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Nada mais nobre que o medo

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31.08.2012 - 11:26:11


Não sei por que cargas d'água, acordei com a música Medo dos Titãs na cabeça. Dando a voltinha matinal com meu cachorro pelo quarteirão de casa, os versos dessa pancada do álbum Õ Blésq Blom, de 1989, ecoavam nos vãos existentes do meu crânio: “Precisa perder o medo da perda da consciência”. Comecei a refletir sobre o medo e sobre meus medos. Dos medos que já tive, dos medos que tenho e dos medos que irão aparecer ao longo do resto da minha vida. Percebi o quão subestimadas são as virtudes do medo. Na perspectiva darwinista, não há nada mais nobre que o medo.

Se não fosse o medo, provavelmente nós, humanos, não seríamos hegemônicos nesse mundão de meu Deus. O medo de ser pego pelo mamute nos fez andar em bandos e desenvolver armas. O medo da fome nos fez comer de tudo. O medo dos inimigos fez nos jogarmos ao mar sem saber o que tinha do outro lado. O medo de perder a partida faz com que os jogadores deem o sangue em campo. O medo faz você respeitar e pensar com mais calma. Até o medo de Deus faz com que muita gente se esforce para ser alguém melhor.

O primeiro medo que tive foi do lobisomem da novela Roque Santeiro. Pelo menos esse é o primeiro que me lembro. Bastava que o Zé Ramalho começasse com seus Mistérios da Meia-noite para eu perder o chão. Me aninhava entre meus pais e cobria a cabeça para não ver as cenas, mas não saía da sala de jeito algum. O medo lhe atrai de forma irresistível.

O medo do sobrenatural me incomodou por anos depois disso. Eu me impressionava com tudo quanto é tipo de história que envolvesse monstro, fantasma, vampiro ou seja lá o que fosse. E pensar que hoje sou completamente insensível às questões metafísicas…

A vida vai passando, você vai mudando e os medos adquirindo outras nuances. O medo do lobisomem vira o medo da violência urbana. O medo da alma penada vira o medo de perder o emprego e não conseguir mais pagar as contas. O medo do vampiro vira o medo de sofrer um acidente. A mística perde espaço para o pragmatismo cruel do cotidiano. Fico aqui só na curiosidade de saber quais serão os medos que me incomodarão na velhice. Provavelmente terão relação com o atendimento geral da saúde no Brasil e aquele que talvez seja nosso maior temor: o medo da morte. Mas basta ter calma que enfrentaremos esses medos na hora certa.

Tem horas que ter medo lhe salva de enrascadas. Tem horas que ter medo é um belo pé no saco. E o medo do outro sempre é frescura para quem não o sente. Por exemplo, quando vejo mulher dando pitizinho com medo de baratas não tenho pudor em sentenciar aquele ato como a mais alta frescura. Elas provavelmente dirão o mesmo quando me ouvirem dizer que tenho medo de que o Goiás jogue a terceira divisão como o Vila Nova. No dos outros sempre é refresco.

Acho que deveríamos, até por uma questão de justiça, elevar o medo ao panteão dos nobres sentimentos. Subjugá-lo é um grande equívoco. Até mesmo o amor precisa do medo para se realizar. Afinal, quem não tem medo de perder que se ama? 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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