Goiânia – Despido da volumosa barba que o acompanhou até o dia da vitória e portando os antigos óculos de hastes vermelhas abandonados durante a campanha eleitoral, o presidente eleito para o próximo triênio na Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), Lúcio Flávio de Paiva, retornou diferente ao jornal A Redação oito meses após conceder sua primeira entrevista ao veículo.
De lá para cá, o tempo fez com que o representante da OAB Que Queremos adquirisse mais maturidade, experiência e se libertasse da aparente ingenuidade política demonstrada durante a entrevista do mês de maio. Nesse período, ele também conquistou algo não tão agradável quanto a vitória nas urnas: 10 kg a mais em seu corpo de estatura mediana. "Eram muitas reuniões, com cafés, almoços, jantares, happy hour. Impossível não engordar. Agora, vou retornar à academia."
A barba, segundo Lúcio Flávio, cresceu em virtude de promessa de campanha. "Com a vitória, todos os barbudos da chapa tiraram as barbas." Já os óculos vermelhos, confessou o novo presidente, foram deixados de lado por estratégia de marketing. "Eu não sou tão jovem, mas aparento ter uma idade menor da que tenho. E o público advocatício tende a ser mais conservador", justificou.
O advogado eleito com 56% dos votos de todo o Estado afirmou ao AR que acredita que encontrará a seccional desequilibrada financeiramente e admitiu que pode não ser tarefa fácil administrar a instituição. "Fácil eu tenho certeza que não vai ser." Lúcio Flávio disse ainda que deve promover reformas na estrutura da entidade.
"Como nós estamos entrando sem amarras em relação ao passado e sem lotear a Ordem, eu não tenho compromissos com ninguém. Eu tenho compromisso com a advocacia de Goiás. Se for necessário fazer um enxugamento ou realocar mão de obra de maneira mais inteligente, nós faremos isso", declarou.
Jornal A Redação: Presidente, qual é o gosto da vitória?
Lúcio Flávio de Paiva: É bom. Indubitavelmente, bom. Muito melhor que perder. Mas, sobretudo, acho que esse gosto é assim tão bom pela quantidade de votos que nós tivemos, numa demonstração muito clara de que a advocacia precisava de mudança. Incorporaram as nossas propostas, o perfil de uma mudança muito maior do que mudança de nomes. Mudança de princípios. Então, estou feliz, satisfeito e agradecido à advocacia goiana com o resultado.
AR: O senhor está diferente do candidato que víamos até a semana passada…
A barba era promessa de campanha. Com a vitória, todos os barbudos da chapa tiraram as barbas. Quanto aos óculos, eu não sou tão jovem, mas aparento ter uma idade menor da que tenho. E o público advocatício tende a ser mais conservador. Foi uma questão de passar a imagem que tenho, que é de maturidade e seriedade. Foi uma adequação para mostrar o que de fato sou. Agora que a campanha passou, volto a ser uma pessoa mais normal.
AR: Foi possível perceber ao fim da campanha uma onda de “já ganhou”. O senhor chegou a ter certeza da vitória antes da eleição?
Durante a campanha nós sempre, pelos monitoramentos que fizemos, estivemos na frente. Mas sempre trabalhamos como se estivéssemos em último lugar. Então, isso fez com que nossa campanha tivesse uma presença nas ruas, na capital e no interior, muito constante. A gente nunca subestimou nenhum dos nossos adversários, pelo contrário, nos respeitamos muito até o último minuto do dia da eleição. E acho que isso se reverteu em um resultado muito favorável.
Eu não vejo divisão, pelo seguinte motivo: finalizada a eleição, desmontam-se os palanques. A nossa gestão não vai ser pautada no revanchismo. Tanto que, apesar de aqui e acolá a campanha ter atingido temperatura alta, eu saí da eleição com uma relação pessoal excelente com os líderes dos outros dois grupos, tanto Enil, quanto Flávio. Relação de respeito, de saberem que as críticas que foram feitas não foram às pessoas… Então, assim como não houve essa fissura com os líderes, não haverá com os presidentes de subseções que foram eleitos fora do nosso grupo. Agora nós somos presidentes de todos os advogados. Não haverá diferença de tratamento, em hipótese alguma.
