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Não quero ser mais um

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09.07.2012 - 09:26:23
Prezado secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás,
 
Sei que o senhor é um homem muito ocupado, mas peço sua atenção para lhe falar de duas tristes coincidências. Gostaria de lhe contar a história de dois homens do Direito goianiense, jovens, honestos, que foram assassinados de forma brutal e inexplicável por policiais militares e deixaram órfãos dois bebês. Um deles é Pedro Henrique de Queiroz, morto em setembro de 2008. O bacharel em Direito, de 22 anos, foi executado quando voltava do batizado do filho, de apenas sete meses de idade. Ao passar de carro por um PM, este achou que ele havia feito uma manobra “brusca demais” e deu-lhe um tiro na nuca.   
 
O outro é o advogado Davi Sebba Ramalho, de 38 anos, morto na última quinta-feira. Ele estava no estacionamento de um supermercado, comprando mantimentos para passar a noite na maternidade, pois sua mulher daria à luz o primeiro filho do casal, quando foi abordado por dois PMs à paisana e executado. A alegação dos policiais para matar Davi era de que ele seria traficante. Entretanto, nenhuma substância entorpecente foi encontrada no carro da vítima. Disseram também que ele estava armado, mas o advogado não sabia sequer atirar. Estranhamente, depois do assassinato, os policiais apresentaram um revólver – cuja perícia mostrou que não fez nenhum disparo – e, dias depois, um pacote de maconha, que ninguém sabe de onde veio. 
 
Não é a primeira vez que policiais militares matam ou agridem cidadãos de bem por motivos fúteis e tentam desqualificar as vítimas para justificar seus erros, secretário. Caso o senhor não aja rapidamente, tampouco será a última. Não preciso nem citar estatísticas oficiais de civis violentados por PMs por “engano”, porque sei de dezenas de casos. O filho da minha diarista foi assassinado por policiais militares porque era negro, pobre e tinha “cara de bandido”. A filha do pedreiro que reformou minha casa foi estuprada por homens dessa corporação porque voltava de uma festa à noite, usando roupa curta, e tinha “cara de prostituta”. Meu amigo jornalista teve seu carro seguido por PMs e foi abordado de forma truculenta porque tinha “cara de doidão”.
 
Como o senhor vê, estamos à mercê desses homens, que nos rotulam como bem querem e decidem se merecemos ou não continuar vivendo. Nossa integridade física depende dos estereótipos, dos preconceitos e, sobretudo, dos humores dessa gente. Temos de rezar para que estejam num bom dia. Certamente o senhor alegará que não é o culpado por esse problema, pois ele vem de longa data. E está certo. Policiais militares que agem de forma animalesca estão à solta há muito tempo. Acontece que a situação piorou demais e, para seu azar, nesse momento, quem tem o poder de decisão para resolver a questão é o senhor. 
 
Não vou cair no chavão de “clamar por justiça”, porque acho que isso é o mínimo que se espera do seu órgão. Descobrir quem são esses policiais e extirpá-los da corporação, solicitando ao Judiciário que aplique a pena adequada, é apenas fazer o dever de casa, não é mais que obrigação, secretário. O que peço mesmo é que o senhor passe urgentemente um pente fino na Polícia Militar. Há muitos homens da corporação honestos, comprometidos com seu trabalho e que honram a farda que vestem. A esses, que se valorize com salários dignos e cargos compatíveis com sua dedicação e competência.
 
No entanto, sei também que há muitos policiais com transtornos psicológicos, que estão à beira de um colapso, num nível de estresse absurdo. Pois que esses sejam afastados temporariamente do trabalho, enquanto são submetidos a tratamentos específicos e recobram o equilíbrio emocional necessário ao exercício da função. Há, ainda, os policiais sociopatas. Sim, secretário, sociopatas, gente que não gosta de gente, que não sabe lidar com o outro, que acabaria com a humanidade inteira por muito pouco. Identificá-los é questão primordial, porque para esses não há tratamento. A única solução é expulsá-los da corporação. 
 
Talvez o senhor não disponha de peritos suficientes para fazer essa triagem. Pois que contrate mais gente, que terceirize o trabalho, que convoque seus assessores mais eficientes para ajudá-lo a traçar um plano de ação. Fosse eu, no seu lugar, faria isso hoje mesmo, nessa segunda que começa com gosto de sangue e cheiro de morte. Sei que o senhor tem várias atribuições, mas nada pode ser mais importante que impedir que sociopatas e desequilibrados tenham poder de detenção, portem armas e tornem-se assassinos em potencial. Nada é mais premente que proteger gente honesta e indefesa da ação de matadores fardados. 
 
Apelo para sua inteligência, seu senso de humanidade e, principalmente, para seu instinto de sobrevivência. Como ambos sabemos, um indivíduo não é secretário, ele está secretário. Isso significa que, quando sair do cargo, seu rosto e nome deixarão de ser símbolos máximos de poder na polícia e o senhor voltará a ser um cidadão comum. Meu desejo é que, nesse dia, o senhor possa retornar à sua casa tranquilo, sem medo de ser abordado por um PM insano, que pode lhe dar um tiro no peito por bobagem. Espero que o senhor não fique com a espinha gelada a cada vez que passar por um policial como hoje, nós, goianienses honestos e trabalhadores, ficamos.
 
Conheço gente que, por causa desses PMs, quer comprar carro blindado e colete à prova de balas, mas eu me recuso a fazer isso, secretário. Primeiro porque não tenho dinheiro; segundo porque, ainda que tivesse, não o faria, pois já pago impostos altíssimos; terceiro porque quem precisa ter medo da polícia são os bandidos, não eu. Talvez amanhã o senhor nem se lembre dessas palavras. Mas os parentes dessas vítimas e os goianienses fartos de tanta violência e despreparo vão se lembrar. O slogan do movimento que a família de Pedro Henrique criou para não deixar que sua morte caia no esquecimento resume bem o que sentimos: “Não quero ser mais um”. 
 
Cordialmente,
Fabrícia Hamu
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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