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Moradores vizinhos aos terrenos da Rhodia ignoram riscos de contaminação

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25.11.2012 - 12:47:20

São Paulo – Moradores do entorno de terrenos em São Vicente, na Baixada Santista, que receberam durante décadas o descarte do lixo tóxico resultante do processo de produção da empresa Rhodia, desconhecem os riscos da proximidade com os resíduos. A Agência Brasil esteve no local e ouviu relatos de que, embora a área seja isolada, crianças e adultos frequentam o local para pegar frutos e consumir drogas, dentre outras ações.

O motorista Riberto Tadeu da Silva, 51 anos, mora há 14 anos na comunidade Gleba 2, que fica na lateral da Estação de Espera da Rhodia. Esse terreno acumula cerca de 30 mil toneladas de organoclorados, como o pó da china (pentaclorofenato de sódio) e o hexaclorobenzeno, materiais comprovadamente cancerígenos. O muro da casa dele é um dos que delimitam o território da empresa. “Eu mesmo já pulei com um facão pra cortar o mato que se acumula perto da minha casa”, declarou.

O morador informou que o muro foi construído há cerca de três anos e que antes não havia impedimento para acesso ao terreno. “Passaram o muro aqui, mas também não avisaram nada. Não temos informação nenhuma da área. Só sei que tem o vigilante que passa aqui para não invadirem, não roubarem nada”, relatou. Ele disse ainda que crianças também acessam o terreno para pegar bola e pipa. “Pulam, mas saem logo em seguida. Os seguranças não tiram, porque nem percebem”, acrescentou.

Há 20 anos no local, a dona de casa Hildete Correia de Souza, 55 anos, também confirma que moradores acessam o terreno para pegar frutos. “Tem gente que entra, não é? Tem gente que corta cacho de banana, mas eu mesmo não pego, não. Não tenho medo, mas não arrisco”, disse. Ela relatou que, com a construção do muro, o acesso de usuários de drogas foi dificultado. “Antes do muro, entrava mais gente para usar droga. A gente sentia o cheiro. Era uma bagunça. Agora não se vê mais isso”, contou.

O diretor industrial da Rhodia, Gerson Oliveira, nega que seja possível acessar os terrenos contaminados. “Isso não acontece. Tem o pessoal da vigilância que faz a ronda regular. No instante em que observam qualquer movimento no entorno, a gente aciona as autoridades locais, mas a gente não tem esse problema. Estamos em constante manutenção de cercas e muros para assegurar que nossa área esteja bem protegida”, declarou. Ele assegurou ainda que os resíduos estão confinados e não há risco de contaminação ao meio ambiente e à população.

Em comunidade do bairro Jardim Quarentenário, composta por sete ruas que margeiam outro terreno da Rhodia, também em São Vicente, a violação da área de segurança é uma constante, segundo relataram moradores. A caixa de supermercado Thabita França Alves, 28 anos, mora há 20 anos na região. “Depois do muro, que deve ter uns oito a dez anos, diminuiu as pessoas que iam usar droga lá, mas quando era só cerca, as pessoas entravam muito. Eu mesma, quando era criança, entrava lá para brincar”, relembra.

Ainda hoje, nas proximidades do muro, um rio é utilizado pela população para lazer. “Está bem sujo, mas quando está calor, os meninos entram mesmo”, relatou o carpinteiro Francisco Reinaldo da Silva, 51 anos. O rio serve para encurtar o caminho para uma praia que fica a uns dez minutos do local. “A gente não sabe se está contaminado com esse lixo da Rhodia, mas ninguém se preocupa”, declarou. Ele argumentou que o outro acesso para a praia aumenta o percurso em pelo menos 30 minutos, já que é feito pela estrada.

Francisco Reinaldo mora há 18 anos no local e toda a informação que sabe sobre os resíduos descartados no terreno são fruto “do que o povo fala”. Ele conta que não sabe a real situação da área, mas relembra que “já se falou que a água era contaminada”. Assim que chegou à região, em 1994, o carpinteiro cavou um poço nos fundos da casa, pois ainda não havia água encanada. “Usamos aquela água pelo menos uns três anos, mesmo sabendo que podia ter pó da china lá”, relatou.

