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Me serve, vadia!

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03.10.2013 - 12:48:42
Goiânia – Como acontece todos os dias, hoje cedo fui tirar o lixo. Ao me ver com as duas sacolinhas – uma do lixo orgânico e outra do reciclável –, a vizinha de apartamento me olhou como se eu fosse uma aberração da natureza e me deu uma bronca: “Cruzes, você se dá a esse trabalho? Temos faxineira no prédio para isso, sabia?!” 
 
Chocada com a falta de noção alheia, não consegui dizer nada. Uma senhora que presenciou a cena, me chamou no canto e confidenciou: “Minha filha, você não viu nada. Tem gente que, além de não separar o lixo, ainda faz questão de misturar absorvente íntimo e papel higiênico com as latinhas de alumínio”. 
 
Pois é, isso acontece. Para minha total perplexidade e indignação, isso ainda acontece. Existe uma ala da classe média brasileira que não se conforma. Como não dá conta de ser rica e pagar um séquito para servi-la, nem tem coragem de assumir que é pobre e precisa se virar sozinha, quer dar uma metida à besta. 
 
E lá se vai a tal classe média recalcada passear no shopping. Come, se lambuza e deixa a bandeja em cima da mesa. Afinal, se levantarem e colocarem o utensílio no lugar certo, do quê as moças da limpeza vão viver, não é mesmo? Falta de educação também é trabalho social, gente!
 
Depois de se refestelar na praça de alimentação, é hora de levar os pimpolhos para darem uma volta no shopping e deixar que emporcalhem o chão com suas embalagens de doces. E fazer como uma mãe que vi esses dias fez: “Deixe o papel aí mesmo no chão sujo, meu filho. Depois as faxineiras limpam”.
 
No salão de beleza, se comportam como um cliente que vi recentemente. O homem chegou para fazer as unhas com o pé fedendo e sujo, muito sujo. Não, ele não era um lavrador sem tempo para cuidar da higiene pessoal. É só mais um classe média recalcado, que pensa que a manicure também tem de dar banho nele de brinde.  
 
Ao chegar em casa, fazem como o cliente da diarista que me atende: aparam os pentelhos por todas as partes do banheiro e deixam a camisinha suja em cima da cama. Qual o problema em ter o estômago revirado ao ver tudo isso? Ela deveria era se sentir honrada por ter a oportunidade de trabalhar pra ele! 
 
Sim, eu sei que vão buscar explicações antropológicas para o fato – Gilberto Freyre, com seu brilhante “Casa-Grande e Senzala” está aí para nos fazer entender como essa boçalidade toda começou –, que vão tentar amansar meu coração, dizendo que muita gente não teve acesso às normas básicas de educação… Mas quer saber? Pouco me importa a origem. Quero é ver quando essa palhaçada toda vai terminar. 
 
Minha gente, vamos cair na real, pelo amor de Deus! Se você precisa trabalhar para viver, você é pobre! Não interessa se o IBGE, na classificação de renda mensal dele, disse que você é classe média. Você é pobre e ponto, porque rico que é rico, não precisa trabalhar para viver. 
 
Pare de se comportar como um sheik árabe, como a Beyoncé, como o Abílio Diniz. Você não é um multimilionário, nem uma celebridade, nem um empresário poderosíssimo, que têm 15 pessoas atrás deles todo o tempo, monitorando batimentos cardíacos, sede e fome… Você é “brasileiro, de estatura mediana”, pobre. Pare de ser metido à besta. 
 
Ano passado, a personagem de Débora Falabella fez o público delirar, em Avenida Brasil, gritando para a personagem de Adriana Esteves: “Me serve, vadia!”. Depois de todas as maldades, enfim Carminha estava pagando pelo mal que fez. Só que você não é atriz nem ator de novela. Sai desse universo paralelo que você criou e volta pra Terra, criatura. O mundo não está aí para te servir.
 
Enquanto acharmos normal ser folgados e mal educados, vamos continuar criando esses monstrinhos, que quando crescem colocam fogo em mendigos para quebrar o tédio, metem uma bala na cabeça de quem os desagradou no trânsito, pensam que têm direito a tudo pelo simples fato de terem nascido. 
 
Enquanto não aprendermos a tratar as pessoas com respeito, não pararmos de abusar do outro, de delegarmos o que é responsabilidade pessoal nossa para quem se mostra mais vulnerável, podemos crescer como potência econômica, mas não como gente.

Se sujou, limpe. Se tirou do lugar, arrume. Se estragou, conserte. Sua mãe não te ensinou isso em casa? Fique tranquilo, a vida vai ter dar umas aulinhas. 

 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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