Logo

Goiás não é rejeito do Brasil

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.06.2011 - 16:10:15

Realizamos uma audiência pública, na quinta-feira (16/06), para debater e refutar qualquer hipótese de envio de dejetos radioativos das usinas nucleares de Angra I, II e III para Abadia de Goiás. Representantes goianos e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e da Eletronuclear foram convidados para esse debate que tomou conta do noticiário goiano.

A tese levantada pelo presidente do CNEN, Odair Gonçalves, é que seria feita uma consulta popular sobre o local a ser destinado o lixo atômico para saber se o município estaria de acordo. Argumento que não nos convenceu, já que não há suporte legal para nos tranquilizar. Essa consulta plebiscitária veio muito mais da cabeça do presidente do CNEN para tentar achar uma explicação diante de uma posição antecipada por eles, que foi a de ter como área preferencial Abadia de Goiás, que recebeu o lixo do Césio 137 após o acidente ocorrido em Goiânia em 1987.  

O presidente da Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães, mudou o tom do discurso, dizendo que seriam realizadas audiências públicas para escolher o local dos dejetos. É bom deixar claro que plebiscito e audiência pública são coisas distintas. A primeira é uma consulta antes da escolha do local, a outra ocorre quando tudo está decidido e serve para sensibilizar ou compensar a área que vai receber uma usina hidrelétrica, um depósito permanente do lixo atômico ou outras construções da União, dos estados e dos municípios.

Para evitar essa insegurança jurídica, elaborei um projeto de lei para garantir a realização de plebiscito e, ao mesmo tempo, dar poder aos municípios e aos estados para que essas medidas extravagantes e ditatoriais da União sejam barradas. A proposta será protocolada na próxima semana. Atualmente, o governo federal pode penalizar algum estado ou município sem que ele tenha o poder de rejeitar dejetos radioativos.

Vamos continuar atentos, porque existe uma decisão do Ibama que só concederá autorização definitiva para funcionamento de Angra 3 se o Brasil já tiver  decidido sobre o depósito definitivo do lixo atômico. Eles correm contra o tempo para encontrar um lugar que será condenado a receber o lixo radioativo. 

É bom lembrar que a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foi condenada a pagar indenização de R$ 1 milhão para as vítimas do acidente com Césio 137, há mais de 20 anos, em Goiânia. Goiás foi duramente penalizado pela falta de preparo do CNEN na época da tragédia. Goiás, mais precisamente Abadia, que fica a 27 km da capital, ficou com todo o ônus. As pessoas moram no município, mas são obrigadas a se deslocar para outras localidades em busca de emprego. As outras cidades da Região Metropolitana de Goiânia tiveram mais condições de se desenvolver do que Abadia, que foi preconceituosamente rotulada de “Cidade do Césio”, e recebeu por isso pouco mais de R$ 5 mil mensais do CNEN. Atualmente esse valor subiu R$ 19,5 mil, montante irrisório diante de todos os riscos e desgastes.

Mas não se trata de questão financeira. Nenhum dinheiro compensa o desgaste e os riscos que a população teria com dejetos radioativos. A cidade ficaria engessada, não receberia indústrias, a saúde da população ficaria em risco, o solo e o lençol freático ficariam comprometidos. Abadia possui um depósito para Césio, mas teria que ser construído outro para receber os dejetos de Angra. Goiás não é rejeito do Brasil para ser penalizado dessa forma.

Sou contra o uso da energia nuclear como fonte de energia. Sabemos da importância da pesquisa nuclear na medicina, mas isso nada tem a ver com usinas nucleares. O Brasil é um país que produz energia limpa e nós podemos rapidamente buscar alternativas, a exemplo do que vem sendo feito na Alemanha, Itália, Suíça e Bélgica, com a vantagem de termos tecnologia e e espaço para o desenvolvimento dessas fontes. A batalha está apenas começando, mas nós, goianos, estamos preparados para defender nosso Estado dessa praga radioativa.

