Jales Naves
*Especial para o jornal A Redação
Goiânia – São muitas as histórias sobre Maria Custódia de Oliveira Naves, uma mineira que viveu no final do século XIX, não teve oportunidade de estudar, pois na época existiam poucas escolas, e que se dedicou, em tempo integral, à criação dos 15 filhos – ela faleceu em 1902 no nascimento do 16º, uma criança do sexo masculino, que também morreu no parto. Nascida em 1861, em Água Suja, atual Romaria, MG, com formação católica, foi uma mulher destemida, determinada, guerreira e que soube conciliar os afazeres domésticos com a educação dos filhos. Disciplinadora e enérgica, sempre chamava a atenção das crianças quando faziam algo que considerava errado, pois tinha que manter o controle da situação em casa. Casou-se em 1882 com João Jacob Cardoso, um negociante de gado que viajava muito, parava pouco em sua residência e que, por uma infelicidade, passou os últimos 20 anos de sua vida numa cadeira de rodas, depois de receber a chifrada de um boi nas costas, que atingiu a coluna e afetou seus movimentos. Ele faleceu em 1912.
Um desses relatos, contado pelas filhas, de quando eram pequenas, versava sobre a existência de uma santa na família, sempre lembrada, no distante final dos anos 1880/90, por Maria Custódia Naves ao chamar a atenção delas no momento em que diziam palavrões ou faziam alguma travessura. “Não podem falar assim. Vocês são netas de uma Santa”, afirmava. Alguns disseram que essa religiosa, depois de alguns anos de sua morte, foi desenterrada e seu corpo estava intacto. Autor do livro “Ávila: 300 anos de História & Sabores – Genealogia e gastronomia. A arte de redescobrir”, já com edição esgotada, o pesquisador Fabrício de Ávila Ferreira, um dos bisnetos da filha Adélia Benevides Jacob, ouviu essa citação de diversos familiares, foi atrás de alguma prova e nada conseguiu obter. Ficou a dúvida, já que o assunto, também, jamais foi desmentido. Para alguns ela se referia a Santa Isabel.
João Jacob, conforme os familiares, quando estava em casa, gostava de mesa farta, que ficasse sempre posta, com quitandas, biscoitos, pão de queijo, coalhada síria, doces e frutas. Se chegasse em sua residência e não encontrasse a mesa arrumada ficava chateado e reclamava até ser atendido.
Famílias numerosas
Filha de Manuel Prudêncio Naves e Isabella Cândida de Oliveira, que moravam em Água Suja, Maria Custódia casou-se aos 21 anos de idade, na Igreja Matriz desse povoado, com João Jacob, segundo filho de Jacob Gonçalves Cardoso e Anna Luciana de Rezende, igualmente moradores da Freguesia de Água Suja. O casal residiu na fazenda das Aroeiras, na vizinha Freguesia de São Miguel da Ponte Nova, que na época pertencia ao município de Sacramento, MG, e hoje é a cidade de Nova Ponte. Ela integra a sétima geração dos Naves brasileiros.