AR: O senhor acha que será difícil administrar a Ordem?
Fácil eu tenho certeza que não vai ser.
AR: Por quê?
Porque a Ordem é uma estrutura grande, tem um aparato burocrático que, talvez, seja maior do que o necessário, e pela responsabilidade institucional que a Ordem tem. Administrar não vai ser fácil, mas também acho que não vai ser difícil. A Ordem tem uma máquina que já funciona, independentemente do gestor. O gestor vai imprimir sua feição, suas características, mas a máquina está ali funcionando. Em segundo lugar, estou cercado de gente muito competente. Eu não ganhei a eleição sozinho e não vou gerir a OAB sozinho. A nossa chapa não foi montada exclusivamente pensando em ganhar a eleição. Foi pensada para gerir com qualidade.
Já. Uma das coisas que eu mais critico na administração pública é que a máquina governamental é muito maior do que ela precisa ser. Justamente porque existem acomodações políticas, que são feitas em detrimento da eficiência. Como nós estamos entrando sem amarras em relação ao passado e sem lotear a Ordem, eu não tenho compromissos com ninguém. Eu tenho compromisso com a advocacia de Goiás. Se for necessário fazer um enxugamento ou realocar mão de obra de maneira mais inteligente, nós faremos isso. A gente entra com a legitimidade e tranquilidade de fazer as reformas que forem necessárias. Às vezes a gente consegue diminuir o tamanho da máquina e torná-la mais eficiente. Isso já se viu em outras seccionais.
AR: O senhor pretende fazer concurso na OAB em 2016?
O concurso que é compromisso é a constituição da Procuradoria de Prerrogativas. Esse é um compromisso firme da gestão. Provavelmente, será o primeiro.
AR: A criação da Procuradoria das Prerrogativas vai gerar um gasto suportável à Ordem?
A gente tem que pensar nesse gasto dentro do contexto. Primeiro, que há outras seccionais que já têm a procuradoria e não estão endividadas. O recurso dentro da Ordem existe. O que é preciso é direcionar de maneira mais inteligente os recursos. Em segundo lugar, a OAB serve primeiramente para defender o advogado. Então, o dinheiro da anuidade deve servir para proteger as prerrogativas dos advogados, garantir dignidade profissional e uma Ordem presente no dia a dia. É importante uma sede bacana de subseção, uma sala de OAB equipada, é legal ter um clube. Só que tudo isso se torna supérfluo quando se pensa no dia a dia. Não adianta ter estrutura física se não há condição de trabalho. O nosso foco é o material humano.
AR: O senhor falou muito em rombo financeiro durante a campanha. Acredita que vai pegar a OAB quebrada?
Eu acredito que nós vamos pegar a OAB numa situação de desequilíbrio financeiro grave. Apesar de o atual presidente negar peremptoriamente essa realidade, a gente tem indícios de que isso realmente acontecesse. Primeiro, o (Sebastião) Macalé. Eu acho muito estranho que ninguém soubesse. Se é tudo corriqueiro, como foi tentado se entender, porque isso foi mantido sob sigilo? Ao longo da campanha fomos descobrindo. A seccional não tem dívidas apenas com bancos, ela tem dívidas internas dentro do próprio sistema. Atraso no repasse para a Casag, quase R$ 5 milhões, além de conversões de repasses em obras financeiras no interior, cujo lançamento na contabilidade é muito esquisito. Isso é pedalada. Na campanha, até brincamos que não foi a Dilma (Rousseff) que inventou a pedalada, foi a OAB com a Casag. E também dívidas da seccional com o Conselho Federal, repasse da cota estatutária do Conselho Federal e do Fida, o Fundo de Desenvolvimento da Advocacia. Então, vamos encontrar a Ordem em situação frágil. Vai ser preciso adotar uma política de austeridade.
AR: O senhor tem previsão de quanto tempo levará para reorganizar a gestão na Ordem?
Hoje, eu não tenho essa previsão. Mas vamos iniciar a transição administrativa na próxima segunda-feira (7). Já existe um grupo sendo formatado da nossa parte, do Enil e da Casag também. Conforme os trabalhos de transição forem se desenvolvendo, nós vamos ter uma noção de como está e até quanto tempo nós vamos precisar para resolver.
