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O capitalismo selvagem da China

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20.08.2012 - 18:12:14

Zurique – Meu coração esquerdista está traumatizado. Passei algumas semanas na China e não sei se gostei do que vi. Procurei marcas de comunismo ou mesmo de um vago socialismo, e não achei. O comunismo de Mao virou um capitalismo selvagem.

Em cada esquina um Mac Donalds ou um KFC – Kentucky Fried Chicken. Em frente aos monumentos, mendigos estendem as mãos, principalmente idosos ou deficientes, mulheres carregam crianças doentes no colo pedindo ajuda, famílias dormem de madrugada ao relento em frente a boutiques de luxo.

Prada, Chanel, Armani, Miu Miu, Gap disputam cada esquina das grandes cidades. O comunismo virou folclore. Nas barraquinhas de rua, nos mercados e velhos bazares, vende-se o Livro Vermelho de Mao em várias líguas – inglês, francês, alemão, só para turistas. Só para turista ver.

Há dois anos, quando estive alguns dias em Moscou, tive a mesma sensação. Um consumo desenfreado,  pouca estrutura social e muita insegurança marcavam o dia-a-dia. Ficamos em um velho hotel soviético, bem ao lado do Kremlin, palco de vários acontecimentos históricos.

Queria ficar entre os russos e sentir, imaginar talvez, a presença de Tolstoi, Mayakovsky, Eisenstein. Mas nada disso. Muito frio e muita tensão no ar. Apenas dois dias depois de partirmos, uma bomba explode e mata 38 pessoas na estação de metrô Lubyanka, exatamente ao lado do hotel, onde havíamos estado várias vezes.

Poderia falar agora de Pussy Riot, mas esse não é o assunto dessa crônica, e sim o fim de algumas utopias. A condenação das jovens -belas e corajosas russas – faz também parte desse fim de ilusões, no entanto,  prefiro falar da banalidade das pessoas normais, da nova classe média chinesa sem plano de saúde ou dos muitos pobres, principalmente nas zonas rurais, sem assistência social ou aposentadoria. Nunca liguei para partidos políticos, etiquetas ou panfletos. 

Na minha opinião, o ser humano deve sempre vir em primeiro lugar. Não sou capitalista, comunista ou socialista, talvez quem sabe humanista. Mas isso é apenas mais um rótulo. Não faz a mínima diferença. Por isso vou repetir o que o grande jornalista Tiziano Terzani, que morou 25 anos na Ásia, disse muito antes de mim. Apesar de suas muitas belezas e outras grandes qualidades, a China me decepcionou.

Existe sistema de Saude Pública? Não. Os hospitais, muito bem equipados e pertencentes ao Estado, são caríssimos. Ninguém tem condição de pagar uma operação do próprio bolso. Por esse motivo, a medicina chinesa tradicional, com suas ervas, chás e acupuntura, é tão popular.

Todos concentram seus esforços em viver de forma saudável para nunca terem de ir a um hospital. Aposentadoria? Também um luxo que deve ser pago em longas e caras prestações. Às vezes, sem a garantia de recebimento total da renda, já que o todo-poderoso e onipresente Partido Comunista pode mudar as regras do jogo a qualquer momento.

A nova classe média, composta principalmente de jovens famílias, tem medo de investir em uma aposentadoria que talvez nunca recebam. O pagamento também não é obrigatório, por isso muitos preferem investir em ações da bolsa de valores ou em “Real Estate”, como nos explicam, comprando apartamentos em condomínios que surgem do dia pra noite, feito “bambus depois da chuva”.

A especulação imobiliárias é enorme. Bairros inteiros de casas antigas, os hutongs,  são destruídos para dar lugar a prédios de mais de cem andares, comerciais ou residenciais.

Nos aeroportos extramamente modernos, Gisele Bündchen anuncia sandálias havaianas – as legítimas. Cartier, HAG,  Omega, Choppard vendem relógios de luxo. Bolsas caras de couro e óculos Chanel e Rayban,  legítimos, fazem também parte da lista de compra de todos os jovens.

As cópias baratas são feitas apenas para exportação. I Ching, Tai-Chi, caligrafia, poetas da dinastia Tang são coisas do passado, que a nova geração desconhece. Budismo é considerado pela maioria apenas como uma velha crença, cheia de supertições. Hoje, quem procura cultura e filosofia chinesa clássica, tem que sair da China.

Nas cidades, filas de carros entompem as ruas, enormes viadutos são construídos,  avenidas de seis, oito, doze pistas são abertas onde antes havia apenas alamedas de árvores e casas antigas. Prédios, prédios e mais prédios disputam o espaço das nuvens e arranham o céu cinzento.

Gigantescas torres escondem o horizonte. Nuvens de poeira levantam-se entre os milhares de carros, e quem ainda insiste em andar de bicicleta, precisa usar máscara.

Meus olhos não querem acreditar e procuram na luz embaçada de um céu baixo, embranquiçado, num horizonte pálido, através de uma cortina de pó, resquícios de uma utopia que parece ter sumido na poeira.

Quando pergunto sobre a questão da liberdade – tão cara ao Ocidente – me respondem: “Quem tem bastante dinheiro, pode tudo.”

Cadê o comunismo que pus aqui? O capitalismo comeu. Selvageria pura.

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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