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Já passei por um incêndio

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30.09.2011 - 00:36:13


Quando me deparei hoje com as fotos do incêndio em um apartamento do Setor Oeste vi ao mesmo tempo um filme passando em minha cabeça. No dia 20 de novembro de 2009 eu sai com minha mãe, irmã, a amiga Lurian e o então namorado para fazer compras para o meu noivado que seria realizado no dia 28 de novembro, uma semana depois (o que de fato aconteceu). No caminho de volta, começamos a receber ligações de números desconhecidos e um vizinho, que na época nem conhecia pessoalmente, dizia apenas pra gente se acalmar.

Não demorou muito para recebermos ligações de vários amigos que resolveram nos visitar no mesmo dia. Eram de todo tipo, minha madrinha, amigas e clientes da confecção da minha mãe. Inicialmente achamos que nossa casa havia sido assaltada, mas por fim acabaram contando do incêndio. A proporção do estrago, entretanto, era um enigma.

Não aguentei e pedi para Luciana (afilhada de minha mãe, que estava lá) que me contasse a real situação. Eu preferia saber por telefone. Mas as lágrimas saíram quando ela disse: "Tudo! Queimou tudo!". Não conseguia dizer para minha mãe, nem para ninguém, mas acabou saindo. Minha irmã caiu em lágrimas e Carlos Eduardo acelerou. Minha avó, que morava no fundo, era a preocupação.

Quando chegamos em casa, a rua estava fechada com ambulâncias, bombeiros, curiosos, imprensa. Minha irmã desmaiou. Eu olhava e não acreditava, não restava nada… mas a gente tinha o principal: nossas vidas. Agradecia a Deus por ter insistido, antes de saírmos, para minha irmã ir com a gente. Minha avó queria ter ficado tomando conta da casa. As duas estavam ali, vivas.

Minha mãe gritava e ao mesmo tempo dizia que a gente ia conseguir tudo de novo. Ela ria de desespero, dava entrevista, mas no fundo eu sabia que ela estava sem chão. Foi nesse momento que um vizinho nos chamou e disse que tinha conseguido salvar as máquinas de costura. Alguns homens, que sequer nos conheciam e nunca descobrimos quem foi, passavam na rua no momento do início das chamas. Eles quebraram o portão e carregaram máquinas pesadíssimas. Trabalhar ainda era possível.

Dormimos fora de casa e no outro dia, quando cheguei na vovó, já tínhamos ganhado mesa, cadeiras, armários, alimentos e nos mudamos no domingo. Logo veio o sofá, o rack (doação da Carol, amiga do ballet), colchões. Na faculdade, as amigas, comandadas por Charlyne Sueste, e os professores, pela Raquel Mourão,  arrecadaram roupas, sapatos, alimentos, cobertas e R$ 600 reais que usei para comprar o guarda-roupas e a cama.

Minha vida mudou muito. Descobri que éramos amadas por muita gente. Em um mês nossa casa estava completa e nosso guarda-roupas lotado. Algumas pessoas viam pela TV, ficavam sabendo e vinham nos visitar, doar materiais e solidariedade. No fim demos sacolas de roupas para outas pessoas porque não cabiam em nossa casa. Demos camas, porque ganhamos várias, móveis, cobertas, toalhas. Não sei se agradeci todo mundo como devia, mas hoje, com o incêndio do Setor Oeste eu queria pedir que Deus ilumine essa família como iluminou a minha e, apesar de perder alguém querido, eles saibam que nasceram de novo.

Catherine Moraes é estagiária do jornal A Redação

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por Catherine Moraes

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