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Força do repertório salvou tributo à Legião Urbana

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30.05.2012 - 11:46:20

 

Assisti pela MTV aos 45 minutos iniciais do Tributo à Legião Urbana. O ator baiano Wagner Moura se juntou aos dois membros remanescentes que gravaram todos os discos da lendária banda candanga, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, para um especial que levou ao êxtase 7 mil pessoas ontem, tem casa lotada para o show de hoje e vai virar um disco e DVD. Não vi mais do show por que não me empolgou o suficiente e acordo cedo demais para trabalhar na quarta-feira. Logo, meu travesseiro me aparentou mais atraente que o ator cantando que o gosto amargo do corpo de não sei quem ficou na boca dele por mais tempo.

Com o término do jogo do Goiás, por volta das 21h30, mudei de canal e fui para a emissora musical. O show começou às 22 horas. Antes disso, a MTV passava o making of com cenas dos ensaios, entremeando com inserções ao vivo do Espaço das Américas em São Paulo, onde rolou o espetáculo. Os VJs da casa entrevistavam o público e artistas que chegavam. Se fôssemos nos guiar pela suposta ansiedade que eles apresentavam, parecia que teríamos uma final de Copa do Mundo. O grau de devoção beirava a histeria. Tudo era genial, tudo era fantástico, tudo era histórico. Nem se Lennon e Harrison voltassem do além e anunciassem turnê mundial com McCartney e Ringo a empolgação seria tão grande.

O show começou com Tempo Perdido e aí vi que pouco importava quem estivesse no vocal. Moura é um baita ator (talvez o melhor da nova geração, disputando o topo do pódio com Lázaro Ramos e Selton Mello), carismático ao extremo e, ao que parece, um aprazível boa praça. Mas está longe do razoável como cantor. Ele tentou compensar a deficiência vocal com emoção. Para o público, convenceu. Foi ovacionado inúmeras vezes. Para o ouvido mais atento, não. Sou chato, velho e rabugento. Saquei as derrapadas vocais, mas estava vendo o show de boa, sem reclamar. Quando minha mulher, bem menos exigente que eu, disse: “é, só dá pra ver por que é Wagner Moura mesmo”, saquei que a coisa era bem mais na cara do que eu pensava. Mas nada disso impediu a histeria coletiva do público presente.

Acredito que seria mais apropriada a presença de outro cantor ali. O Queen fez isso e se deu bem com Paul Rodgers substituindo Freddie Mercury. Por que não funcionaria com a Legião? Talvez Toni Platão (que já estava em turnê com Dado e inclusive tocou em Goiânia recentemente), Dinho Ouro Preto (pela relação histórica de amizade) ou Zélia Duncan (por também ser de Brasília e já ter experiência em substituir vocalistas em bandas que retornam) fossem opções mais adequadas. Caso a ideia fosse mesmo com Moura, um belo trio vocal dando suporte nas notas mais altas e fazendo a cama seria um bem danado ao ator.

Independente disso, o poder das músicas da Legião é envolvente demais para ser abalado por um não cantor no vocal – mesmo que isso dê um trabalhão para quem vai mixar e masterizar o disco/DVD para lançamento. Se até com banda ruim tocando em boteco vagabundo e com um som de quinta nos divertimos, imagine com dois membros da banda tirando aqueles sons que encantaram gerações e eles ajudaram a criar. Você acaba se envolvendo. E, se está in loco, se emocionando. No conforto do meu sofá, o envolvimento não foi tão grande, a emoção não existiu e a cama me seduziu.

Só para dar aquela trollada final, li isso no Twitter de alguém e rachei: “O que o Capitão Nascimento falaria para Wagner Moura ao vê-lo na frente da Legião Urbana? PEDE PRA SAIR!”. 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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