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Mandíbulas e o prazer do outro

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26.12.2013 - 09:38:48

Por Fabrício Cordeiro

Goiânia – Pouco menos de um ano atrás estava eu aplicando Tubarão em uma pessoa que nunca havia visto este maravilhoso Spielberg antes. Pessoa sensível ao medo, como tantas outras. Compreensível. E fascinante em termos de cinema, esse brilho de realidade que sabemos ser simulado, mas ainda assim entramos nele de bom grado, porque é bom.

O filósofo Kendall Walton fala sobre isso em seu texto "Temores fictícios", e acaba criticado pelo também filósofo Gregory Currie num artigo chamado "Ficções visuais". Ambos versam sobre essa característica do faz-de-conta e estão no primeiro volume daquela coletânea bicolor da Senac, Teoria Contemporânea do Cinema, livro bom, importante para o pouco que ainda se traduz sobre cinema no Brasil. São textos meio truncados, mas valem a leitura.

Falei tudo isso para, na verdade, chegar mais uma vez ao precioso trabalho que o Cine Cultura vem fazendo, sobretudo neste mês de dezembro, um ano após sua reabertura. Mês em que estive distante, na terra de Apichatpong, mas acompanhando uma programação que só tem a fazer bem ao pulsar da Praça Cívica (praça que, ela própria, vez ou outra, com eventos esguelantes, ignora a existência de seu cinema que abre todos os dias, com gente que trabalha para receber mais gente).

E na reta final de 2013, o Cultura volta a oferecer alguns clássicos. De 26 a 29, passará, respectivamente, 2001: Uma Odisséia no Espaço, Tubarão, o Robocop original de Paul Verhoeven e, por fim, A Mosca. Exibições únicas com entrada franca, todas imperdíveis e perfeitas para levar aquele alguém que nunca vira o filme antes. E são filmes que podem dar medo.

Me lembro especificamente da magnífica sessão da cópia digitalmente restaurada de Tubarão no Cinesesc de São Paulo, durante a Mostra do ano passado. Eu era o quinto na fila e pude escolher o lugar que quisesse. Prefiro um pouco à frente do meio, ligeiramente à esquerda, e foi lá mesmo. Perfeição.

Do segundo ataque em diante, aquele do garotinho, com toda a preparação da montagem (brilhante, foda, obra-prima) na praia, pessoas atrapalhando a visão de Brody (Roy Scheider), um Spielberg sem receio de transformar crianças em amontoados de sangue, passei a manter um olho na tela e outro no casal da fileira da frente, duas ou três poltronas à minha direita.

A garota era a pessoa mais feliz daquela sala, provavelmente. Assistia ao filme pela primeira vez, estava claro. Ali, no cinema, imagem e sons no talo, perfeitos, quase uma espectadora de 1975. Cada som mais alto, um salto. A cada sugestão ou aparição do bicho, ela se encolhia no ombro do namorado, virava o rosto, voltava a olhar pra tela, escondia de novo. O rapaz se divertia. Abraçava. Explicava algumas coisas, talvez processos de filmagem, como o truque de utilizar uma pequena gaiola diante de um tubarão real, fazendo do animal uma besta enorme.

Ela foi muito feliz. Ele também.

Um prazer cinéfilo, da cinefilia que ainda pode ser saudável, reside justamente aí, em "apresentar", ou melhor, em acompanhar a primeira vez de pessoas queridas. Existe aquela sensação de "legado", que pode ser mais importante do que nos parece. O cinéfilo, hoje, também virou uma espécie de arquivista, afinal. 

Também me parece interessante a sensação de quase experimentar a sua primeira vez de novo. Desde que seja um prazer semelhante, claro. É um primeiro contato. Com Tubarão, difícil errar.

Mais do que isso, é a genuína alegria em ver o prazer do outro. O namorado estava feliz por ela. Eu estava feliz por ela. Por sua estreia tão privilegiada em um clássico, ainda que tardia. Cinema permite essas coisas bonitas entre pessoas, sejam elas muito próximas ou estranhas anônimas.

Tubarão permite essas coisas. Filme incrível.

*Tubarão será exibido no Cine Cultura no dia 27/12. Mais informações, entrar em contato com o cinema ou acessar sua página
 

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por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

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