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Fim com reticências

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25.02.2012 - 20:11:30

Há 22 textos eu escrevia aqui, pela primeira vez, sobre meu frio na barriga quando o ônibus se metia por detrás dos montes, longe, longe e de repente chegava numa pequenina cidade portuguesa, totalmente desconhecida, parada, vazia e éramos só eu e minhas malas. Sozinha, com medinho do que viria e do que aconteceria. Era aquele momento em que você se pergunta: “o quê que eu estou fazendo aqui?”. E, como pode, em seis meses tudo ser completamente diferente?

Para mim, pessoas sábias são aquelas que sabem lidar com fins. Que têm, claro em suas filosofias de vida, a noção de que tudo acaba. Esse é aquele tipo de gente que sai maduro e tranquilo de um término de namoro, que não cai em depressão com a morte de alguém próximo, que sai de cabeça erguida de uma demissão, é o pai ou mãe que seguem tranquilos e levemente suas vidas quando os filhos saem de casa.

Eu ainda não sou sábia. Fins doem demais para mim. A dor passa rápido e tudo, tão logo, é aprendizado e lembrança. Mas sou relutante em admitir fins. Ainda mais quando, como em intercâmbio, há data e hora para voltar. A sensação que se tem é que a gente vem por decisão e coragem própria. E volta porque a passagem já está ali. Fins com datas são muito estranhos, não te dá tempo de processar que acabou.

E quando o dia está chegando, vêm as dores que acompanham os fins: a última noite na discoteca preferida, o último bombom caprichoso da chocolateria da cidade, a última vez caminhando até a faculdade, desfazer do guarda-roupa, do quarto, tirar as coisas da parede e dar tchau, um por um. Aqueles tchaus doloridos, porque é como diz Milton, tem gente que chega para ficar, mas tem gente que vai para nunca mais. E tem gente que tenho certeza que vou reencontrar. Mas outros, olhei profundamente nos olhos e pensei: é a última vez.

Aquela avenida que não tinha ideia de qual era quando cheguei, foi a mesma que me fez chorar deixando a cidade. Coisa de cidade pequena, tudo acontece por ali. E olhar para ela, traz lembranças demais. Aliás, essa coisa de aprender depressa a chamar de realidade é dureza. Quando me vi, estava acostumada e amando uma cidade de 30 mil habitantes e tudo que uma cidade pequena proporciona. Andar a pé, tomar um café tranquilamente depois do almoço, ver o pôr-do-sol que volta nesse fim de inverno e ter amizade com o sapateiro.

Toninho é o nome do meu amigo, sapateiro e que fez parte do exército português atuando na África em 1969. Mesmo quando não tinha sapato para arrumar, dava meu jeito de ir visitá-lo. Sempre com uma boa história sobre Portugal ou Espanha e ao fim das conversas, jogávamos loto. Nunca acreditei nesses jogos e nunca comprei um bilhetinho. Mas com Toninho fazia questão. Guardou um jogo meu de recordação e me deu moedas portuguesas de uma coleção antiga. É isso que levo de Bragança, essa simplicidade. Esse jeito interiorano de relações, como as costureiras que arrumaram meu vestido e não me cobraram porque era Natal. Ou o senhor da ourivesaria que consertou meu colar e não me cobrou também porque era coisa pouca.

Eles têm jeito e cheiro de Portugal. Apesar de ser um pouquinho longe de casa, nunca achei ruim ir até a praça da Sé, no centro, porque sempre me encantava estar num centro tão tranquilamente. Tá certo que um pouco pela crise está tudo vazio. Mas os mesmos velhinhos de sempre nos bancos a conversar, as lojas vendendo antiquarias, a Igreja sempre cheia de fiéis rezando o terço e algum estendal para compor o cenário. Isso tudo ficou natural e por isso, vou sentir falta. Até daquela noite brigantina, que assim que cheguei escrevi sobre ela, chamando de experiência antropológica. Sério que vou sentir falta de dançar kuduro e ouvir as mesmas músicas de sempre.

Mas o que acho engraçado, refletindo agora sobre esses sentimentos de fins e saudades, é que o que faz o coração bater são as pessoas, culturas e os costumes. Imensurável as experiências e conhecimentos que essa oportunidade proporcionou. Acho que nunca vou conseguir transmitir tudo que vi, ouvi, senti e vivi. Para além do que aprendi no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), nos museus, da emoção de ver Guernica, torre Eiffel ou muro de Berlin, o que balança o coração são as pessoas que fizeram parte disso e o modo de vida de cada lugar.

De Bragança, fica a saudade dos irmãos que dividi teto, almoços, jantares, aulas, festas, viagens, indignações e aprendizados. A rotina de todo dia. As pequenas graças de uma vida brigantina. E o modo de ser e viver das pessoas dessa cidade. São essas as lembranças que não saem da cabeça e são elas que vão ficar. O mesmo quando me lembro dos dias na Alemanha: me vêm à cabeça as pessoas e a cultura. É isso que aperta o coração e faz com que a gente coloque reticências ao invés de um ponto final nesses seis meses. Todo o resto é um feliz e doce sentimento de realização: o compromisso na universidade e as cidades que conheci.

E essas reticências significam muito. Significam vontade de conhecer mais, viajar mais, porque há muito a aprender. Significa vontade de estudar mais e, de preferência, em outro lugar diferente. Significa conhecer outras pessoas e outras culturas. Representam também os reencontros. São seis meses que te dão a noção de que a vida não é tão grande assim para um mundo todo que se tem pela frente a se explorar. Há muito o que se conhecer e há muito o que fazer. Ter conhecido esse continente onde a história é profunda e latente, me deu a noção de que a história continua e eu sou parte dela. Por isso, reticências, tenho que continuar.

São reticências que te dão gás e vontade também de voltar. Porque, no fundo, não há nada melhor que do que o sentimento de pertencimento. E, apesar do encantamento e saudade que já bate de tanta gente e cultura por aqui, o lugar que chamo de meu é Brasil. Barulho de carro da pamonha, muvuca nas ruas, o cheiro de almoço, a música nas esquinas, tudo isso me pertence e faz falta. E nada mais me resta do que ser andorinha que voa longe para sempre voltar para casa. Estou voltando. Mas vou voar de novo. E depois vou voltar mais uma vez. Que as reticências sempre nos levem a conhecer mais, amar e viver mais, mas voltar para casa e cuidar do nosso ninho, que chamo de Brasil…

 

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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