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Gritos e sussurros

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24.09.2012 - 10:18:49

Goiânia – Sempre fui fã da apresentadora Astrid Fontenelle, desde os tempos em que ela fazia parte da equipe da MTV. O jeito despachado e alegre da profissional cheia de conteúdo e sem medo de gerar polêmica (vide sua atuação no ótimo “Barraco MTV”, em que ela comandava memoráveis debates) me cativou para sempre.

Nos últimos meses, tenho acompanhado a luta de Astrid contra o lúpus, uma doença autoimune que pode atacar órgãos vitais – no caso dela, atingiu o pulmão e o rim. Para evitar danos maiores, como ter de fazer hemodiálise, a apresentadora desacelerou o ritmo alucinado da rotina e vem se submetendo a um tratamento pesado, que traz vários efeitos colaterais.

 
A queda de cabelos e a imunidade baixíssima são alguns desses efeitos. Astrid perdeu 14 quilos e também sente muitas dores pelo corpo. Nunca mais poderá tomar sol. Ela foi tema da coluna de ontem de Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo. Mostrou garra e coragem para se curar logo e poder criar o filho Gabriel, de 4 anos. 
 
Numa certa altura da entrevista, ela pergunta: "Por que meu corpo quer me destruir? Justo quando tava tudo certo na vida: recém-casada, curtindo meu filho fofo. Tinha acabado de ser premiada". "Chegadas e Partidas", apresentado por Astrid no canal GNT, foi eleito melhor programa de 2011 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. 
 
Em março deste ano, quando fui diagnosticada com uma doença autoimune (descobri uma inflamação na articulação entre os ossos do quadril, que causa dores enormes durante a madrugada e me impede de dormir à noite), também fiz à médica a mesma pergunta de Astrid: “Por que meu corpo quer me destruir?”. 
 
A especialista explicou que, quando somos acometidos por uma doença autoimune, o sistema de defesa do organismo (sistema imunológico) deixa de reconhecer o próprio corpo e, em vez de combater apenas inimigos, como vírus e bactérias, passa a atacar células ou tecidos saudáveis do organismo. 
 
As origens para o problema podem ser várias (como o fator genético), mas, segundo a médica, há uma causa em especial que é responsável por cerca de 80% das doenças autoimunes: o estresse. Existe uma estreita relação entre nosso estado emocional e nossa imunidade. Quando um se altera, o outro sente na mesma proporção. 
 
Nessa hora, a recomendação é pisar no freio e redefinir prioridades, para que o estresse do dia a dia seja o menor possível. Fazer isso é um desafio – confesso que até hoje não consegui mudar tudo o que queria –, mas é uma ação que acaba nos mostrando como torturamos, sem perceber, nossos corpos e mentes. 
 
Trabalhamos durante o dia e, não raro, também à noite e aos finais de semana. Geralmente, ficamos na mesma posição (sentados, com o computador à frente, ou horas a fio de pé). Somos obrigados a cumprir metas, superar resultados, fazer 30 coisas ao mesmo tempo, sem perder o sorriso nos lábios e o fio da meada.
 
Engolimos rapidamente qualquer coisa das lojas de fast food, porque não há tempo a perder. Enfrentamos o trânsito caótico, seja no transporte público lotado ou dirigindo nossos carros em meio motoristas apressados e agressivos. Levamos nossa parafernália tecnológica para todo lado e só nos desconectamos em último caso. 
 
No caso da mulher, a tortura ainda conta com requintes de crueldade. O estresse é permeado por um permanente sentimento de culpa – “poderia ter ficado melhor”, “não me dediquei o bastante” – e pelo complexo de Mulher Maravilha – “sim, é possível dar conta de tudo e ainda ser linda, sexy, bem-sucedida e pronta para ajudar os outros”.
 
Não podemos chorar nem nos lamentar, porque perdas e fracassos são para os fracos. Esquecemos as separações, as brigas, os lutos e os medos e vamos fingindo que está tudo ótimo, que quanto mais nos entulharmos de coisas para fazer e gerir, melhores e mais felizes seremos.
 
Mas não é verdade. São cobranças, obrigações, desafios e emoções sufocadas demais, sem nenhuma pausa, para um único ser humano. Tenho aprendido, a duras penas, que nosso corpo não quer nos destruir, mas nos salvar. Ele é o alerta de que estamos à beira do abismo e precisamos fazer a meia-volta já.
 
Aquela enxaqueca que não passa, a insônia que não dá trégua, a gripe incurável, as alergias insistentes e uma série de outros problemas que classificamos como “bobagens” e vamos empurrando com a barriga são, na verdade, sussurros do nosso organismo, que mostram que algo não vai bem.
 
Quando os sussurros são ignorados, o corpo grita. Doenças autoimunes, infartos, acidentes vasculares cerebrais, síndrome do pânico e depressão são alguns exemplos desses berros. Se não paramos por bem, acabamos freados por mal. É nosso corpo nos dizendo que não somos máquinas nem imortais.
 
Corremos feito loucos para “subir na vida”, sacrificamos nosso lazer, saúde e afetos, e, no final das contas, tudo o que ganhamos é gasto com médicos e terapeutas. Ainda bem que a natureza é sábia e nos deu um alerta para nossos níveis de cansaço e frustração. Quando eles estão altos demais, a sirene toca. 
 
Se levados em consideração, os gritos e sussurros do corpo e da alma podem fazer milagres por nossa qualidade de vida e realização pessoal. Se ignorados, tendem a se intensificar de maneira cada vez mais alta, incômoda e ensurdecedora. Durma-se com um barulho desses.    
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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