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O amor nos tempos da cólera

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05.10.2012 - 10:52:29
Goiânia – Meio dia, o sol a pino, o celular toca e é o amor pedindo juras, calculando os juros do silêncio e da distância. Quero amá-lo, ao ser amado, e quero matá-lo, ao motorista que não avança adiante. É o amor engarrafado nos tempos do trânsito. 
 
Como certa vez refletiu uma amiga, que recebia ligações do namorado ao meio dia, quando estava fera enjaulada no congestionamento, atrasada para as centenas de compromissos, para levar a filha à escola, a mãe ao médico; atada pela corda do relógio de ponto; desnorteada por ter que sortear as contas que seriam pagas: como pode o amor sobreviver a esse causticante sol dos trópicos, às mil atividades de uma mulher de agora? Como pode o amor ser possível nesses tempos de cólera?
 
Ela faltava sucessivamente aos encontros. Ele se cansou dela por isso. A gota que fez entornar o balde foi algo bem banal e semelhante ao que narrou Ledusha Spinardi em seu poeminha Deslavada: 
 
“Querido Antônio
Não pude ir
Pneu furou
Não sei trocar”
 
Ele achou que a justificativa não era plausível, que se tratava dos farrapos úmidos de mais uma desculpa. Não compreendia que essa mulher tão maravilhosa e versátil que se vê por aí na TV e nas revistas nem sempre domina todos os papeis e artes, nem sempre dá conta de operar todas as maravilhas, e às vezes tem ataques de choro e de pânico quando simplesmente quebra as unhas.
 
 Tenho colecionado outras tantas histórias de amor que acabam assim de forma prosaica, por motivos aparentemente fúteis:
 
Uma passarinha, por exemplo, me contou
que perdeu o ser amado,
porque, chegando ao seu ninho de amor,
ele disse que estava com saudades,
ela respondeu que estava com calor.
 
Mulheres, não sabemos mais ser heroínas de romance. Andamos ocupadas, preocupadas, nervosas, belicosas, esfarinhadas, arredias; as lanças e os escudos a postos, os dentes rangentes de pressa e de ira. Mulheres de Almodóvar, no limite, beirando o ataque de nervos, nos abismando na loucura, abrasadas e suarentas não por causa do calor do amor, mas graças aos buracos na camada de ozônio e às nossas responsabilidades de homem.
 
Para sermos heroínas, precisamos de horas de ócio, de tempo livre para decidir o que vestiremos, como nos pintaremos para os nossos encontros. Precisamos de tempo para cultivar o desejo na fantasia, para resgatar no romantismo dos contos de fada a energia para os contos de foda. Precisamos de tempo para acumular água e açúcar. Não temos.
 
Na falta de fadas madrinhas e príncipes, estamos ocupadas demais trabalhando para pagar as prestações de nossos mil sapatos de centopeia e dos seguros caríssimos dos carros, que podem desaparecer nas ruas como abóboras mágicas. Faltam-nos horas revigorantes de sono e de espera em leitos cristalinos.
 
E os homens também já não querem ser os heróis, nem de epopeias, nem dos romances de cavalaria, tampouco do realismo fantástico. Descobriram há algum tempo que os custos do amor são altíssimos e que são as mais contraditórias as expectativas femininas. Vejam-se os casos das pensões alimentícias. Não podem sair por aí amando impunemente, marinheiros deixando a cada porto suas sementes, pois há um laboratório de DNA a cada esquina. Estão cansados também os pobres. Estão cansados de suar para arranjar uns cobres, que logo lhes são cobrados na justiça. E para piorar, já não sabem onde diabos enfiar a alma sensível de menina que lhe mandaram cultivar.
 
Eis como fica, portanto, o amor nos tempos de guerra, não talvez das grandes guerras épicas, mas das batalhas cotidianas, das lutas selvagens e encolerizantes pelo pão de cada dia. Ele já não persevera e perdura como o de Florentino Ariza por Fermina Daza (O Amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez). Não aceita esperar, para consumar-se, cinquenta anos. Não dura para além de uma dúzia de brigas. O amor é para ontem, impaciente, líquido, água morro abaixo. E debaixo do sol, sob a falta de tempo e o excesso de contratempos, se enfurece e evapora… 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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