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Melhor seria se não existisse Dia da Mulher

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08.03.2013 - 10:45:45

Goiânia – Você já deve estar ligado que hoje é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Caso seja garota, deve ter recebido uma flor ou outra lembrancinha qualquer no trabalho, na faculdade ou ambiente que frequente. Sei que as manifestações são de boa intenção, feitas para mostrar respeito e carinho com as mulheres que nos cercam em diversos lugares. Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas realmente o mundo seria mais legal se não precisássemos de um 8 de março para nos lembrarmos das absurdas discrepâncias entre gêneros que ainda persistem na humanidade. Mesma coisa com o 13 de maio (malquisto para o movimento negro) ou o 20 de novembro (dia de Zumbi dos Palmares e esse sim reconhecido) para os afrodescendentes brasileiros. Ou o 19 de abril para a causa indígena. 

Infelizmente essas datas ainda são necessárias para esfregar em nossa fuça o quanto ainda somos discrepantes em nossas relações sociais. Não nascemos iguais. Não temos todos os direitos equiparados. Uns podem mais que outros. Seja pela orientação sexual, gênero, cor da tez, etnia e vários outros fatores que deixam a vida do indivíduo mais difícil só pelo fato de não ser o padrão socialmente aceito. Uma vergonha. E uma vergonha que precisa sempre ser lembrada o tanto quanto possível para que a possamos sentir.

Tem gente que simplifica a história e afirma que o problema do Brasil seria só de grana. Dizem que mulher, gay, índio, negro, desde que tenham abastada conta bancária, são automaticamente aceitos. Não compactuo com a tese. Nunca me esqueço de uma entrevista da deputada federal Benedita da Silva. Na ocasião, ela falava da diferença de tratamento da polícia quando desce um jovem branco e um jovem negro da favela. Ambos eram pobres, viviam na quebrada e tinham o mesmo padrão de vida. Com o jovem negro, o trato é mais hostil.

Mesma coisa em relação ao sexo feminino. Uma mulher e um homem que tenham nascido em situações adversas terão que batalhar muito para alcançar prestígio social. O problema é que as barreiras que a mulher terá que superar são três, quatro, cinco vezes mais altas que as do homem. Se isso não é discriminação, não sei qual nome seria apropriado para batizar a diferença. Canalhice?

Também acho cabotino o “esquecimento” geral sobre a gênese do 8 de março. A data não nasceu com flores e chocolates distribuídos na firma. Partiu da luta. Era a reivindicação por melhor condição de trabalho nas fábricas e indústrias dos Estados Unidos, Europa e Rússia. Uma data marcada por suor e sangue. Não por beleza e afeto. Não sou rabugento o suficiente para achar o ato simpático e hoje socialmente comum uma afronta. Mas não dá para deixar de lado as batalhas e ressaltar só o lado supostamente delicado da mulher. Isso que considero desonesto com a memória da data.

Tenho duas filhas. Trabalho para que elas peguem um mundo menos violento contra as mulheres, menos desigual, menos injusto, menos machista do que o mundo que peguei. E aí, topa também fazer sua parte?

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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