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Goiânia é Noise

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11.08.2016 - 12:10:50
 
Goiânia – "A gente tá há mais de 20 anos nesse negócio de rock. Moda vai, moda vem e continuamos aqui. Porque a gente não liga pra esse negócio de sucesso. Sucesso qualquer otário aguenta", falou Márcio Júnior, vocalista dos Mechanics e um dos fundadores do Goiânia Noise Festival. 
 
"Pra nós, sucesso é o fracasso." E detonou uma sequência de hits explosivos: Fracasso, Sangue, Ódio… Em tempos sinistros de mesóclises e restrições de direitos, nada como ser direto e mandar na lata o que pensa.
 
A primeira vez que estive em Goiânia foi em 1996 pra cobrir a segunda edição do GNF, um festival que começou pequeno e underground. Vinte anos depois, voltei à capital de Goiás com a mesma missão, desta vez em outro contexto. O Goiânia Noise tornou-se o mais longevo e representativo evento do estado e um dos maiores festivais de música do país. Sempre fazendo muito barulho.
 
Vinte e dois anos sem tirar de dentro é pra poucos, ainda mais com a atual estrutura: três palcos no Centro Cultural Oscar Niemeyer, skatepark, food trucks, estúdio com gravação de clips, feirinha com opções de artigos de moda a cortes de cabelo, e algumas novidades como um álbum de figurinhas, hip hop com batalha de MCs e a inédita Conferência Noise. 
 
Fui convidado pra fechar as quatro noites de debates que se propuseram a pensar o que é independência em 2016, com a presença de Lucas Gehre, autor da revista Samba; LoveLove6, a Garota Siririca; o lendário Marcatti, único autor nacional – e um dos únicos do mundo – a imprimir suas próprias revistas numa gráfica caseira; e este humilde escriba, lançando o livro Viva La Brasa na Fora Temer Tour.
 

(Foto: Letícia Coqueiro/A Redação)
 
A conferência é mais uma iniciativa do Márcio Jr., que tocou na primeira noite do festival com os seus Mechanics, grupo que em Goiânia é maior do que o Iron Maiden. Vale dizer que eles foram os sétimos a se apresentar na sexta-feira, de um total de 55 bandas em três dias. Fui no ensaio deles na quinta, de lá fomos pra um bar frequentado por motoclubes e quando o Márcio chegou em casa ficou sabendo que havia rolado um tiroteio na sua rua. Nada mal pra começar minha aventura.
 
Fiquei hospedado no mesmo hotel que várias atrações, como a Devotos de NSA, banda do ex-VJ Thunderbird, e The Shrine, trio de skatistas cabeludos de Venice Beach, Califórnia, que tocou na sexta e vai levar sua psicodelia lo-fi pro Japão durante todo o mês de agosto. Também estavam lá os portugueses do The Dirty Coal Train, minha nova banda garageira favorita. O casal Reverendo Jesse & Conchita Coltrane faz rock sujo com duas guitarras, muita atitude e o auxílio do batera Mark Wildstone.
 
Power trios não faltaram no festival, desde o Overfuzz e Galo Power de Goiânia ao Cattarse do Rio Grande do Sul. É um formato muito honesto (guitarra, baixo e bateria) e, prum fã de Jimi Hendrix, Blue Cheer e The Impossibles feito eu, é sempre bom ver uma molecada que sabe onde a coruja dorme. E havia muitas corujas no céu, o que dava um toque ainda mais chapado às noites frias que se intercalavam aos dias quentes.
 
Sábado também teve a surf music instrumental dos Retrofoguetes, velhos amigos da Bahia que reformularam seu formato de trio pra quarteto e têm público cativo em Goiás, e o maracatu da Nação Zumbi, que pesa uma tonelada e fechou a noite tocando composições recentes como Cicatriz e clássicos insuperáveis da época do Chico Science: A Cidade, Praieira, Banditismo por Uma Questão de Classe, Um Satélite na Cabeça e Cidadão do Mundo. Falando em cidadania, Jorge Du Peixe comentou que "falta pouco pra gente estar vivendo numa ditadura".
 
"Dia desses me disseram que em terra de cego o melhor é se fingir de mudo", falou Jorge. "Fingir de mudo o caralho, é isso que eles querem." Como disse o Black Alien na sexta, "nunca deixe que ninguém diga o que você pode ou não pode fazer. Se alguém te disser pra não realizar algo, vai lá e faz."
 
Essa é a tônica da filosofia punk, muito bem representada no domingo pela Serial Killer do Rio de Janeiro e Os Cabeloduro de Brasília, bandas com 3 décadas de atuação no submundo. 30 anos é a data que o Sepultura tá comemorando, sempre arrastando um séquito de seguidores fiéis e fazendo apresentações brutais. Quando você passa tanto tempo existindo e resistindo, fica calejado e cria anticorpos contra qualquer crise, seja institucional ou geracional.
 
"O rock tá mal no Brasil todo", me falou Hélio Gazu d'Os Cabeloduro. Mesmo assim, bandas como o Matanza e CPM 22 ainda conseguem formar público graças ao seu apelo juvenil. São a porta de entrada pra muitos jovens que poderiam estar perdidos no sertanejo universitário, por exemplo. Diante do cenário atual, um festival como o GNF tem ainda mais valor porque incentiva a formação de novas bandas. E Goiânia tem centenas delas.
 

(Foto: Letícia Coqueiro/A Redação)
 
Resilientes também são os gaúchos do Tequila Baby e os paulistas do Burt Reynolds, na ativa desde os anos 90; os paranaenses do Hillbilly Rawride, 13 anos na estrada; BNegão, desde 2001 com os Seletores de Frequência; e Eric Bobo, ex-Beastie Boys, que tocou no palco Casa de Música com seu novo projeto, Cypress Junkies, pra grande parcela do público que foi ao evento só pra ouvir rap. 
 
"A coisa não está boa, mercado ruim e recesso", arremata Léo Bigode, CEO da Monstro Discos e organizador do Goiânia Noise. "Nossa história tem bases sólidas que foram construídas com muito suor e dedicação. O respeito na cena e a permanência no rock no momento em que todo mundo quer fazer outras coisas são patrimônios imateriais. Tem que gostar demais, se fosse fácil teria um monte de gente fazendo."
Ano que vem tem mais, se o seu cérebro estiver funcionando, apareça.
 
Números:
22 anos de Goiânia Noise Festival
4000 pessoas em média por noite
30 anos de Sepultura
20 anos de lançamento do álbum Afrociberdelia de Chico Science & Nação Zumbi

Shows mais despretensiosos e divertidos:

The Shrine, Dirty Coal Train, Hillbilly Rawride e Os Cabeloduro
 
Empoderamento:
Girlie Hell, Dirty Coal Train, Royal Dogs e Sixxen – bandas com mulheres à frente
 
Melhor cover:
"China Girl" de David Bowie, pela Nação Zumbi
 
Frases:
"Eu sou meu pior inimigo, mas também meu melhor amigo." Black Alien
"Deus é brasileiro e o diabo é americano." Mestre de cerimônias do festival
"Quem tá no rock é pra se foder." Retrofoguetes
 

*Adolfo Sá é jornalista e autor do blog Viva La Brasa. Mora em Aracaju e esteve em Goiânia para acompanhar o Goiânia Noise.

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por Adolfo Sá

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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