Em 20 anos de casados, conforme levantamento feito por Fabrício de Ávila Ferreira, eles criaram 15 filhos, que se casaram e muitos contribuíram com núcleos familiares igualmente numerosos: o primeiro, Acácio Jacob, casou-se com Ambrosina e eles tiveram nove filhos: Maria, Pedro, Derotides, Clodoveu. Elmo, Erotides, João, Adelina e Florípedes; o segundo, Jacob Penaforte (Nhô), casou-se duas vezes – na primeira com Maria Alcântara e tiveram três filhos: Epaminondas, Maria e Adélia, e, na segunda, com Anna Rosa Naves, que lhe deu dois filhos: Francisca e Jacó; a terceira, Adélia Benevides Jacob, casou-se com Joaquim Antônio de Ávila (Zico) e tiveram 12 filhos em 18 anos: João, Iracema, Joaquim, José, Doraci, Maria, Jenusval, Dinorah, Adélia, Manoel, Eugélia e Renato, caçula, que ficou órfão de mãe aos três anos; o quarto, Antenor Jacob Penaforte, casou-se com a espanhola Maria Alonso Pérez e tiveram cinco filhos: João, Gisele, Giselda, Jackes e Maria Zélia; a quinta, Maria Benevides Jacob, casou-se com Limírio Afonso de Almeida e tiveram três filhos: Claudionor, Clotilde e Adilon; a sexta, Belmira Benevides Jacob, com a morte da irmã Maria, casou-se com Limirio, e tiveram nove filhos: Rui, Clodoveu, Rita, Lair, João, Célio, José, Gil e Geli, tendo morado na fazenda Capão Grosso, em Perdizes, perto de Araxá, MG; a sétima, Dolores Benevides Jacob, casou-se com Gerson Tavares e tiveram cinco filhos, todos com “l”: Leônia, Lia, Lélia, Lúlio e Lígia; o oitavo, Ilmovir Jacob de Rezende, que tinha o apelido de Vitinho, casou-se com Maria Cândida de Ávila (Nica) e tiveram 11 filhos: Zaida, Zilda, João, Maria, Dionéia, Aparecida, Ilda, Ilca, Jaime, Gildo e Adélio; o nono, Manoel Benevides Jacob (Nequinha), casou-se com Blandina de Ávila Lemos (Rolinha) e tiveram nove filhos: Sílvio, Laís, Waldomiro, Edith, Manoela, Geraldino, Hipólito, Otávio e João; a décima, Ana Benevides Jacob (Dona), casou-se com Olímpio Fernandes Rabelo e tiveram 10 filhos: Odilon, Manoel, João, Alcidina, Guiomar, Osvaldo, Demerval, Adélia, Alcides e Durval; a décima primeira, Benvinda Benevides Jacob, casou-se com João Evangelista de Castro (Neftali) e tiveram sete filhos: Maria Isabel, Maximina, Ilmovir, Nestor, João, Euclides e Odacir; o décimo segundo, Dolmevir Jacob, casou-se duas vezes – na primeira com Maria Montandon e tiveram seis filhos: Célia, Carlos, Josefina, Ione, Maria e Cássia, e na segunda com Maria Augusta Jacob (Lilia) e tiveram oito filhos: Dirson, Dali, Divino, João, Dirse, Denísia, Delma e Ana Maria; o décimo terceiro, Adilon Jacob, casou-se com Adélia Ramos e tiveram seis filhos: Adair, Antônio, Agnaldo, Arlete, Teomilda e Terezinha; a décima quarta, Adelaide Benevides Jacob, casou-se com Francisco Gomes e tiveram 11 filhos: Joel, Alaor, João, Alcina, Peneval, Maria, Orlinda, Ormesinda, Nair, Luzia e Pedro; e a décima quinta, Maria Isabel Jacob (Nenê), casou-se com Aníbal Salgado e não tiveram filhos. Adilon e Adelaide eram gêmeos.
A admiração dos filhos pelos pais era tamanha que 14 dos casados e que tiveram descendentes colocaram o nome deles em sua prole: 10 homenagearam o pai, João, e sete a mãe, Maria.
Conforme o pesquisador, alguns dos filhos tiveram o sobrenome Benevides, que era da família de João, “pois os filhos de seu irmão José Jacob também tinham este sobrenome”. “Penaforte também foi colocado em alguns, mas deste ainda não foi encontrada nenhuma referência anterior”, afirmou.
O genro Zico dizia, brincando, que fora enganado quando seu pai esteve na casa do futuro sogro para tratar de seu casamento. Ele viu a noiva uma única vez, que passou meio longe de onde estavam, com um balaio de frutas. No dia do casório apresentaram outra moça, mais velha, o que não era usual naqueles tempos, da mulher ser mais velha do que o homem. Adélia tinha três anos a mais do que ele.