Há momentos em que a memória coletiva de um povo se reduz a um grito seco, roco, monossilábico, quase obsceno de tão direto. “Meu nome é Enéas”! Não era manifesto, programa de governo ou tese de doutorado. Era apenas a afirmação de um propósito, num país que, há décadas, se especializou em apagar os nomes próprios da política e substituí-los por cargos, por legendas, por narrativas e, mais recentemente, por algoritmos. A frase do doutor Enéas Carneiro ecoa hoje não como nostalgia de um candidato excêntrico de chapéu e gravata borboleta — o tom sarcástico, de protesto ou rebeldia de uma “anticandidatura” —, mas como diagnóstico clínico de uma patologia socioinstitucional: a completa ausência de estadistas capazes de olhar a modernidade de frente, sem a mediocridade do cálculo eleitoral de curto prazo e sem a covardia do politicamente correto de ocasião.
Estadista não é o homem que administra a máquina. É aquele que, diante da complexidade da biografia pública, tem a coragem de nomear o que vê e a competência de propor um caminho que transcenda o ciclo eleitoral. Max Weber, em sua conferência de 1919, já distinguia o político de vocação do mero profissional da política. O primeiro vive para a política; o segundo vive da política. No Brasil contemporâneo, a segunda categoria triunfou de forma quase absoluta. O que resta são gestores de narrativas, especialistas em polarização performática e técnicos de marketing que tratam o Estado como plataforma de engajamento.
A modernidade, porém, não pede gestores de narrativa. Pede respostas à transição demográfica, à reorganização das cadeias globais de valor, à crise energética-ambiental, à fragilidade fiscal estrutural, à erosão da autoridade do Estado diante do crime organizado e à incapacidade crônica de formar capital humano de excelência, além, é claro, dos três pilares fulcrais do Estado: saúde, educação e segurança pública. Nenhuma dessas questões se resolve com hashtag ou com discurso de ódio calibrado para o algoritmo.
Assim, a ironia é cruel. Enéas, o cardiologista que citava clássicos e falava em minutos o que outros não dizem em anos, era tratado como caricatura. Hoje, a caricatura se tornou o padrão. Temos políticos que não sabem a diferença entre déficit primário e dívida líquida, mas sabem exatamente qual frase gera mais retuítes. Temos parlamentares que votam projetos de lei sem ler a ementa, mas dominam a arte de se parecerem ofendidos em rede social. Temos mandatários que confundem soberania com autarquia e internacionalismo com submissão. No entanto, a realidade é impiedosa com os que não sabem distinguir essas coisas. Estadistas — ainda que imperfeitos — negociam tratados comerciais com estratégia de longo prazo, investem em ciência sem exigir que a ciência se submeta à ideologia do momento e tratam a educação como prioridade de Estado, não como plataforma de doutrinação ou de clientelismo.
A ausência de estadistas no Brasil não é acaso. É resultado de um sistema que seleciona negativamente. O presidencialismo de coalizão, o fisiologismo, a pulverização partidária, o financiamento de campanha que premia a visibilidade em detrimento da substância e a cultura política que confunde popularidade com legitimidade criaram um filtro que elimina, quase por definição, o perfil do verdadeiro homem de Estado.
Quem tem formação sólida, visão de longo prazo e disposição para dizer verdades inconvenientes raramente sobrevive ao “primeiro turno das redes sociais”. Quem sobra é o que se adapta: o político que muda de posição conforme a curva de aprovação, o que transforma cada crise em oportunidade de polarização e o que confunde governo com espetáculo.
É preciso dizer com clareza: a modernidade não espera. A nova engenharia internacional não espera. A China não espera. Os Estados Unidos não esperam. A Índia não espera. A reorganização geopolítica do século XXI, a disputa por semicondutores, por terras-raras, por inteligência artificial e por energia limpa não será decidida por quem vocifera mais nas redes e sim por quem tiver capacidade estatal de coordenar investimentos, formação de pessoal, política industrial e diplomacia com horizonte de décadas.
O Brasil, com suas dimensões continentais, sua biodiversidade, sua matriz energética relativamente limpa e seu potencial agrícola, tem todos os elementos para ocupar posição de destaque. Em vez disso, oscila entre o messianismo de ocasião e o cinismo administrativo. Falta o mediador entre a realidade complexa e a vontade política: o estadista.
Enéas, com todos os seus excessos e limitações, representava algo que desapareceu: a pretensão de falar em nome de um projeto nacional que não se reduzisse a facções. Seu “meu nome é Enéas” era, no fundo, uma recusa à anonimidade do aparelho. Era a afirmação de que a política ainda podia ter rosto, voz e responsabilidade pessoal. Hoje, quando os nomes próprios se dissolvem em legendas, circuitos familiares, em “movimentos” e em “causas”, a frase recupera seu poder de escândalo. Porque o que ela denuncia não é apenas a mediocridade dos ocupantes do poder. É a mediocridade de uma sociedade que, ao longo de décadas, aceitou trocar a exigência de estadistas pela comodidade de torcer, das arquibancadas, por times políticos.
Não se trata de ressuscitar o passado agora, em época de propaganda eleitoral, em face das eleições gerais no Brasil. Trata-se de recuperar a medida. Um país que não produz mais homens e mulheres capazes de pensar o Estado como algo maior que a próxima eleição está condenado a ser objeto e não sujeito da história. Os desafios do tempo presente não perdoam a ingnorância. E a história, como se sabe, é escrita por aqueles que ainda têm nome próprio — e coragem para dizê-lo.
*Edemundo Dias de Oliveira Filho é advogado, especialista e Mestre em Segurança Pública, Políticas Públicas e Direito Público.
