Se tem um filme nessa corrida do Oscar que sangra em vermelho, branco e azul, é Marty Supreme, uma dramédia de erros que é, em seu cerne, uma homenagem ao sonho americano e ao American Way of Life, ao mesmo tempo em que é uma crítica a essas duas coisas, mas que pode passar despercebida para os menos atentos.
O filme também é uma delícia para os estetas de plantão: redondo, coeso, sem arestas, coerente ao ponto de ser quase formulaico. O filme atinge com tanta precisão os pontos de virada de certos manuais de roteiro que se torna automaticamente um ótimo exemplo para ser usado em sala de aula com estudantes de cinema.
Mas afinal, do que se trata? Pois bem, a trama acompanha o desprezível e fascinante Marty Mauser, vivido pelo sempre ótimo Timothée Chalamet. Marty é só mais um judeu pobre morando em Nova York com a sua família nos anos 1950, mas ao invés de se contentar em casar e passar a vida vendendo sapatos na loja de um amigo da família, ele sabe que está destinado a coisas grandes. Em seu caso: a ser o campeão mundial de tênis de mesa e a popularizar o esporte nos EUA, se tornando o rosto da modalidade no país.
E ele vai buscar esse destino custe o que custar.
A história começa a se mover após ele ser derrotado por um incrível jogador japonês no mundial. Determinado a ter a sua própria comeback story com a qual ninguém se importa além dele mesmo, Marty tem um ano para se preparar e conseguir o dinheiro para ir para o próximo mundial, em Tóquio.
Entra aí a sequência de erros: as complicações progressivas se empilham e Marty precisa fazer escolhas, só que elas são sempre as piores escolhas possíveis. As consequências são sempre reais e imediatas: guiado por seu umbiguismo supremo, Marty destrói, usa e aliena todos ao seu redor, sejam eles parentes, amigos ou meros desconhecidos que tiveram o azar de cruzar o caminho desse jovem focado no seu próprio Destino Manifesto.
É aí que entra o subtexto do sonho americano que me chamou a atenção. Se por um lado Marty é determinado, corajoso, ousado e versátil, focado a ser um self-made man, por outro ele é apocalipticamente egoísta, destrutivo, imaturo e covarde, sendo frio e incapaz de enxergar a dor que causa, nunca admitindo os próprios erros nem dando o braço a torcer.
Estas são, sem dúvida, duas faces da mesma moeda do American Way of Life, em que a determinação e o sonho caminham de mãos dadas com o egoísmo e um narcisismo insidiosos. Marty é um crápula que não pede desculpa, não se arrepende e não se rende ao mesmo tempo em que se pinta como um herói nacional destinado ao sucesso.
Qualquer semelhança com o zeitgeist não é mera coincidência e aí está a força maior dessa história caótica e soturnamente cômica. Se por um lado o filme talvez seja quase sem graça de tão convencional, ele compensa isso com todas as enervantes peripécias de seu personagem principal.
