Logo
(Foto: Arquivo pessoal)

O Brasil pode ser um país de leitores

WhatsAppFacebookLinkedInX
31.07.2026 - 15:33:46

Toda vez que aparece uma pesquisa revelando alguma tendência de queda nos índices de leitura, o diagnóstico de que o brasileiro não aprecia ler ressurge como um fantasma. Repetida com frequência, a apressada ideia foi assumindo ares de verdade evidente. Mas não é. Aliás, está muito longe de ser. O problema no Brasil nunca foi, de fato, falta de interesse pela leitura.

A questão pode ser mais bem compreendida quando pensamos em como o país continua a oferecer oportunidades bastante desiguais para que alguém se torne leitor. Nenhum leitor nasce pronto, é preciso reconhecer isso. A leitura é uma atividade que vai se construindo ao longo da vida, por meio da convivência familiar, da escola, das bibliotecas, do acesso aos livros, do tempo disponível e da mediação.

No Brasil, infelizmente, esses recursos permanecem concentrados e são quase exclusivos de determinadas classes socioeconômicas. Com isso, a leitura por aqui muitas vezes constitui um verdadeiro privilégio antes de ser um direito. Historicamente, portanto, o país foi transformando bens culturais em marcas de distinção social.

Reconhecer essa desigualdade pode ajudar a explicar o paradoxo de que, em um tempo de tantos livros, tantos textos circulando e tantas possibilidades de acesso à informação, milhões de brasileiros permanecem distantes da literatura.

Embora seja comum responsabilizar as redes sociais, os celulares ou as novas tecnologias pela crise da leitura, é preciso reconhecer que o problema não foi criado a partir da sua incontornável presença em nossas vidas.

Mesmo que os nossos modos de atenção tenham sido modificados, as facilitações trazidas pelas inovações tecnológicas só tornaram ainda mais visível a desigualdade antiga, agora traduzida na imagem objetiva de um país que universalizou o consumo de telas antes de universalizar o acesso à formação cultural.

Se o Brasil deseja mesmo ampliar seu número de leitores, precisa abandonar o discurso moralizante segundo o qual bastaria somente estimular o gosto pelos livros. Gostar de ler não é um dom, nem mesmo uma virtude individual.

A massificação da leitura só poderá resultar de oportunidades concretas de formação, do investimento nas escolas públicas de base, do fortalecimento das redes de bibliotecas, da democratização do acesso ao livro e do reconhecimento da literatura como um direito cultural.

Essas talvez sejam medidas menos espetaculares do que os milhares de reais investidos em campanhas de incentivo à leitura. Porém, muito mais eficazes para alterar a pergunta fundamental.

Afinal, ao invés de procurar saber se não gostamos mesmo de ler, devemos nos perguntar por que o acesso à leitura no Brasil insiste em permanecer tão desigual.

*Vinícius Ferreira é professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), doutor em Estudos Literários e autor do livro “Não existe acaso no inferno”

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Vinícius Ferreira

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]