*Ronaldo Caiado é produtor, médico e deputado federal  

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Ronaldo Caiado

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
José Mário Schreiner
06.10.2026
Agro conectado, economia integrada

Durante muito tempo, era natural que os setores primário, secundário e terciário tivessem seus próprios espaços de discussão, negócios e exposição. Isso porque cada atividade tem suas particularidades, desafios e oportunidades. Mas a realidade mudou. As cadeias produtivas estão cada vez mais conectadas, e as fronteiras entre os setores, menos nítidas. É nesse contexto que […]

Sam Cyrous
06.10.2026
O que faz uma vida (e uma história) significativa?

Recentemente colegas e amigos têm pedido que explique o que o tal do StoryTelling — uma moda dos últimos anos no Brasil, e algo algo com o qual trabalho desde 2007. Pensei muito se escreveria sobre a minha formação com Peseschkian, o autor do clássico “O Mercador e O Papagaio”, a minha participação ativa com […]

Marcos Spadoni
05.10.2026
AVC em jovens: o risco também se constrói nos hábitos do dia a dia

Fast food em excesso, consumo frequente de bebidas alcoólicas, cigarro, sedentarismo, noites mal dormidas, estresse constante e ganho de peso. Hábitos que parecem fazer parte da rotina de muitos adultos jovens podem, ao longo do tempo, criar um terreno perigoso para a saúde vascular. Isso porque favorecem condições como hipertensão, diabetes, obesidade e alterações no […]

Ana Carla Abrão
03.10.2026
O país na segunda-feira

Ana Carla Abrão Há mais de dois mil anos, Aristóteles escreveu que nenhuma comunidade política se sustenta apenas sobre leis e instituições. Para que uma cidade exista de fato, dizia ele, é preciso haver entre seus cidadãos alguma forma de amizade. Não a amizade que nasce do afeto, da intimidade ou da afinidade. Mas aquilo […]

Lucas Almeida
01.10.2026
Antecipação do plantio de soja em Goiás: oportunidade de calendário exige disciplina de risco

A safra 2026/27 começa em Goiás com uma mudança relevante no planejamento operacional. Em caráter excepcional, a Instrução Normativa Agrodefesa nº 5/2026 antecipou a data permitida para presença de plântulas de soja emergidas no campo; a data final do calendário permanece em 2 de janeiro de 2027. São cinco dias que, isoladamente, parecem pouco, mas […]

Letícia de Araújo Morais
01.10.2026
Letramento em saúde ajuda idosos a proteger a respiração na variação do clima

Depois de semanas de ar seco, as primeiras chuvas trouxeram alívio a Goiânia. O descanso, porém, durou pouco: o tempo seco e as altas temperaturas voltaram, e agora a previsão é de nova queda nos termômetros. Essa alternância entre umidade e secura exige adaptação do organismo e costuma agravar quadros de doenças pulmonares crônicas, especialmente […]

André Rodrigues Silva
30.09.2026
Miopia infantil não tem cura, mas lentes prometem controle da doença

Um dado alarmante que tem passado despercebido por muitos pais: Até 2050, 40% das crianças no mundo podem desenvolver miopia por conta do uso excessivo de telas, celulares e tablets. O estudo é do periódico científico British Journal of Ophthalmology que examinou mais de cinco milhões de crianças e jovens espalhados por 50 nações, em […]

Jorge Gonçalves Filho
30.09.2026
A força do varejo brasileiro

Quando analisamos os setores que movem o Brasil, um desponta com sua força: o varejo brasileiro. Dos R$ 6,7 trilhões em valores correntes que formaram o PIB brasileiro no 1º semestre de 2026, temos 9,4% produzidos pelo varejo, ou seja, cerca de R$ 630 bilhões. O PIB do varejo brasileiro, por exemplo, é 44% maior […]