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O carro e a genitália

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03.09.2012 - 09:15:33

Goiânia – Eu tenho uma teoria: quanto menor a genitália de um homem e pior o desempenho dele na cama, maior o tamanho do carro do sujeito, da falta de educação dele no trânsito e mais alto o volume do som automotivo. A comprovação é empírica, fruto de anos de observação, e da certeza de que Freud sabe muito mais das coisas que eu.

Quanto mais frustrações sexuais o cidadão tem, mais ele desconta nas ruas. Compra o maior carro que vê pela frente, instala nele o som automotivo mais potente que encontra e sai por aí fazendo barbaridades. Ignora as leis de trânsito e tenta aparecer a qualquer custo. Quer compensar o que não conseguiu na horizontal. 
 
Veja bem, eu não estou me referindo aos homens que têm paixão por carros, aqueles que às vezes estão animados e resolvem aumentar o volume do som ou aos que, algumas vezes, cometem uma infração de trânsito. Falo de quem deixa de comer para comprar uma nave espacial barulhenta e se julga além do bem e do mal por isso.
 
Semana passada dei de cara com uma criatura dessas. O cidadão tinha uma caminhonete tão grande (como boa mulher que sou, não sei o nome nem a marca do negócio), que ocuparia três vagas de carros. E o volume do som do veículo era tão alto, que fazia os imóveis da rua todos tremerem. Um horror de cafonice.
 
Encontrei uma vaga e dei seta para estacionar. O bonitão ignorou minha sinalização e pegou o lugar na maior cara de pau. Para completar, ainda deu aquela acelerada e um sorrisinho sacana, à la “I’m the best and fuck the rest”. Vaga tomada, vejo um homem franzino descer da caminhonete, se sentindo o próprio Batman.
 
O bonzão sentou-se à mesa no bar e olhou ao redor, para ver se alguém tinha notado o quanto o carro dele era excepcional. Percebendo que a tática não surtiu efeito, começou a acionar o alarme de 15 em 15 minutos, para obrigar quem estivesse perto a saber que a bendita caminhonete era dele.
 
Dois dias depois, encontro outra criatura dessas no shopping. De novo, uma caminhonete que mais parecia uma nave espacial. Outra vez, aquele som automotivo ensurdecedor. O cidadão não entendeu que estava num local de grande aglomeração e quase atropelou uma família, porque resolveu mostrar “a potência do motor”.  
 
Caras desse tipo a gente encontra aos montes, todos os dias, nas ruas de Goiânia. Eles fazem do carrão uma prótese do corpo. Como a instrumentação natural não funciona na hora do vamos ver, eles arranjam um apêndice grande, potente e chamativo para se autoafirmar. Freud explica. E eu concordo totalmente.
 
A questão é que essa é uma estratégia burra. Ok, há muitas piriguetes que adoram um carrão. Acontece que existe uma coisa que qualquer mulher adora muito mais que qualquer caminhonete gigante, cartão de crédito sem limites, joias da H.Stern ou viagens para Paris: é a tal da pegada boa.
 
Nunca tive estômago para sair com esses tipos, mas uma amiga minha tinha. Não era raro voltar decepcionada para casa, porque o beijo do cara era oco, ele gozava em 30 segundos e a deixava falando sozinha, ou, o que é pior, nem conseguia chegar à ereção. Um fiasco sexual total e absoluto.
 
Então, meu amigo, se você não sabe fazer o lêlêlê, se Deus não lhe deu a graça de nascer com uma pegada fenomenal, o melhor a fazer é procurar um sexólogo. É mais barato que a prestação da sua caminhonete e certamente vai fazer você e aqueles que convivem contigo no trânsito bem mais felizes. 
 
Não se engane: a gente se acostuma com tudo nessa vida, menos com sexo de má qualidade. O que você vai fazer para impressionar sua mulher no motel? Vai levar um vídeo da caminhonete e colocar no DVD, pra ver se ela fica excitada? Vai gravar o ronco do motor e colocar no ouvidinho dela na hora H?
É aquela história, o que importa não é o tamanho da varinha, mas a mágica que ela faz. Se você não sabe nenhum truque, já passou da hora de aprender. Senão, meu caro, você corre o sério risco de acabar surdo, cheio de multas e com uma piriguete louquinha para lhe ver pelas costas e arranjar alguém que dê um bom trato nela.
 
Sei que é duro ouvir isso, mas preciso lhe dizer que tem muito cara que anda à pé, de ônibus ou de Chevette que está se dando bem melhor que você. Em vez de se preocuparem com a potência do carro, eles estão preocupados com a potência de outra coisa. Afinal, quem você quer fazer roncar: o motor do possante ou a mulher que transa com você? 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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