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Não podemos dizer que Gal não é ousada

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04.06.2014 - 07:21:15

Antes de começar a falar sobre o show de Gal Costa no último sábado (31/5), na Cidade de Goiás, durante o 16º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), preciso contextualizar você, ocasional leitor, de minha visão de mundo. 

 

Veja bem, não tenho vergonha de assumir que sou um cara conservador. Tenho 35 anos e gosto mais de Creedence Clearwater Revival do que Kraftwerk. Prefiro Black Crowes do que Radiohead. Supergrass me diverte mais que Daft Punk. 

 

Carlos Alberto Parreira goza do mais alto prestígio no meu mundo maluco. Falam que ele é retranqueiro. Dizem que ele gosta que o time jogue feio. Não me importa. Ele foi campeão em 1994 com um time feito para não tomar gol e com dois atacantes expcionais (Romário e Bebeto) botando a bola para dentro de tudo quanto é jeito lá na frente. Ele mostrou que era possível o Brasil novamente ganhar uma Copa do Mundo – eu já tinha convicção de que nunca mais veria a amarelinha no topo do mundo e que 1970 seria nosso último título.

 

A ousadia tem seu preço. O jogador ousado tenta aquele chute improvável, aquele drible inesquecível, aquela jogada que entra para a história. Se ele erra, fica muito feio. Ele pode chutar a bola para fora do estádio, pode ser desarmado pelo defensor de forma constrangedora, pode errar o lance e armar o contra-ataque para o adversário. Mas se acerta, vira mito. É uma situação de extremos. Não é meu perfil. Prefiro a vitória simples por 1 a 0 do que correr o risco. Por isso minha admiração pelo Parreira.

 

Ficou claro que não sou muito das novidades, certo? Pois então, vamos seguir adiante com o show da Gal Costa. A audição do disco Recanto não é tão impactante quanto o show. Ali fica claro que a intenção real é tentar algo novo, dar um passo adiante em seu status artístico.

 

É impossível não admirar essa ousadia. Gal poderia fazer um show de diva: banda completa, piano, orquestra e o escambau, cantando só as músicas de sua carreira que já fizeram sucesso. Lotaria casas e casas Brasil afora. Seria o caminho confortável. Ela encheria (mais) os bolsos e arrancaria aplausos do Brasil inteiro. Incluso o meu. Como eu disse, não sou muito afeito a invencionices. 

 

Mas um artista de verdade nunca escolhe o caminho mais fácil. Quanto mais tortuoso, quanto mais desafiador, mais gratificante é. Pois Gal optou por pegar o trajeto mais árduo nessa turnê. Abre o show com um lado B do álbum Índia de 1973, a música Da Menor Importância. Sentada. Uma batida eletrônica estranha. Tudo torto. Emenda com duas músicas do último trabalho que o público ouve com respeito, mas sem empolgação.

 

Quando era para o show engrenar e todo mundo cantar junto o refrão apoteótico de Divino, Maravilhoso, a esquisitice da versão não deixou que a empolgação batesse. Isso só foi acontecer na canção seguinte, Folhetim, de Chico Buarque que ganhou a Praça de Eventos de Goiânia Velha… Ops, Goiás Velho.

 

Sobre as gafes no palco, as más línguas dizem que Gal estava meio de fogo naquela noite de sábado. As evidências seriam ela ter errado o nome da cidade; ver uma única estrela do palco e esquecer que os holofotes do palco em sua cara a cegam e o céu, na verdade, estava todo estrelado; falar de disco voador… Tudo bobagem. Na boa, azar de quem não estava bêbado àquela hora do sábado do Fica. Gal, tenho certeza que eu estava mais bêbado que você e isso não incomodou nada. #somostodosbêbados

 

A impressão que eu tive é que Gal jogava uma música para a plateia e três no trabalho que ela acredita. Exceção na sequência Baby (no violão, destacando a beleza da letra), Vapor Barato (ápice do show, com um solo de guitarra inspirado) e Um Dia de Domingo (com o momento fanfarrão de Gal falsear a parte de Tim Maia).

 

Saí do show em direção à Trapiche com uma sensação esquisita: sabia que tinha visto um show de uma artista com A maiúsculo, que não tem medo do risco. Mas também tinha claro comigo que aquele chute não tinha sido de um gol de placa, mas sim na arquibancada. Mas quem não chuta, não marca. Por isso, a tentativa de Gal era válida. Enquanto minha cabeça fevilhava, uma força estranha me puxava para cima na ladeira rumo à pizzaria.

 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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