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Literatura oral e contação de histórias

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28.03.2017 - 21:04:27

Ao longo dos cinco volumes que compõem a edição brasileira de “Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia”, Gilles Deleuze e Felix Guattari aplicam a diversos tópicos de estudos o conceito de rizoma que formulam logo no início de sua volumosa obra. A metáfora da teoria do conhecimento cunhada pelos autores franceses pode ser entendida a partir da visualização de algumas plantas rizomáticas como, por exemplo, a vitória-régia.
 
Essa espécie vegetal aquática, nativa da Amazônia, apresenta uma grande plataforma circular na superfície da água. Sua raiz é rizomática, interligando uma plataforma arredondada a outra similar, embora na superfície elas pareçam ser independentes. É dessa perspectiva do rizoma em hastes a correlacionar elementos aparentemente separados que se servem Deleuze e Guattari na elaboração metafórica do rizoma como teorética do conhecimento em geral.
 
Como na maioria das metáforas, há naturais limitações. Numa variação em torno do conceito de rizoma, “Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia” apresenta, ainda, proposições como as de territorialização, desterritorialização e reterritorialização, que podem ser pensadas como uma espécie de inferência homológica em torno do trinômio tese, antítese e síntese. Qualquer fenômeno cultural, tomado em sua manifestação inicial, pode ser pensado como uma territorialização.
 
As transformações a que está sujeito configuram a desterritorialização, enquanto processo de mudança. A reconfiguração em um terceiro estágio provisoriamente definido, caracterizaria a reterritorialização. As diversas plataformas ou matrizes em que uma obra literária, por exemplo, pode vir a manifestar-se, configuraria essa tríade a que Deleuze e Guattari fazem referência.
 
LITERATURA, CINEMA E ORALIDADE
 
Na introdução de uma das edições brasileiras de A Ilíada, Peter Jones informa que essa obra magna da literatura mundial, que narra a guerra entre gregos e troianos por volta do ano 700 a.C., é composta de 15 mil versos. Segundo Jones, a composição em versos se deu após uma longa tradição de oralidade em torno da história protagonzada por Aquiles, Heitor, Ulisses, Príamo, Páris e Helena, dentre outros. Afirma Peter Jones: “A poesia homérica é oral no estilo (…), e sua linguagem tem origem antiga.
 
Consequentemente, é provável que a poesia épica tenha sido transmitida por poetas orais já desde a Grécia do fim da Idade do Bronze, o chamado período “micênico”, que terminou por volta de 1100 a.C. Isso talvez explique por que Homero (c. 700 a.C.) parece “saber” da armadura de bronze, por exemplo, e do combate de carros, desconhecidos na sua época, e fala na Micenas “rica em ouro” (que o era de fato no fim da Idade do Bronze, mas não no tempo dele)”.
 
Homero se serve, pois, da tradição oral, recontando uma história que já era de domínio público, emprestando sua verve à singular narrativa. Algo bastante semelhante foi realizado por David Benioff, roteirista do filme “Troia”, produção norte-americana de 2004 dirigida por Wolfgang Petersen. Nessa peça cinematográfica, a narrativa de Homero é revisitada e, dentre as naturais reformulações de conteúdo, destaca-se o olhar de modernidade que relega o papel dos deuses a meras referências, com exceção para o diálogo entre Aquiles e sua mãe, a nereida Tétis.
 
Assim, pensado em termos de veículo de manifestação, o conflito entre gregos e troianos se territorializa na oralidade, desterritorializa na narrativa homérica e reterritorializa na produção hollywoodiana, muito embora esse percurso possa ser pensado também na internalidade estrutural de cada uma dessas manifestações.
 
Essa intrínseca relação entre a oralidade, a literatura e o cinema fazem pensar na importância do resgate da oralidade nos dias presentes, mediante a atuação de grupos de contação de histórias que trazem de volta uma tradição que está na base da própria literatura, conforme acentua Paul Zumthor em suas obras “Performance, Recepção, Leitura” e “Introdução à Poesia Oral”.
 
Assim, propostas como a dos grupos Ciranda dos Contos, do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO, e Gwaya Contadores de Histórias/UFG, para a criação da semana em homenagem aos contadores de histórias dentro do calendário oficial de eventos educativos-culturais do Estado, conforme evento realizado no último dia 20 de março na Assembleia Legislativa, possuem lastros culturais significativos e merecem ser analisadas com bastante carinho.
 
 
Gismair Martins Teixeira é Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO.
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por Gismair Martins Teixeira

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