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Muito além do diploma

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04.12.2011 - 15:50:25
Não sem certa dose de satisfação, li a notícia de que o Senado havia aprovado a PEC que reestabelece a obrigatoriedade de formação superior para o exercício do jornalismo.  Na verdade, essa nunca foi uma preocupação pessoal, já que durante esse ano e meio em que foi permitido exercer atividades jornalísticas sem a necessidade de formação na área, não vi mudanças significativas no mercado. As empresas de comunicação não deixaram de exigir a formação superior aos candidatos a uma vaga nas redações e a brecha para aqueles que se viram diante de uma possibilidade parece não ter tomado as devidas dimensões para que eles adentrassem esse mercado então aberto a todos. Para quem não lembra, a obrigatoriedade do diploma foi revogada em junho de 2009 pelo STF, que votou pela inconstitucionalidade da exigência de formação superior por oito votos a um, 42 anos após a aprovação do decreto-lei que estabelecia a exigência do diploma. 
Apesar do vaivém da legislação, é público e notório que os “sem-diploma” sempre povoaram as redações – alguns exerceram e continuam exercendo com maestria a profissão, que também exige vocação por parte do profissional. Paulo Francis, por exemplo, nunca pisou em uma faculdade de comunicação e nem por isso deixou de ser uma das referências mais importantes no cenário jornalístico brasileiro, com sua cultura abrangente e sua ironia ácida. Acredito que a decisão de reconsiderar a exigência do diploma, ao lado da ainda tímida, mas crescente discussão acerca da implementação de uma lei de imprensa brasileira (o Brasil é o único entre os 191 países da ONU que não possui lei de imprensa, declarada inválida pelo STF em abril de 2009), vem configurando um cenário positivo para a consolidação de um jornalismo mais comprometido com a democracia, mas o cerne da questão, a meu ver, encontra-se ainda no período de formação dos futuros jornalistas.
É preciso levar em conta que o diploma é apenas um documento que comprova o grau de escolaridade de um profissional, tornando-o hipoteticamente apto a exercer determinada atribuição no mercado. Digo hipoteticamente porque a certeza de aptidão profissional e competência só serão confirmadas na prática. E isso não se aplica apenas aos jornalistas, há uma infinidade de médicos, engenheiros, arquitetos, advogados e outros tantos profissionais que não conseguem inserção no mercado de trabalho, por não terem uma formação condizente com as exigências deste mercado.  E quando falo em formação, penso em uma concepção mais abrangente do tema, que extrapola o cumprimento das grades curriculares dos cursos superiores. Falo de uma formação pessoal, que começa ainda na infância e que não se encerra nunca, uma formação que contempla o ensino formal, mas também o investimento em conhecimentos paralelos, como línguas, arte, história, literatura e uma infinidade de outros que podemos ir adaptando aos nossos interesses ao longo da vida.
Como professora de jornalismo, tenho visto muitas oportunidades serem desperdiçadas pelos estudantes na universidade. Além do básico desperdício de conteúdo por parte dos alunos, que preferem colocar o papo em dia na hora da aula, ou manusear seus telefones celulares, ipads e notebooks enquanto a aula se desenrola em segundo plano, parece não haver uma consciência a respeito da liberdade de expressão e de experimentação que se dá no ambiente acadêmico. Passa-se pelo ensino superior sem ler livros, sem participar dos debates propostos ou exercitar a argumentação, sem pesquisar (várias universidades oferecem bolsas para quem quiser integrar projetos de pesquisa), sem se aventurar em intercâmbios em países cujas universidades mantêm convênio com as universidades brasileiras, enfim, sem aproveitar as oportunidades que só se apresentam nesse momento da vida. A experiência universitária resume-se de fato a uma simples passagem.
Quando houver o entendimento por parte dos futuros jornalistas de que a prática jornalística não se resume a escrever textos, mas demanda a produção de conteúdo relevante à sociedade, de preferência, de forma contextualizada, sempre prevendo as questões éticas e humanitárias que permeiam a sociedade, talvez a exigência do diploma seja o menos importante. Mesmo porque o mundo atual exige uma formação continuada – vide o número crescente de profissionais procurando cursos de pós-graduação em sua área específica e em áreas afins. O diferencial que cada profissional procura para se destacar pode estar na capacidade de costurar as diversas perspectivas que formam o mosaico social, oferecendo à sociedade a possibilidade de se informar e formar sua própria opinião a respeito dos fatos, de entender as causas e possíveis repercussões que um acontecimento pode trazer à sua vida, mesmo que esteja ocorrendo do outro lado do mundo. E para isso é preciso mais que um diploma. 
Silvana Monteiro (jornalista e mestre em educação pela UFG)
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por Silvana Monteiro

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