucos conseguem comparar corretamente o Custo Efetivo Total (CET), identificar tarifas embutidas, seguros agregados ou compreender como pequenas diferenças nas condições contratuais podem representar milhares de reais ao longo de um financiamento.

Segundo a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), o endividamento das famílias alcançou 81,6%. Quando oito em cada dez famílias convivem com algum tipo de dívida, discutir transparência deixa de ser apenas um tema regulatório e passa a ser uma agenda de proteção ao consumidor. Em um mercado dessa dimensão, qualquer assimetria de informação pode ampliar o risco de decisões financeiras equivocadas e favorecer práticas abusivas.

O combate aos juros abusivos, portanto, não depende apenas da punição de instituições que descumprem a legislação. Exige a construção de um mercado em que o consumidor consiga entender, comparar e decidir de forma consciente. Em outras palavras, o crédito precisa deixar de ser um produto de difícil compreensão para se tornar um serviço verdadeiramente transparente.

Nesse processo, a tecnologia pode ser uma aliada poderosa, mas não é, por si só, uma garantia de justiça. Plataformas digitais podem simplificar contratos, tornar informações mais acessíveis e permitir comparações mais precisas entre ofertas. Por outro lado, também podem esconder condições relevantes em interfaces complexas e acelerar contratações sem assegurar que o consumidor compreenda plenamente o que está assinando.

O diferencial está em como a tecnologia é utilizada. Quando empregada para ampliar a compreensão do consumidor, ela permite a visualização clara do Custo Efetivo Total, a comparação entre diferentes ofertas e a rastreabilidade de toda a contratação. Quando essas informações são apresentadas de forma simples e objetiva, desaparece um dos principais fatores que historicamente favorecem relações desequilibradas: a vantagem informacional das instituições financeiras.

Mas a tecnologia precisa caminhar ao lado da regulação. Experiências recentes mostram que inovação sem supervisão pode apenas digitalizar práticas antigas. Da mesma forma, uma regulação eficiente não deve se limitar a estabelecer punições para irregularidades, mas deve criar incentivos para que as empresas disputem clientes oferecendo melhores condições, contratos mais simples e processos mais transparentes.

Esse movimento já começa a ganhar força em modalidades de crédito que contam com regras mais objetivas para formação das taxas e maior padronização das informações apresentadas ao consumidor. Nesses modelos, o cliente consegue comparar ofertas com mais facilidade e entender exatamente quais serão os custos da operação antes de assumir um compromisso financeiro.

Talvez seja o maior avanço do mercado nos últimos anos, substituir a lógica da surpresa pela lógica da previsibilidade. Naturalmente, nenhuma tecnologia elimina completamente o risco de práticas abusivas. Sempre haverá espaço para fiscalização, aperfeiçoamento regulatório e responsabilização de empresas que desrespeitem as regras. Contudo, um ambiente em que todas as condições da operação estejam explícitas reduz significativamente a possibilidade de decisões tomadas sem informação adequada.

O conceito de crédito justo passa justamente por esse equilíbrio. Não se trata de defender juros artificialmente baixos ou restringir a atividade das instituições financeiras. Trata-se de garantir que preço, risco e informação estejam alinhados, permitindo que o consumidor saiba exatamente o que está contratando.

Em um país onde o crédito exerce papel central no consumo, no empreendedorismo e na reorganização financeira das famílias, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória. Ela passa a ser um requisito para o bom funcionamento do próprio mercado.

As investigações recentes mostram que o Brasil está elevando o nível de exigência sobre as práticas do setor financeiro. Esse é um movimento positivo. Afinal, um mercado saudável não é aquele em que o crédito cresce a qualquer custo, mas aquele em que inovação, concorrência e regras claras caminham juntas para fortalecer a confiança entre instituições e consumidores.

As investigações recentes não representam apenas uma resposta a possíveis irregularidades. Elas sinalizam uma mudança de expectativa sobre o funcionamento do mercado de crédito. Entretanto, o principal ativo de uma operação de crédito não é a taxa anunciada, é a confiança de que o consumidor conhece todas as condições do contrato antes de dizer “sim”. É essa confiança que diferencia um mercado moderno de um mercado vulnerável a práticas predatórias. E, no mercado financeiro, a confiança continua sendo o ativo mais valioso.

*Rodolfo Takahashi é CEO da Gooroo Crédito

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por Rodolfo Takahashi

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