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Muito Menos!

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02.01.2013 - 16:00:13

É inevitável. Final de ano é época de fazer balanço, repensar, desejar. Janeiro é o mês das promessas e planos. Mesmo se a conta do banco desce a níveis catastróficos, todo janeiro é um recomeço.  E não quero, nem pretendo ficar de fora, nadar contra a corrente.

Inspirada na mensagem de uma amiga, desejo a todos nós apenas uma coisa – menos!  Não de tudo um pouco, mas de tudo um pouco menos.  Menos trânsito, menos pressa, menos informação, menos barulho, menos violência, menos email, menos consumo, menos comunicação, menos excesso, enfim.

E se virarmos a outra face da moeda, poderia desejar também algo mais, mais tempo, mais silêncio, mais tranquilidade e assim por diante. Mas não quero fazer isso, pois o importante é a idéia de “menos”, da subtração, da abstração dos desejos. Na maioria das vezes, compulsivos, impensados, superficiais. Impessoais, na medida em que inspirados em anúncios, outdoors, propagandas, parte de um sistema feito para gerar necessidades não necessárias, intuir vontades inexistentes. Um sistema que nos faz crer que consumir dá prazer, copiar é legítimo e ser igual à maioria é original.

Recentemente fui assistir ao filme “Cloud Atlas” e saí antes da metade – coisa que raramente acontece – assustada, não só com a violência, mas também com a desesperança  explícita em uma “epopéia de 500 anos e seis histórias” onde apenas gestos de agressão, traição e desespero marcam a trajetória humana.

Podem me chamar de ingênua, mas vejo muito mais beleza e dignidade nas pessoas do que nossa vã filosofia de consumo deixa transparecer. Vejo pessoas trabalhando em situações indignas, sem perder a esperança, vejo solidariedade entre raças e gerações, vejo amizades vencendo o tempo e a distância, vejo talentos e ideais políticos grandiosos renascerem em vários países, vejo a luta pelo respeito à natureza e alimentos orgânicos, vejo bicicletas nas ruas e encontros religiosos que vão além da religião e dos dogmas, vejo menos carros e mais transporte coletivo eficiente e barato em muitos lugares.  Vejo um mundo novo, sendo construído por pessoas simples e dispostas a arriscar.

Mas preferem nos fazer acreditar que à nossa volta só existem guerra e desespero, que não se pode confiar, que somos fracos, que apenas o poder e o consumo podem nos dar segurança e satisfação. Mas a verdade é exatamente o contrário. A minha verdade. A guerra é a exceção, a paz é a regra entre os homens.

Vivendo próximo da natureza e de suas necessidades básicas, o ser humano costuma ser solidário e pensar de forma coletiva – como em várias sociedades chamadas ainda de primitivas. Se o egoísmo e o individualismo fossem nossas características básicas, já teríamos virado uma espécie em extinção há muitos séculos. 

O que faz a espécie humana tão forte, é a capacidade de se organizar coletivamente, vencendo diferenças e individualismos. Mas já há algumas décadas, apostamos em um modelo de sociedade consumista e individualista. No entanto, o consumo costuma provocar mais frustrações do que satisfações. Sempre haverá algo mais a desejar, pois o foco está  no que falta, no que acreditamos não possuir. O resultado é um constante sentimento de insatisfação, de frustração e de ansiedade.

O que gera satisfação não é comprar e possuir, mas sim, produzir, criar e poder dividir isso com alguém.  Fazer parte de um grupo, se sentir aceito e reconhecido por suas competências, qualidades e defeitos,  produz um sentimento que chamamos  de “felicidade” – afirmam vários cientistas que se dedicam a pesquisar o assunto.

Na realidade, precisamos de pouca, bem pouca coisa. Mas não são coisas que podemos comprar no cartão de crédito, à vista ou parcelado, débito ou crédito. Esquecemos disso, fascinados, entorpecidos diante das vitrines, dos anúncios, das promoções, das revistas, jornais, blogs, filmes, fotos, novelas e modas, novas ou velhas.

A questão do individualismo é ainda mais óbvia. A base de qualquer sociedade é o compromisso mútuo e o ideal coletivo, a ideia de que somos todos interdependentes – dependemos do grupo para sobreviver . Ou seja, se queremos estar bem, devemos primeiro lutar pelo bem comum.
 
Mas o pensamento individualista prega exatamente o contrário. Uma sociedade dominada pelo excesso de individualismo é uma sociedade condenada à decadência, ao desequilíbrio que provavelmente gerará conflitos e agressões. Acredito em uma sociedade que respeita o indivíduo e ao mesmo tempo assume sua responsabilidade social e coletiva.

Um exemplo de que o modelo de sociedade ultraliberal não funciona a longo prazo, é a atual crise econômica abrangendo a União Européia e os Estados Unidos. Infelizmente, a China*, como nova grande potência mundial, parece nada ter aprendido com os erros do liberalismo ocidental. E o Brasil? Os chamados BRIC – Brasil, Rússia, India e China – serão em grande parte responsáveis por um novo modelo de convivência no futuro – ou seja, nas próximas décadas. Somos parte desse processo.

Não quero dizer que vivemos em um mundo perfeito, habitado apenas por pessoas boas, generosas, angelicais.  Mas acredito que somos muito melhor do que pensamos. Somos imperfeitos na medida em que, nos reinventando a cada momento, aprendemos a cada tropeço, colhendo fracassos,  amores, desamores, vitórias, momentos de júbilo e desespero. 

Somos um esboço. Um rascunho constante, rabiscos do que queríamos ser, um ser supremo, absoluto. Somos contraditórios e imperfeitos. Mas nosso desejo básico, de amarmos e sermos amados, já nos faz grandes. Os artifícios e atalhos que nos levam até esse ideal definem nossa pessoa, nossa trajetória. E acredito que ela deva ser simples, clara e coletiva.

Por isso desejo a todos menos, muito menos!
 
*Tratei do assunto na coluna “O Capitalismo selvagem da China”. 
 
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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