AR: Qual avaliação o senhor faz da campanha?
Eu nunca participei de nada tão legal e tão bacana, que mobilizou tanta gente. Foi gostoso fazer a campanha. E a campanha foi em uma crescente tão grande que tenho a impressão que se houvesse mais uma semana a diferença aumentaria ainda mais. Foi-se criando uma onda de esperança e as pessoas se entusiasmaram com a campanha da OAB Que Queremos. Ter sido o líder disso foi muito gratificante.
AR: Mas no geral, em relação às campanhas de todas as chapas?
Acho que a advocacia saiu maior do que entrou. Acho que temos uma oportunidade única de reconciliar a advocacia de Goiás com ela mesma. Até a eleição de 2012, ficou aquele ranço de dois grupos e um embate muito sangrento. Agora, eu não percebo isso. Percebo que os dois grupos que saíram derrotados estão conformados e dispostos a nos auxiliar.
AR: O senhor enfrentou ataques por meio de vídeos apócrifos e publicações na imprensa. Isso era esperado pelo senhor?
Eu ria daquilo tudo. Eu achei tão bobo tudo que foi colocado… Não havia verossimilhança, tanto que ficou cômico. Ver aqueles vídeos era risível. Quem fez aquilo parecia estar conduzindo uma campanha de grêmio estudantil. Foi uma surpresa. Eu tinha uma visão diferente de vários veículos. Eu percebi que há uma mercancia por trás. A opinião publicada, a tentativa de influenciar por intermédio da distorção. Ou da criação de fatos. Isso não me ofendeu, mas me chateou. Veículos perderam a credibilidade comigo. Ao invés de ir para o bate-boca, eu procurei exercer meu direito constitucional de preservação da intimidade e da dignidade, por intermédio das ações judiciais. Ganhamos direito de resposta e ele foi publicado.
AR: Com a campanha, seu nome passou a ser conhecido até mesmo fora da área jurídica. O senhor está preparado para representar não só os advogados, mas a sociedade?
Eu vou trabalhar diuturnamente para não decepcionar a advocacia nem a sociedade. A sociedade abraçou nossa campanha. Eu só entrei nessa campanha para poder ter a oportunidade de exercer o poder dentro dos parâmetros em que deve ser exercido, de maneira republicana, impessoal, moralizada. Estou com muita fé que vai dar certo.
AR: Como se sente com o status de presidente?
Na quinta-feira antes da eleição, me perguntaram: "Lúcio Flávio, você está ansioso para ganhar a eleição e virar presidente da OAB?". A resposta foi: sim, estou ansioso, mas não para virar presidente da OAB. Estou ansioso para provar a mim mesmo que é possível ascender a uma posição de poder fazendo uma campanha com base em princípios de moralidade, transparência, construção de ideias, de não partir para ataque pessoal, de não aceitar loteamento de cargos na futura estrutura, de não aceitar dinheiro de fora da campanha. Isso me deu uma nova esperança.
AR: Quanto custou sua campanha?
A gente não tem ainda esse número. Eu te falo com sinceridade. Mas eu imagino que nós vamos ficar numa cifra de R$ 2 milhões.
AR: O senhor acha que foi menos do que dos adversários?
Não tenho parâmetro. Durante toda a campanha, a gente em momento algum se pautou pelo que nossos adversários fariam. Na verdade, na minha percepção, quem pautou a campanha do início ao fim fomos nós.
AR: O senhor percorreu boa parte do Estado durante este ano, entre a pré-campanha e a campanha. Qual é hoje a principal carência da advocacia goiana?
Eu compareci a todas as subseções, exceto Cristalina, que não consegui estar lá. As reclamações do interior do Estado são mais ou menos as mesmas. Reclamam da indignidade e falta de respeito com o advogado. Em muitos lugares reclamam da dificuldade no trato com o judiciário local e a falta de celeridade. Em alguns municípios, há ausência de juízes. Agora, a situação de maiores carências, de maiores problemas que eu encontrei foi no Entorno do Distrito Federal. Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso, Águas Lindas, Cidade Ocidental, principalmente.