Os moradores contam que nunca receberam um comunicado formal da empresa, mas sabem que a Rhodia é obrigada a monitorar, periodicamente, se há contaminação do solo e da água. “Depois, o próprio pessoal que trabalha aqui acaba comentando que está tudo normal”, disse o aposentado Antônio dos Santos, 69 anos, há seis anos morando no local. Os riscos resultantes do material tóxico, no entanto, não são preocupação para ele. “Não sabemos de ninguém que tenha ficado doente. Então a gente fica tranquilo”, avaliou.

Mesmo quem mora há muito tempo na comunidade, no entanto, nunca passou por exames para avaliar se houve contaminação com organoclorados resultante do lixo que esteve, por muito tempo, acumulado no terreno. A dona de casa Márcia Barbosa Cavalcante, 50 anos, está há 22 anos na região e não associa a morte de quatro vizinhos com câncer à possibilidade de contaminação. “É uma doença tão comum hoje em dia que a gente nem estranha”, avaliou.

O diretor industrial da empresa explica que, quando os resíduos foram levados ao terreno do Jardim Quarentenário e mesmo quando foi iniciado o controle ambiental, não havia população residente no local. “A gente fez todo o processo de recuperação das áreas e a população ainda não estava lá presente. Essa população vai aparecer lá para os anos 1990. Eles vieram depois que essa área estava toda delimitada e em processo de remediação”, explicou.

Gerson Oliveira disse ainda que a área de controle é bem maior que o perímetro envolvido no confinamento dos resíduos. “A área de recuperação representa algo em torno de 2% a 3% da área total. Não quer dizer que é toda a extensão daquela área [que contém os resíduos confinados]”, argumentou. Ele destacou ainda que não há mais lixo tóxico na área do quarentenário, tendo em vista que todo o material foi concentrado na Estação de Espera.

Para a Associação de Combate aos Poluentes (ACPO), criada por ex-funcionários da Rhodia que foram contaminados no início dos anos 1990, quando a fábrica ainda funcionava, os mecanismos de confinamento não estão impedindo novas contaminações. A entidade também é integrada por funcionários que estão afastados da empresa em regime de licença remunerada, devido à contaminação.

De acordo com Antônio Márcio Mariano da Silva, 55 anos, membro da associação e um dos afastados da Rhodia em regime de licença remunerada, funcionários que ainda atuam na sede da empresa em Cubatão para fazer o controle ambiental foram identificados com níveis de contaminação por organoclorados.

“Presenciei pelos menos cinco contaminados confirmados. Alguns até já saíram da empresa”, denunciou Mariano. “Resta claro que o ambiente e processos não são seguros. Esses resultados de contaminação humana põem em xeque toda a estratégia atualmente adotada”, avaliou.

Mariano, que atualmente é estudante de História, relata que a contaminação interfere não só na saúde dos trabalhadores, mas também nos planos desses profissionais. “Ela [Rhodia] encerrou minha carreira. Se, por sorte, eu tivesse saído ileso da Rhodia, sem contaminação nenhuma, eu pretendia prosseguir com minha carreira de químico”, declarou. Ele explicou que o nível que contaminação ao qual foi exposto o impede de prosseguir na área, para não agravar seu quadro de saúde.

Os funcionários comprovadamente infectados ainda têm vínculo empregatício com a Rhodia, assegurado por Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 1994. “As pessoas que foram contaminadas agora podem requerer a inclusão deles no TAC, mas acredito que a via mais correta seria movimentar uma nova ação civil pública, pois a empresa alega que a área está segura, mas se ainda há contaminação, temos uma nova situação”, avaliou.

O diretor industrial da Rhodia, Gerson Oliveira, por sua vez, descarta a possibilidade de que tenham ocorrido novas contaminações. “Essa informação não procede. Nós temos monitoramento regular dessas plantas [áreas contaminadas]. A primeira coisa que a gente faz é assegurar que o ambiente lá seja seguro, pelo monitoramento ambiental. A gente faz também acompanhamento médico e temos tudo que as normas regulamentadoras exigem”, respondeu. (Agência Brasil)

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por Yuri Lopes

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